02 jan, 2026 - 13:52 • Olímpia Mairos
A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) denunciou, esta sexta-feira, o que classifica como uma tentativa “cínica e calculada” de Israel de impedir a atuação de organizações não governamentais internacionais nos Territórios Palestinianos Ocupados.
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Segundo a MSF, a ameaça israelita de recusar o registo da organização — bem como de outras INGOs — compromete gravemente a prestação de cuidados médicos essenciais em Faixa de Gaza e na Cisjordânia, constituindo uma violação das obrigações de Israel ao abrigo do direito internacional humanitário.
Em comunicado, a MSF afirma que negar assistência médica a civis é “inaceitável em qualquer circunstância” e considera “chocante” o uso da ajuda humanitária como instrumento político ou de punição coletiva. A organização alerta que Israel está a intensificar um ataque direto à resposta humanitária, colocando em risco imediato os cuidados de saúde e a sobrevivência da população civil.
A MSF rejeita de forma categórica as acusações recentes feitas por autoridades israelitas, que alegam que a organização empregaria pessoas envolvidas em atividades militares. “Nunca empregaríamos conscientemente alguém ligado a ações militares. Isso contraria os nossos valores e a nossa ética fundamentais”, sublinha a organização.
De acordo com a MSF, as descrições feitas pelas suas equipas no terreno — marcadas por morte, destruição e sofrimento humano em larga escala — refletem a realidade vivida pela população de Gaza. “Se essas descrições são incómodas para alguns, a responsabilidade é de quem comete as atrocidades, não de quem as denuncia”, afirma a MSF, em comunicado.
A organização expressa ainda sérias preocupações quanto à exigência de registo que obriga à partilha de dados pessoais dos seus funcionários palestinianos com as autoridades israelitas. Essas preocupações são agravadas pelo facto de 15 profissionais da MSF terem sido mortos por forças israelitas desde o início do conflito.
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Para a ONG, exigir listas de funcionários como condição para acesso ao território, num contexto em que trabalhadores médicos e humanitários têm sido intimidados, detidos arbitrariamente e mortos, constitui “um abuso ultrajante” que compromete a independência e a neutralidade humanitárias.
Segundo a MSF, não há qualquer clareza sobre como esses dados sensíveis seriam utilizados, armazenados ou partilhados. Apesar disso, a organização afirma que o ministério israelita responsável pelo processo de registo ignorou repetidos pedidos de diálogo e optou por lançar acusações nos meios de comunicação social.
A MSF denuncia ainda que as forças israelitas mataram e feriram centenas de milhares de civis, destruíram deliberadamente infraestruturas essenciais e atacaram profissionais de saúde, trabalhadores humanitários e jornalistas. Atualmente, mais de metade da Faixa de Gaza encontra-se sob controlo israelita, com a população forçada a viver em áreas cada vez mais reduzidas, em condições descritas como desumanas.
No terreno, a MSF apoia um em cada cinco leitos hospitalares em Gaza e presta assistência a uma em cada três mulheres durante o parto. Embora reconheça que este apoio é insuficiente face às necessidades, a organização alerta que a sua retirada teria “um custo humano devastador”, sobretudo depois da destruição sistemática do sistema de saúde local.
A crise humanitária agrava-se ainda mais com as condições climáticas. Pelo terceiro inverno consecutivo, Gaza enfrenta baixas temperaturas, chuvas intensas e ventos fortes, que destruíram abrigos improvisados e inundaram zonas onde vivem milhares de deslocados. Ao mesmo tempo, Israel continua a bloquear a entrada de bens essenciais como tendas, lonas e habitações temporárias.
Para a MSF, impedir a atuação da organização e de dezenas de outras ONG representa uma escalada dos ataques contra a população palestiniana. “Permitir a ajuda humanitária não é um favor, é uma obrigação legal”, reforça a organização, sublinhando que, hoje mais do que nunca, os palestinianos precisam de mais serviços de saúde e assistência, e não menos.