12 nov, 2025 - 20:55 • Alexandre Abrantes Neves
A investigação jornalística do Tesla Files (em português, “ficheiros da Tesla) trouxe a público muitos segredos sobre o dia-a-dia da empresa de Elon Musk e as falhas de segurança dos seus automóveis, mas a "caixa de pandora" parece não ter fundo. Sönke Iwersen, jornalista alemão e responsável pela investigação, veio à Web Summit Lisboa desvelar mais um pouco do “mundo obscuro” que lhe ocupou mais de dois anos – e que também começa a ter efeitos negativos no seus próprio país.
“Como a procura caiu e as vendas da Tesla caíram a pique, 50% na Alemanha, a empresa está a passar por momentos muito difíceis. Agora, o responsável da Tesla na Alemanha começou a insultar os seus próprios funcionários, dizendo que são preguiçosos. E se faltam ao trabalho, se ligam a dizer que estão doentes – e isto é difícil de acreditar –, o próprio patrão da Tesla Alemanha visita os funcionários. Ele vai a casa deles”, revelou, numa conferência na Web Summit, moderada pelo também jornalista norte-americano Rob Pegraro, especialista em temas de tecnologia.
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Perante a desavença com os sindicatos – que Musk considera serem “fantoches” da concorrência, como a Volkswagen e a Mercedes –, o patrão decidiu cortar salários, diz Iwersen. “Claro isto não é legal, mas demora muito tempo intentar uma ação judicial”, lamentou.
Nada disto surpreendeu Iwersen, que em julho deste ano publicou o livro “Tesla files” onde retrata os abusos dentro da companhia, seja com trabalhadores, seja com os consumidores. Acedeu a mais de 23 mil documentos (pelas mãos de um trabalhador da empresa e denunciante anónimo que, embora absolvido, passou meses a fio com problemas na justiça) e percebeu, por exemplo, que havia indicações específicas para não responder a reclamações de clientes que diziam que o piloto automático dos carros Tesla cometia erros, não respondia a ordens e os colocava em perigo.
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A necessidade de confirmar a veracidade destes dados acabou a dar à equipa de investigação do jornal alemão "Handelsblatt" mais provas das “más condutas” da Tesla. A primeira estratégia foi simples: pegar nos dados que tinham, muitos deles com informações salariais, e confrontar os trabalhadores com eles. A falta de resposta sobre as perguntas significava muitas vezes um “sim”.
“Ligávamos e perguntávamos. ‘Sei que trabalha na Tesla e também sei que, no ano passado, ganhou 65 mil dólares, e por aí fora’. E, depois, do outro lado da linha, fazia-se silêncio e perguntavam: ‘Como é que sabe isso?’”, relatou.
A confirmação viria também pela própria voz da Tesla que, confrontada com os dados, enviou mensagens a tentar travar o trabalho.
“Recebemos uma carta enorme a dizer que esta informação foi roubada e que não deveríamos usá-la. Disseram também que, se a usássemos, entrariam com um processo e tudo mais. Era exatamente o que queríamos ouvir”.
Por tudo isto, a situação nas fábricas alemãs da empresa não o surpreendeu – deu-lhe, sim, a convicção de que Elon Musk nunca “irá mudar”.
“Depois de três anos a pesquisar e a conviver com Elon Musk, percebe-se que este homem nunca vai mudar e nada no mundo o vai impedir. Quer dizer, ele prometeu que o piloto automático estaria funcional há dez, 12 anos. E até disse que a Tesla vale o que vale por causa disso. Mas também disse que tinha um milhão de pré-encomendas da Cybertruck [modelo da Tesla]. E agora, penso que no ano passado venderam 40 mil unidades da Cybertruck”, assinalou.
Ao longo dos 25 minutos de palestra, Sönke Iwersen desfiou um rol de outras irregularidades de Elon Musk para tentar provar uma tese: a vontade tão forte de entrar na política não passa de uma tentativa de escudo legal.
“Ele disse antes das eleições: ‘Se Trump perder, estou lixado’. E a própria mãe foi à Fox News e, quando questionada sobre o porquê de o filho ter entrado para a política, respondeu: ‘O meu filho é um génio, isto é autodefesa’. Os democratas querem investigar a Tesla e a SpaceX, querem impedi-lo. Por isso, ele teve de ir lá e garantir que Donald Trump ganhava”, defendeu.