09 dez, 2025 - 11:12 • Olímpia Mairos


A população do Sudão do Sul enfrenta uma crise humanitária em rápida deterioração, agravada pela drástica redução do apoio e do interesse internacionais. O alerta é lançado pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) no relatório recentemente publicado, intitulado “Deixados para trás na crise: escalada da violência e colapso dos cuidados de saúde no Sudão do Sul”.
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Baseado em dados médicos e testemunhos de pacientes, cuidadores e profissionais de saúde, o relatório descreve um cenário alarmante: um sistema de saúde à beira do colapso, onde a falta de medicamentos, pessoal e financiamento ameaça milhares de vidas.
“O sistema de saúde do Sudão do Sul está no limite. Em todos os locais onde a MSF atua, as nossas equipas testemunham enormes lacunas nos serviços de saúde, afirma Sigrid Lamberg, chefe de operações de campo da MSF no Sudão do Sul, citada em comunicado.
“As instalações de saúde ou não funcionam ou têm recursos muito insuficientes. A escassez crónica de medicamentos e pessoal significa que as pessoas estão a morrer de doenças evitáveis e tratáveis. As instalações de saúde precisam de apoio no terreno, não no papel”, acrescenta.
A violência armada no país atingiu níveis sem precedentes desde o acordo de paz de 2018. Confrontos entre forças governamentais, grupos de oposição e milícias locais intensificaram-se em 2025, resultando em mais de 2.000 mortos e 320.000 deslocados, segundo as Nações Unidas.
Entre abril e novembro deste ano, as equipas da MSF trataram 141 pacientes com ferimentos de guerra em Malakal — muitos deles mulheres e crianças. A organização denunciou também oito ataques diretos às suas instalações e equipas em várias regiões, incluindo Equatoria Central, Jonglei e Alto Nilo, o que levou ao encerramento de dois hospitais.
“Em 3 de dezembro, a nossa instalação foi atingida por um ataque aéreo na cidade de Pieri, no estado de Jonglei”, relata Lamberg, acrescentando que “No mesmo dia, testemunhámos novos bombardeamentos em Lankien, onde também gerimos instalações de saúde”.
As comunidades enfrentam múltiplas crises simultâneas: conflito armado, deslocamentos em massa, inundações, desnutrição e surtos de doenças, incluindo o maior surto de cólera da história do país. Apesar disso, o financiamento internacional continua a encolher.
O Projeto de Transformação do Setor da Saúde (HSTP), criado em 2024 para apoiar 1.158 unidades médicas, hoje cobre apenas 816 — muitas ainda sem medicamentos ou pessoal suficiente.
Uma cuidadora em Toch contou à MSF a dificuldade em encontrar tratamento para o filho: “Viajei de Keurdeng, demorei uma hora. Há uma pequena unidade de saúde, mas não tem todos os medicamentos — às vezes, os suprimentos acabam muito rápido. Levei a criança ao centro de saúde, mas não havia medicamentos”, contou.
A malária continua a ser a principal causa de morte no país. Só entre janeiro e setembro de 2025, as equipas da MSF trataram 6.680 casos graves, muitos em crianças pequenas. A falta de medicamentos durante a época alta agravou a crise.
A MSF apela agora a uma ação urgente da comunidade internacional e ao governo do Sudão do Sul, que atualmente destina apenas 1,3% do orçamento nacional à saúde, muito abaixo dos 15% prometidos na Declaração de Abuja.
“A situação no país é catastrófica», alerta Lamberg, advertindo que “as necessidades urgentes da população do Sudão do Sul exigem uma ação coordenada, um compromisso renovado e uma solidariedade internacional genuína”.
“O mundo não pode desviar o olhar, especialmente agora”, remata.