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Nações Unidas

Zelensky: "São as armas quem decide quem sobrevive", não o direito internacional

24 set, 2025 - 14:41 • Ana Kotowicz

Nenhuma instituição internacional pode impedir qualquer agressão, diz Zelensky, considerando que vivemos "a corrida armamentista mais destrutiva da história".

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"O direito internacional não funciona a não ser que se tenha amigos poderosos que nos queriam ajudar." Volodymyr Zelensky, que tem dependido da boa vontade dos aliados para se defender da Rússia, adotou um tom crítico quando, esta quarta-feira, nas Nações Unidas, questionou para que servem e o que podem fazer organizações internacionais para travar conflitos nos dias de hoje, depois de, durante décadas, apenas terem feito "declarações".

Assim, Zelensky concluiu que "são as armas quem decide quem sobrevive", e não o direito internacional — ou organizações como a ONU — dando como exemplos os conflitos do Sudão, da Somália, da Palestina e, claro, da Ucrânia, durante o seu discurso na 80.ª Assembleia-Geral das Nações Unidas.

Além disso, considerou que se vive atualmente "a corrida armamentista mais destrutiva da história da humanidade", já que qualquer pessoa pode ter acesso a um drone de preço baixo e elevada capacidade de destruição.

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Quem "quer paz, ainda precisa de trabalhar com armas"

"Ninguém além de nós mesmos pode garantir a segurança. Somente alianças fortes, somente aliados fortes e somente as nossas próprias armas. O século XXI não é muito diferente do passado. Se uma nação quer paz, ainda precisa de trabalhar com armas", disse logo no início do seu discurso.

Por isso, Zelensky defendeu que "não é o direito internacional, nem a cooperação, mas as armas que decidem quem sobrevive” nos diferentes conflitos que assolam o mundo. Em seguida, questionou o papel de organizações internacionais, como a própria ONU.

“O que podem o Sudão, a Somália, a Palestina — ou qualquer outro povo que esteja a viver uma guerra — realmente esperar da ONU ou do sistema global por décadas, além de declarações e declarações?”, perguntou o chefe de Estado da Ucrânia.

"A Europa não se pode dar ao luxo de perder também a Moldávia”

Ao longo dos cerca de 18 minutos da sua intervenção, Zelensky apontou vários exemplos internacionais, antes de se focar na agressão russa ao seu próprio país. Falou, por exemplo, da situação no Afeganistão e dos cartéis de droga que são mais poderosos do que o próprio governo em alguns países da América Latina.

Os vários argumentos serviram de base para o Presidente ucraniano regressar, várias vezes, à mesma constatação: “Tudo isto tem a ver com o colapso do direito internacional e a fraqueza das instituições internacionais e, por isso, com a ascensão das armas.”

Sobre a Europa, Zelensky recordou as circunstâncias políticas da Geórgia e da Bielorrússia, que vivem sob a esfera da influência da Federação Russa, para apelar à comunidade internacional que não deixe que o mesmo suceda na Moldávia.

Já perdemos a Geórgia na Europa. Ali, os direitos humanos e a natureza europeia do sistema de Estado estão a diminuir, e a Geórgia está dependente da Rússia, e, durante muitos, muitos anos, a Bielorrússia também tem avançado rumo à dependência da Rússia", sublinhou o Presidente ucraniano, para concluir que "a Europa não se pode dar ao luxo de perder também a Moldávia.”

Mantendo o tom crítico durante todo o discurso, recordou os presentes nas Nações Unidas, em Nova Iorque, de que “é importante recordar como o mundo ignorou, no passado, a necessidade de ajudar a Geórgia após o ataque da Rússia, como se perdeu o momento com a Bielorrússia.” E insistiu: “A Moldávia não deve ser perdida.”

Aquele país do Leste Europeu tem legislativas marcadas para este domingo e o Governo tem-se queixado de sucessivas tentativas de desestabilização russas, além de temer interferências nas eleições. Já a Rússia, através dos seus serviços secretos, acusou, esta semana, os membros da NATO de concentrarem forças armadas na Roménia, perto das fronteiras da Moldávia, com o objetivo de ocupar o país.

Vivemos "a corrida armamentista mais destrutiva da história da humanidade"

Depois de falar sobre a ameaça russa, e de acusar Vladimir Putin de ser o único a não querer um cessar-fogo, Zelensky falou da nova forma de fazer guerra: praticamente sem humanos e com recurso a drones e a inteligência artificial.

"As armas estão a evoluir mais depressa do que a nossa capacidade de nos defendermos", argumentou o Presidente ucraniano, que acredita que com o advento dos drones "a tecnologia de guerra já não se importa com a geografia". O exemplo para argumentar foi vivido esta semana, na Europa, depois de veículos aéreos não tripulados terem paralisado os aeroportos de Oslo e de Copenhaga. “As autoridades nem sequer conseguiram dizer que tipo de drones eram, quem os enviou ou de onde vieram.”

E foi neste momento que o tom de Zelensky — até aqui carregado de críticas e de questionamento sobre o papel das instituições e do direito internacionais — mudou, quase convidando os líderes presentes a acompanharem-no até um futuro distópico.

Na sua perspetiva, o tempo em que apenas os "países fortes" tinham acesso a armas acabou e, neste momento, qualquer pessoa pode ter nas suas mãos um drone com capacidades mortíferas. E o que acontecerá quando todos os drones ficarem disponíveis para toda a gente? O cenário é, na sua opinião, o mais negro possível e acabará com drones a atacarem drones, deixando um cenário de destruição que só se imaginava ser possível depois de uma guerra nuclear.

Estamos agora a viver a corrida armamentista mais destrutiva da história da humanidade, porque desta vez inclui inteligência artificial", alertou o Presidente ucraniano, deixando uma última pergunta no ar. "E se não houver verdadeiras garantias de segurança, a não ser amigos e armas, e se o mundo não conseguir responder a todas as ameaças, e se não existir uma plataforma sólida para a segurança internacional, haverá ainda algum lugar na Terra que seja seguro para as pessoas?”

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