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Nações Unidas

Guterres alerta que "isolamento é uma ilusão" e defende ONU

23 set, 2025 - 15:32 • Lusa

Secretário-geral das Nações Unidas saiu em defesa do multilateralismo e da ONU, a qual considerou "uma bússola moral" e uma "guardiã do direito internacional".

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António Guterres sobre Gaza: "Sabemos o que é necessário. Cessar-fogo permanente, agora"
Veja o vídeo da intervenção de António Guterres, secretário-geral da ONU. Foto: Sarah Yenesel/EPA

O "isolamento é uma ilusão". O secretário-geral da ONU, António Guterres, saiu esta terça-feira em defesa do multilateralismo e da Organização das Nações Unidas, a qual considerou "uma bússola moral" e uma "guardiã do direito internacional".

Na abertura do debate de alto nível da Assembleia-Geral da ONU, e num momento em que as Nações Unidas celebram 80 anos, Guterres recordou o cenário que levou à criação da organização, afirmando que os líderes da altura escolheram a cooperação em vez do caos, a lei em vez da ilegalidade, e a paz em vez do conflito.

"Esta escolha deu origem às Nações Unidas -- não como um sonho de perfeição, mas como uma estratégia prática para a sobrevivência da humanidade", disse, relembrando que muitos dos fundadores da ONU viram de perto os terrores dos campos de extermínio e da guerra.

Guterres alerta que cortes na ajuda são "sentença de morte"

O secretário-geral da ONU, António Guterres, fez esta terça-feira duras críticas aos cortes na ajuda humanitária e ao desenvolvimento decretados por vários países e entidades, alertando que "roubam futuros" e "são uma sentença de morte para muitos".

Sem referir os autores desses cortes, Guterres refletiu sobre o impacto das reduções de financiamento que afetam não só toda a estrutura da ONU, como as populações por ela ajudadas, defendendo que só a justiça financeira e a solidariedade podem levar à dignidade.

"Os cortes na ajuda estão a causar estragos. São uma sentença de morte para muitos. Um futuro roubado para muitos mais. Este é o paradoxo do nosso tempo: temos as soluções, mas estamos a cortar o combustível que as tornam possível", afirmou.

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A ONU enfrenta atualmente um grave problema financeiro e orçamental, potenciado pelos cortes de verbas decretados pelo atual Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Apesar da carga de trabalho da ONU aumentar anualmente, os recursos estão a diminuir em todos os setores, o que obrigou Guterres a fazer reduções significativas no orçamento e cortes de postos de trabalho.

Além da reforma do sistema da ONU que tem em curso, António Guterres é um defensor de longa data de uma reforma da arquitetura financeira internacional, visando impulsionar o desenvolvimento para todos.

O antigo primeiro-ministro português defende que essa reforma passe por bancos multilaterais de desenvolvimento "maiores e mais ousados", com um alívio da dívida mais rápido e justo, que chegue a todos os países em crise, incluindo as economias de rendimentos médios, e instituições financeiras globais que representem o mundo de hoje -- com uma participação muito maior de países em desenvolvimento.

Justiça climática: combustíveis fósseis são uma aposta perdida

No seu discurso de abertura do debate de alto nível da Assembleia-Geral da ONU, Guterres não deixou de fora a questão da justiça climática, um tema central do seu mandato como secretário-geral.

O líder da ONU insistiu que os combustíveis fósseis são uma aposta perdida e recordou que, no ano passado, quase toda a nova capacidade energética veio de fontes renováveis.

"As energias renováveis são a fonte mais barata e rápida de nova energia", defendeu, frisando que criam empregos, impulsionam o crescimento, protegem as economias da volatilidade dos mercados do petróleo e do gás, garantem a conectividade e "podem libertar-nos da tirania dos combustíveis fósseis".

"Mas não ao ritmo atual", observou, lamentando que o investimento em energia limpa continue a ser desigual e que os subsídios públicos -- "retirados do dinheiro dos contribuintes" -- ainda fluam para os combustíveis fósseis em detrimento da energia limpa numa escala "de nove para um".

Entretanto, as emissões, as temperaturas e os desastres climáticos continuam a aumentar, e os menos responsáveis são os que mais sofrem, disse, apelando ao G20 -- as maiores economias do mundo, mas também as maiores emissoras de poluentes -- que lidere a ação climática.

António Guterres instou os países a mobilizarem-se durante a Conferência do Clima da ONU no Brasil. Definir um roteiro fiável para mobilizar 1,3 triliões de dólares (1,10 biliões de euros) anuais em financiamento climático até 2035 para os países em desenvolvimento é uma das ambições de Guterres, que defende ainda transições mais justas.

O secretário-geral abordou igualmente a questão tecnológica, com especial foco na Inteligência Artificial (IA), a qual "está a reescrever a existência humana em tempo real".

"A questão não é como pará-la, mas como conduzi-la para o bem maior. (...) Precisamos de escolher colocar a tecnologia ao serviço da humanidade", argumentou. "A tecnologia deve ser nossa serva — não nossa mestra. Deve promover os direitos humanos, a dignidade humana e a autonomia humana", reforçou.

No entanto, o avanço da IA está a ultrapassar a regulamentação e a responsabilidade, concentrando-se em poucas mãos, e os riscos atravessam novas fronteiras --- desde a biotecnologia às armas autónomas.

"Precisamos de proteções universais e de normas comuns em todas as plataformas. Nenhuma empresa deve estar acima da lei. Nenhuma máquina deve decidir quem vive ou morre. Nenhum sistema deve ser implementado sem transparência, segurança e responsabilização", apelou Guterres, instando os Governos a liderar com visão e as empresas a agir com responsabilidade.

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