14 dez, 2025 - 09:12 • José Pedro Frazão
Sentado numa cadeira nos Açores, Onésimo Teotónio de Almeida, 78 anos, recebeu diversas mensagens automáticas de alerta no telemóvel sobre o que se estava a passar a 50 metros do seu gabinete do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros na Universidade de Brown, em Providence, nos Estados Unidos. Não teve acesso a informação que lhe permita avaliar se alguém da sua esfera académica foi afetado pelo ataque deste sábado.
Em entrevista à Renascença, o escritor açoriano radicado naquela cidade reflete sobre o ambiente propício à violência nos Estados Unidos. Ao cabo de 53 anos na América, jubilado como professor em Brown, Onésimo Teotónio de Almeida admite ser questionado no regresso pelas autoridades sobre as posições públicas que defende sobre o país onde vive, em entrevistas como esta. Mas assume não ter medo de falar.
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Em que zona da universidade aconteceu este ataque?
Fui informado por um sistema que a universidade tem, que usa sobretudo quando há temporais ou mau tempo. Quando há qualquer problema, somos avisados e todos recebemos imediatamente mensagens de gravação. E a mensagem dizia que havia tiros na zona do Barus and Holley, o edifício do Departamento de Engenharia, que fica, por acaso, muito perto, a 50 metros, do Departamento dos Estudos Portugueses. Fomos recebendo sucessivos avisos para ficar em casa, escondermo-nos e desligar o som dos telemóveis.
O campus da Brown era muito sereno, calmo. Toda a minha vida eu passeei por ali à noite. Ainda me lembro, recentemente, estive ali com Lídia Jorge, fascinada com a serenidade, as pessoas a passearem por ali, gente a ler, a estudar, em atividades.
Havia segurança ali à volta, porque ao contrário do que acontece na Yale, que fica a 2 horas mais a sul, em New Haven, a Universidade de Brown não tem problemas de violência.
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Não tem memória de um caso assim?
Nunca, nunca, nunca. É a primeira vez que isso acontece. Estou ligado à Universidade desde 1972, portanto há 53 anos. Ouvimos essas histórias, lá longe, num liceu, numa escola, mas ali, absolutamente nada, nunca.
O campus é grande, são 270 prédios. O Barus and Holley, caramba, tanta vez que eu entro naquele edifício. E a Governor Street, uma rua por trás, tanta vez que eu passo por ali, quase diariamente.
Seria o segundo dia de exames, e, eventualmente, poderiam estar alunos exatamente nesse contexto. Isto faz sentido no calendário escolar?
Sim, a Universidade fecha a 20 ou 21 de dezembro. As aulas acabaram no final da primeira semana de dezembro, e os alunos estão lá em exames. Alguns já foram para casa, os que não têm exames ou que podem enviar exames por e-mail. Ficam sempre alguns alunos mais uma semana
Mesmo ao sábado?
Sim, as bibliotecas estão abertas, os edifícios estão abertos toda noite, os alunos entram e saem. Ali, a 50 metros desse edifício de Engenharia, há uma biblioteca de ciências, que está aberta toda a noite, 24 horas. Há também uma biblioteca que fecha à meia-noite, na altura dos exames, e uma biblioteca um pouco mais longe, que fica aberta até às 2 da manhã.
A Brown University tem 2.500 alunos de pós-graduação, que têm chaves para entrar nos prédios. Mas àquela hora — 16 horas — o edifício estava aberto, os alunos entram e saem com a maior descontração, sempre num ambiente pacífico. Só recebi a informação automática que é enviada para todas as pessoas que estão afiliadas com a universidade.
Fale-me do antigo bairro português que fica ali próximo.
Providence foi um dos portos de chegada de muitos imigrantes portugueses, sobretudo açorianos de São Miguel, que, na segunda metade do século XIX, foram para os Estados Unidos. Durante muitos anos, o porto de Providence teve um bairro português, contíguo à universidade. A minha avó paterna nasceu em Providence. Fica a nove ou dez quarteirões do meu departamento.
Hoje, praticamente, essa comunidade já não existe. Existe a igreja, existe ainda uma outra loja. Os portugueses saíram, praticamente, de lá para a periferia. Mas foi durante muitos anos um bairro português contíguo. É conhecido como Fox Point, que é a zona do Porto.
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Quando eu era estudante de pós-graduação na universidade, nos anos 70, os estudantes estavam a alugar apartamentos ali no bairro por serem mais baratos. E houve uma campanha contra o bairro português e a universidade decretou que os alunos não podiam alugar quartos ali para não perturbar a textura étnica da comunidade portuguesa, pois iam subir as rendas.
Existe uma igreja construída por portugueses onde as pessoas ainda vão ao fim de semana. A minha avó foi batizada lá em 1897. Mas do bairro português, praticamente restam hoje uma outra loja, uma padaria, uma loja de bebidas alcoólicas madeirense.
