21 jan, 2026 - 00:48 • Reuters
O mundo enfrenta uma “falência” irreversível da água, com milhares de milhões de pessoas a lutar contra as consequências de décadas de sobre-exploração, bem como com a redução dos recursos de lagos, rios, glaciares e zonas húmidas, anunciaram esta terça-feira investigadores das Nações Unidas (ONU).
Quase três quartos da população mundial vive em países classificados como “inseguros em termos hídricos” ou “criticamente inseguros”, e quatro mil milhões de pessoas enfrentam escassez grave de água pelo menos um mês por ano, alerta um relatório do Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, o Ambiente e a Saúde.
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“Muitas regiões vivem além dos seus meios hidrológicos, e muitos sistemas críticos de água já estão falidos”, diz Kaveh Madani, autor principal e diretor do instituto.
“Reconhecendo a realidade da falência da água, podemos finalmente tomar as decisões difíceis que irão proteger as pessoas, as economias e os ecossistemas”, acrescenta.
O relatório indica que os abastecimentos de água estão “já num estado de falha pós-crise” após décadas de taxas de extração insustentáveis que esgotaram as “reservas” de água contidas em aquíferos, glaciares, solos, zonas húmidas e ecossistemas fluviais, com os recursos ainda degradados pela poluição.
Mais de 170 milhões de hectares de terras agrícolas irrigadas — uma área maior que o Irão — estão sob stress hídrico “elevado” ou “muito elevado”, e os danos económicos resultantes da degradação do solo, esgotamento de águas subterrâneas e alterações climáticas ascendem a mais de 300 mil milhões de dólares por ano em todo o mundo, indica o relatório.
Três mil milhões de pessoas e mais de metade da produção alimentar global concentram-se em áreas que já enfrentam níveis instáveis ou em declínio de armazenamento de água, enquanto a salinização também degradou mais de 100 milhões de hectares de terras agrícolas, acrescenta o documento.
Os investigadores escreveram que a abordagem atual para resolver os problemas de água já não é adequada, e que a prioridade não é “voltar ao normal”, mas sim criar uma nova “agenda global da água” destinada a minimizar os danos.
No entanto, Jonathan Paul, professor de geociências na Royal Holloway, Universidade de Londres, afirmou que o relatório não aborda um fator principal por detrás da crise.
“O elefante na sala, que é mencionado explicitamente apenas uma vez, é o papel do crescimento populacional massivo e desigual na condução de tantas das manifestações da falência da água”, referiu.