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Azeredo Lopes

Portugal "Fez bem". Não reconhecer Estado da Palestina seria "validação" dos comportamentos de Israel

22 set, 2025 - 19:44 • Pedro Mesquita

Terá sido avisado o reconhecimento do Estado palestiniano? Será uma decisão meramente simbólica ou terá efeitos práticos? Na leitura de Azeredo Lopes, a decisão não é meramente simbólica. No plano jurídico, diz à Renascença o antigo ministro da Defesa, "se forem minimamente coerentes", os países que reconhecem a Palestina - incluindo Portugal - terão agora que tomar medidas, porque "para eles Israel é potência ocupante e invasora de um Estado que se chama Palestina".

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Não reconhecer Estado da Palestina seria "validação" dos comportamentos de Israel", diz Azeredo Lopes
Não reconhecer Estado da Palestina seria "validação" dos comportamentos de Israel", diz Azeredo Lopes

Portugal fez bem ao reconhecer o Estado da Palestina, e nos moldes em que o fez. É a opinião manifestada à Renascença por Azeredo Lopes.

Na leitura do antigo ministro da Defesa, este passo não terá que significar, apenas, uma decisão simbólica: "Destruidor de quaisquer hipóteses da Palestina era o silêncio quase criminoso, e cúmplice, que estava a rodear esta situação. Mas há outra coisa: Juridicamente, e se os Estados forem minimamente coerentes, aqueles que reconhecem vão ter que começar a adotar medidas porque, a partir de agora, para eles, incluindo Portugal, Israel é potência ocupante e invasora de um Estado que se chama o Estado da Palestina", afirma.

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Nestas declarações à Renascença, Azeredo Lopes começa por sublinhar que Portugal fez bem em reconhecer o Estado da Palestina. Não o fazer agora seria o mesmo que validar a estratégia de Israel na Faixa de Gaza e Portugal teria que pagar, por isso, um "preço elevado".


Portugal fez bem em reconhecer o Estado da Palestina, e da forma como o fez?

Fez bem, com certeza, acho que Portugal teria dificuldades em ficar à margem da história. O não reconhecimento hoje em dia cada vez mais se aproxima de uma validação dos comportamentos que Israel está a adotar em Gaza e na Cisjordânia.

A partir de certa altura, o 7 de Outubro e os ataques terroristas do Hamas passaram a ser apenas uma justificação para aquilo que era um desígnio completamente diferente do governo israelita e, portanto, passados quase dois anos sobre os ataques 7 de Outubro, o que é que nós temos? Temos crimes internacionais dos mais graves, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e muitos, mas muitos mesmo, consideram que Israel está a cometer genocídio contra o povo palestino.

Ou seja, se nós até agora tínhamos ficado confortavelmente à sombra da influência dominante dos Estados Unidos, porque no nosso vínculo transatlântico os Estados Unidos eram e são, aliás, o elemento dominante, mas a partir da altura em que os Estados Unidos de alguma forma se afastam da Europa, o peso dos europeus no plano intraeuropeu é maior.

Se não reconhecesse o Estado da Palestina, neste momento, Portugal pagaria um preço dentro da própria União Europeia?

Pagava certamente um preço entre os seus parceiros europeus e pagava ainda pior. Ia pagar um preço muito elevado, por esta ausência de reconhecimento, perante os nossos amigos dos diferentes continentes. E, olhe, que nomeadamente podem ser decisivos para um desígnio português muito importante nas Nações Unidas, que é vir a ser escolhido como membro não-permanente do Conselho de Segurança.

Portanto, nós tínhamos muito mais a perder, até independentemente dos valores e princípios envolvidos, ou por detrás deste reconhecimento, tínhamos muito mais a perder como país nas nossas relações externas, se não reconhecêssemos. Eu acho que isso que explica, em parte, pelo menos, a razão pela qual nós aderimos ao projeto francês de juntar o maior número possível de Estados europeus que quebrassem, no fundo, aquilo que é um ciclo infernal, em que todo o mundo procura hoje reconhecer a Palestina e estávamos nós neste continente, cada vez mais, diria eu, a ficar atrás em relação à história.

Estávamos nós aqui a ser as exceções que, principalmente, serviam para legitimar um governo que não merece legitimação, que é ilegítimo, que é brutal, que é agressivo e que está a promover, como é sabido aliás, uma limpeza étnica geral.

Mas parece-lhe que Portugal, ao fazê-lo agora com outros países, de certa forma procurou resguardar-se? É um apoio que procura passar despercebido?

Não, eu acho que Portugal fez bem em dar esse apoio e até em exibir esse apoio.

Como pode imaginar, a reação de Israel é, como de costume, muito brutal, muito agressiva, aliás, muito insultuosa - porque somos todos antissemitas, aqueles que defendem o direito básico dos palestinos à sua existência - e, portanto, desse ponto de vista, a posição portuguesa fica mais confortável e fica, aliás, mais forte, sabendo-se que é sempre melhor vários Estados adotarem uma posição. E aqui entre nós, também nos protege um bocado relativamente à ira dos nossos amigos norte-americanos.

Portanto, foi preciso necessariamente, para explicar isto, dois fatores complementares: A vergonha que era continuarmos a olhar para o lado perante aquilo que se passava em Gaza e na Cisjordânia e também, já agora, o apoio que ia começar a faltar-nos de forma generalizada, por termos um escandaloso "standard" de dois pesos e duas medidas. Estou a falar, evidentemente, da guerra na Ucrânia e estou a falar, evidentemente, da guerra em Gaza.

Na verdade, é também um interesse próprio dos países europeus que reconheceram, e de Portugal, este reconhecimento.

Já agora, saiu uma sondagem em junho, e de certeza que as coisas não melhoraram, feita por aquela empresa "YouGov", que mostra que os europeus estão hoje a radicalizar o seu desapoio a Israel.

Este passo dado por Portugal, juntamente com outros países, tem algum valor mais do que simbólico?

Tem. Primeiro, o valor das nossas decisões tem que ser separado, um bocadinho, da eficácia. "Quanto é que rende? Quanto é que deu? Que juros deu?"

Às vezes, há decisões que no plano internacional não dão nada, mas depois valem muito do ponto de vista "softpower", e valem muito do ponto de vista da afirmação de princípios de decência humana.

Há uma coisa que é certa: o que não era simbólico, e o que era destruidor de quaisquer hipóteses da Palestina, era o silêncio quase criminoso e cúmplice que estava a rodear esta situação. Era o facto de nós arrepelarmos o cabelo, e muito bem, quando há 10 mortos na Ucrânia, e olharmos para o lado incomodados, sem dizer uma palavra, quando morrem 100, 200 ou 300 na Palestina.

É esta discrepância que fica aqui corrigida de alguma maneira. Mas há outra coisa: juridicamente, e se os estados forem minimamente coerentes, aqueles que reconhecem, aí vão ter que começar a adotar medidas, porque a partir de agora, para eles, incluindo para Portugal, Israel é a potência ocupante e invasora de um Estado que se chama o Estado da Palestina.

Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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