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União Europeia

Entre abates, Mercosul e menos fundos europeus, agricultores mostram-se frente ao Parlamento Europeu

17 dez, 2025 - 15:17 • João Pedro Quesado, enviado especial a Estrasburgo

Buzinas que tocam “Baby Shark”, um forno para cozinhar muitas “tarte flambée” e tratores parados. Este protesto de agricultores em Estrasburgo não parou o Parlamento, mas foi sinal de que a União Europeia está longe de satisfazer os pedidos de quem alimenta a Europa.

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Entre abates, Mercosul e menos fundos europeus, agricultores mostram-se frente ao Parlamento Europeu
Entre abates, Mercosul e menos fundos europeus, agricultores mostram-se frente ao Parlamento Europeu

É a última vez que o Parlamento Europeu vem a Estrasburgo em 2025, e os agricultores franceses não desperdiçaram mais uma oportunidade para manifestar o seu descontentamento. A lista é grande.

“O Mercosul, as negociações da PAC [Política Agrícola Comum], que aparentemente querem reduzir o orçamento para a agricultura entre 20 e 25%, e a taxa de carbono sobre os fertilizantes, que vai encarecer os custos de produção”, enumera Paul Fritsch, coordenador do protesto e ex-chefe da secção regional do sindicato de agricultores ‘Coordination Rurale’.

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Entre as preocupações está ainda a dermatose nodular contagiosa (DNC), uma doença viral que afeta o gado bovino. Na França, os agricultores estão a bater de frente com o Governo devido ao abate compulsivo de centenas de bovinos, em resposta a um surto que começou em junho.

“Em França aplicamos à letra as diretivas europeias, isso significa o abate total do rebanho, o que nós denunciamos”, sublinha Paul Fritsch. “Não queremos mais o abate total do rebanho”.

“O que queremos é a vacinação para todos os criadores e o abate de uma vaca apenas quando ela estiver doente”, aponta Marie Paule, criadora de cabras na região. “Significa que, se tivermos um rebanho de 100 animais e houver um animal doente, abatemos o animal doente. O resto do rebanho, vacinamos e fazemos testes para ver como reagem antes do abate total, porque isso é uma aberração total.”

Com temperaturas perto dos zero graus, cada "tarte flambée" que saía do forno ajudava a aquecer o protesto dos agricultores. Foto: João Pedro Quesado/RR
Com temperaturas perto dos zero graus, cada "tarte flambée" que saía do forno ajudava a aquecer o protesto dos agricultores. Foto: João Pedro Quesado/RR
Protesto de agricultores frente ao Parlamento Europeu em Estrasburgo. Foto: João Pedro Quesado/RR
Protesto de agricultores frente ao Parlamento Europeu em Estrasburgo. Foto: João Pedro Quesado/RR
Protesto de agricultores frente ao Parlamento Europeu em Estrasburgo. Foto: João Pedro Quesado/RR
Protesto de agricultores frente ao Parlamento Europeu em Estrasburgo. Foto: João Pedro Quesado/RR
Protesto de agricultores frente ao Parlamento Europeu em Estrasburgo. Foto: João Pedro Quesado/RR
Protesto de agricultores frente ao Parlamento Europeu em Estrasburgo. Foto: João Pedro Quesado/RR

A maior preocupação, no entanto, é mesmo o acordo comercial entre a UE e os países do Mercosul, na América do Sul. As palavras de ordem ostentadas pelos tratores são prova disso. “Não ao Mercosur” está por todo o lado — um trocadilho em francês é “Mercosur, merde a coup sur” (“merda com certeza”).

“Vai causar tantos danos às vacas francesas quanto a DNC, porque haverá carne em excesso”, prevê o líder do protesto, entre buzinas que fizeram soar a afamada música “Baby Shark” pelo distrito europeu de Estrasburgo.

O Parlamento Europeu aprovou, na terça-feira, normas mais restritas para o acordo da União Europeia com o Mercosul. Entre os 662 eurodeputados presentes, 431 votaram a favor de medidas de salvaguarda para proteger os agricultores europeus da entrada massiva de produtos mais baratos a partir da América do Sul.

As alterações foram apoiadas principalmente pela França e Itália, e ainda têm de ser discutidas e consensualizadas entre o Parlamento, a Comissão e o Conselho da União Europeia, que representa dos 27 países. Entre as medidas está uma obrigação de reciprocidade, que requer aos países do Mercosur aplicar os padrões de produção da UE para poder vender produtos ao mercado único europeu.

Mas ainda é insuficiente para acalmar a revolta dos agricultores. “Vamos importar carne que não cumpre as nossas normas, carne com hormonas, e que vai inundar os nossos mercados, fazendo com que os preços caiam”, acusa Paul Fritsch.

Este não é um protesto disruptivo como outros a que os agricultores têm habituado a França e a Europa. Cerca de duas dezenas de tratores e à volta de 50 agricultores estacionaram no acesso ao Parlamento Europeu em Estrasburgo.

O maior transtorno provocado é obrigar todos a percorrer mais metros para entrar no Parlamento Europeu, e a resistir à tentação das “tarte flambée” — típicas de Estrasburgo, estão a sair quentinhas de um forno que os agricultores rebocaram até ao local. O maior protesto é esperado em Bruxelas, nos dias em que começa o Conselho Europeu.

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