10 nov, 2025 - 16:42 • José Pedro Frazão
Lula da Silva abriu a Conferência do Clima de Belém na Amazónia com um forte ataque aos “obscurantistas que rejeitam a evidência da ciência e os progressos do multilateralismo”. Anfitrião da 30ª Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas ( COP30), o presidente brasileiro insistiu no lema da “COP da verdade” para lançar um ataque velado aos ausentes – como os Estados Unidos – e aos céticos da agenda climática.
“Eles controlam algoritmos, semeiam o ódio, espalham o medo, atacam as instituições, a ciência e as universidades. É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas”, sentenciou o líder brasileiro, batendo com a mão no púlpito onde discursou em Belém.
Lula defendeu que as alterações climáticas já não são uma ameaça do futuro, mas uma tragédia do presente, citando os impactos do furacão Melissa que fustigou o Caribe, o tornado que atingiu o estado do Paraná no sul do Brasil, as secas e incêndios em África e na Europa e as inundações na América do Sul no Sudeste Asiático.
Ambiente
Para que fique claro tudo o que é discutido na CP3(...)
“A COP30 será a COP da verdade”, é o lema que acompanha Lula em cada intervenção sobre a COP30.
O presidente brasileiro assinala que o aumento da temperatura global “espalha dor e sofrimento, especialmente entre as populações mais vulneráveis” e afirmou que o combate contra as alterações climáticas é mais barato do que fazer a guerra. “Se os homens que fazem guerra estivessem aqui nesta COP, eles iriam perceber que é muito mais barato colocar 1 bilião e 300 milhões de dólares para acabar com um problema que mata, do que gastar 2 biliões e 700 milhões de dólares para fazer guerra como fizeram no ano passado”, afirmou na abertura da COP30.
Lula respondeu também aos que, em muitas partes do mundo e ao longo dos últimos meses, foram criticando a realização da Conferência em Belém do Pará, na Amazónia, onde as limitações de alojamento eram esperadas, levando a uma espiral de especulação dos preços das dormidas ao ponto de muitos países menos desenvolvidos admitirem não estar presentes.
“Fazer a COP aqui é um desafio tão grande como acabar com a poluição no planeta Terra. Seria mais fácil ter feito a COP numa cidade acabada, sem problemas. Resolvemos aceitar o desafio de fazer a COP no estado da Amazónia, para provar que, quando se tem disposição política, quando se tem vontade e compromisso com a verdade, provamos que não há nada impossível para o Homem. Impossível é não ter coragem de enfrentar desafios”, ripostou Lula da Silva falando numa tarefa “árdua, mas necessária”.
Convidando os delegados a apreciarem a gastronomia local, Lula advertiu que “quem só vê floresta de cima desconhece o que se passa à sua sombra”, para lembrar que a Amazónia é casa de quase 50 milhões de pessoas, incluindo 400 povos indígenas. “Quando deixarem Belém, o povo da cidade permanecerá com os investimentos de infraestrutura que foram feitos aqui para vos receber”, defendeu perante os delegados.
Durante duas semanas, os delegados de todos os países do mundo deverão apresentar as suas metas revistas de redução de emissões. Lula apelou a que todos “cumpram os seus compromissos” de forma a limitar o aquecimento global a 1 grau e meio até ao final do século, lembrando que sem o Acordo de Paris de 2015 o planeta dispararia quase 5 graus nas temperaturas médias globais até 2100.
“Estamos a andar na direção certa, mas na velocidade errada. No ritmo atual, ainda avançamos rumo a um aumento superior a 1,5 grau na temperatura global. Romper essa barreira é um risco que não podemos correr”, apela Lula que pede ao mundo para “acelerar a ação climática”, garantindo o financiamento necessário para ajudar os países mais afetados pelas alterações climáticas.
O presidente do Brasil pede “uma governança global mais robusta” e defende a proposta de criação de um Conselho do Clima, vinculado à Assembleia Geral da ONU, como forma de dar a “estatura política” que esse desafio merece.
Lula convoca ainda a comunidade internacional a “colocar as pessoas no centro da agenda climática”, tendo em conta o “impacto desproporcional da mudança do clima sobre mulheres, afrodescendentes, migrantes e grupos vulneráveis”.
A fechar o chefe de Estado brasileiro citou o porta-voz do povo Yanomami quando este diz que “o pensamento na cidade é obscuro e esfumaçado, obstruído pelo ronco dos carros e pelo ruído das máquinas”. Por contraste, a partir da Amazónia, Lula convidou a dias claros de reflexão em Belém. “Que a serenidade da floresta inspire em todos nós a clareza de pensamento necessário para ver o que precisa de ser feito”.