A Universidade cresceu muito e tem dormitórios onde os alunos mais novos são obrigados a viver. Os alunos do 3º e 4º ano podem viver fora da Universidade e alugam, muitas vezes, um apartamento de quatro ou cinco quartos e vivem lá em conjunto. Os estudantes de pós-graduação não estão obrigados a viver na Universidade. E vivem em casas que, ainda hoje, muitas delas são casas de portugueses. Estes vivem na periferia, mas mantiveram os prédios de apartamentos, de três andares, que ainda alugam aos estudantes.
Os portugueses, logo que puderam, compraram casas na periferia, com terreno à volta, com animais, etc. São maioritariamente dos Açores, mas mesmo que sejam de Portugal Continental têm gosto em ter animais à volta da casa, etc.
Quando o contactei sobre este incidente, disse-me que assim vai a América em que cresceu. O que quer dizer com isto?
Esta não era bem a América em que eu cresci. Vim para a América com 25 anos, vivi nos Estados Unidos durante 53 anos e ainda estou lá metade do ano. Nunca me preocupei com tiros na rua, nunca. Sempre andei à noite, faço caminhadas sempre com a minha mulher e nunca me preocupei absolutamente nada. As pessoas falam na violência, mas na maioria da cidade anda-se perfeitamente à vontade, sem qualquer problema.
Não queria fazer disso uma questão política — porque não sei qual é a ligação, se tem alguma — mas houve durante o período de Obama uma enorme calma no país. Havia uma mensagem muito clara ‘de cima’, de harmonia racial, de convivência. A América sempre teve o seu lado violento, nós todos sabemos disso.
Há 28 emendas que foram sendo acrescentadas e funcionam como se pertencessem à Constituição. A primeira é o direito à liberdade de expressão, que hoje é constantemente posta em causa pelo Presidente que lá está. Ele não respeita nada disso. A segunda é o direito ao porte de armas. Isso é uma coisa que me custa, o facto de as pessoas terem armas é sério. Não é que não haja pessoas que não tenham, mas não faz parte da tradição na Nova Inglaterra.
Essa violência está a chegar a pontos da América onde não costumava existir?
Sim. É uma atitude genérica hoje de violência. E aí, não tenho qualquer problema em dizer isso publicamente: a mensagem que é transmitida pelo Presidente atual é só ver o que ele fez no 6 de janeiro — essa mensagem, essa atitude, esse espírito hoje, solta e desinibe as pessoas que estão propensas à violência. Não quero dizer que ele é responsável por isso, mas ele não ajuda nada. O ambiente criado por ele não ajuda nada a conter a conter os instintos de violência que existem.
Repito, não estou a dizer que ele é culpado por isto, não. A atitude presidencial era sempre de criar estabilidade, convivência, de insistir numa paz social. E isso não é o que nós temos hoje.
Está nos Açores desde agosto. O que é que nos primeiros 6 meses de Trump mudou no quotidiano americano?
Já tinha sentido isso de 2016 a 2020. Mas o Presidente Trump de 2016 a 2020, não se compara. Ele estava lá, completamente sem saber o que fazer, meio desorientado, etc. Havia caos na Casa Branca, mas a vida continuou. O que tem acontecido nos últimos 8 meses? Basta só seguir as publicações e as entrevistas dele, o que ele diz, o modo como ele trata as pessoas, como insulta toda a gente.
Mas o que é que muda mesmo no dia-a-dia?
É um estado psicológico, de receio, de instabilidade. Eu não notei nada no estado onde eu vivo, em Rhode Island, até agora este incidente. Repito, não estou a dizer que isto tem a ver com Trump, mas criou-se um ambiente de instabilidade, de receio. As pessoas têm receio de falar, embora haja muita gente que abertamente fala e use canais diversos. Receiam uma atitude mais ostensiva de uma certa brutalidade que não era comum. Há uma atitude das pessoas em geral, até nos supermercados, nas ruas, no trânsito, nota-se isso. Sente-se um espírito que eu e muita gente que viveu na América todo esse tempo dizem que não era nada comum na América.
Em Portugal houve sempre uma atitude muito anti América, nos anos 60, quando eu me criei aqui nos Açores. As pessoas depois chegavam lá e achavam a América supercivilizada, as pessoas eram atenciosas.
Recordo-me que Vergílio Ferreira, o grande escritor português, em 1985, foi aos Estados Unidos a meu convite à minha universidade. Fui buscá-lo ao aeroporto e ele fez a viagem muito calado entre o aeroporto - que fica só a 15 minutos da cidade - e o campus, com tudo verde, jardinado, com árvores- E a frase dele foi assim: ‘mas desta América eu até gosto’.
Essa foi a expressão que tive ao longo de 50 anos, de centenas e centenas de pessoas, ministros, escritores. Organizei a primeira ida de Saramago aos Estados Unidos, e até Saramago, sendo politicamente quem era, sentiu-se bem.
Era uma sociedade muito civilizada. Hoje de facto não sinto isso. Senti isso, eu e muita gente, uma atitude agressiva da parte de muita gente, portanto Trump libertou o lado animal dos seres humanos.
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Nós tínhamos, nos anos 60, a ideia de que o ‘homem novo’ ia acontecer, aquela ideia ‘rousseuiana’ que o Marx bebeu ingenuamente, que os seres humanos eram bons, o capitalismo é que os destruiu. Não, os seres humanos são capazes das coisas melhores e piores, mas uma sociedade moderna tem procurado debelar o lado animal dos seres humanos e procurado institucionalizar um conjunto de regras que proíbem e inibem pessoas de utilizar o lado animal que vá afetar a vida dos outros.
Isso tem sido o que a América tem conseguido. Hoje a América está solta, há um espaço de liberdade para o lado animal das pessoas, da vida pública. Não significa que isto esteja a acontecer por todo o lado, mas há manifestações. Qualquer pessoa de repente irrita-se, as pessoas controlavam-se e, portanto, existe um ambiente psicológico que não é o que eu conheci e em que me criei.
Admirei sempre muito a América, quando em Portugal era um crime. Colocavam-me naquela ideia ‘ah, está vendido ao capitalismo’, mas não era nada disso. Costumava dizer que a América era o maior exemplo da tentativa de domar os animais da selva, e fazer com que os animais selvagens conseguissem conviver e tolerar-se, e viver e deixar viver. Hoje quem tem um instinto menos civilizado, sente-se estimulado a libertar esse lado.
Nas universidades americanas vinham acontecendo os protestos pro-palestinianos a que seguiu, depois com Trump, a questão do corte de financiamentos e a pressão sobre as universidades. O que é que mudou também na atmosfera dentro das próprias universidades neste novo tempo de Trump?
A minha universidade era uma universidade quase no extremo do liberal. E muitos dos alunos eram pró-Palestina, etc. E também acamparam pacificamente em protesto.
Eu lecionava um curso para alunos de todas as áreas, desde a matemática às ciências, e cinco deles que estavam também acampados. Conversei com eles e disse-lhes; ‘tomem cuidado, porque não estão a preocupar-se com as eleições’. Isto foi em abril de 2024, o último ano de lecionação, e eu disse-lhes; ‘vocês agarram estas causas extremas e perdem as eleições. Se Trump ganhar as eleições, isso vai tudo ao ar’.
Consegui que os alunos se sentassem à mesa e influenciaram. Eram pessoas influentes no movimento. E eles entraram, negociaram com a reitora e acabaram com aquilo.
Os alunos estão a ficar mais empenhados na política americana. Estavam demasiado envolvidos em causas, e aí eu culpo algumas pessoas que estavam agarradas a algumas causas liberais. São muito boas, mas quando depois isso passa para o público em geral, não ligado às universidades, esse público acha que isso são exageros, retrai-se e agarram-se todos a Trump. As universidades como a minha tiveram culpa por terem acelerado demasiado esse lado e descurado a eleição de um Presidente.
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Na América, para ganhar as eleições não se pode ir muito a extremo. São decididas por uma minoria de 10%, pois ficam entre 51% e 49%. A direita é irreconciliável, a esquerda é irreconciliável, os democratas são irreconciliáveis. Mas há 10% que oscilam, um grupo intermédio sensível a pequenas alterações de um lado e do outro. Há que pensar em termos globais e perceber que não se pode exagerar nem para um lado nem para o outro, porque senão perde-se a eleição e acontece como aconteceu agora.
Também existe no caso da Brown essa pressão do corte do financiamento à universidade?
Sim, as universidades foram confrontadas com uma proposta de Trump, autocrática, que nunca aconteceu na América: ‘dou dinheiro a vocês se aceitarem fazer isto e isto’. A Brown e o MIT não aceitaram e neste momento a Brown perdeu algum investimento da parte do governo, mas não cedeu. Perdeu alunos estrangeiros porque a Brown dava bolsas a alunos estrangeiros de países que hoje não vão para os Estados Unidos porque a legislação imposta por Trump impede que esses alunos venham.
Há mesmo professores que não puderam reentrar porque tinham defendido a causa e isso nunca aconteceu nos Estados Unidos. A universidade foi afetada, o ataque de Trump é claríssimo a todas as universidades da ‘Ivy League’ [universidades mais prestigiadas]. Ele detesta as Ivy Leagues, que, para ele, são demasiado liberais
Eu conheço professores que não são americanos, não têm cidadania, mas estão a lecionar e não vieram de férias aos seus países porque a universidade avisou que podiam não reentrar e eles ficaram lá. Todas as universidades estão a ser afetadas.
Para mim isto é potencialmente grave, mas tenho falado sempre abertamente. Vou na segunda-feira, dia 21 de dezembro, para Boston. Posso chegar lá e ser parado porque vão exigir às pessoas que vão ao Campeonato do Mundo a lista das intervenções nos últimos 5 anos nas redes sociais. Pode-me acontecer isso, do modo como assumo as responsabilidades.
Mas, com o seu percurso, teme uma situação dessas?
Eu não temo. Tenho a consciência que me pode acontecer, mas isto não me impede de falar. Tenho consciência de que tudo pode acontecer neste momento. Se fosse há 10 anos, eu diria absolutamente impossível isto acontecer na América. Agora não sei. Mas se eu temesse, não estava aqui a falar consigo.