Solidariedade
Um ano depois: como as políticas dos EUA estão a remodelar a saúde global e a ajuda humanitária
21 jan, 2026 - 13:44 • Olímpia Mairos
Cortes na ajuda externa, nova estratégia “America First” e acordos bilaterais estão a ter efeitos devastadores em comunidades vulneráveis e a redefinir o papel dos Estados Unidos na saúde global.
Um ano depois de a administração de Donald Trump ter lançado um conjunto de ações executivas que alteraram profundamente a política de ajuda externa dos Estados Unidos, os efeitos fazem-se sentir de forma dramática em vários pontos do globo. A Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta para o colapso de programas de saúde, o encerramento de clínicas, a retenção de medicamentos que salvam vidas e a perda de milhares de postos de trabalho no setor da saúde. As consequências humanas, sublinham as organizações no terreno, foram catastróficas.
Ao longo de 2025, a MSF acompanhou diretamente o impacto destas decisões nas comunidades mais vulneráveis. Apesar de não aceitar financiamento do governo norte-americano, a organização afirma ter testemunhado, em múltiplos contextos, os efeitos da retirada dos EUA da ajuda humanitária.
“Embora o mundo ainda esteja a recuperar destes cortes, é já evidente que foram apenas o primeiro passo de uma estratégia mais ampla para reformular a saúde global e a assistência humanitária”, afirma Mihir Mankad, diretor de Defesa e Política de Saúde Global da MSF nos Estados Unidos, citado em comunicado.
“O que estamos a ver é um afastamento surpreendente do princípio de que garantir cuidados humanitários básicos, combater epidemias, a desnutrição e doenças evitáveis por vacinação são responsabilidades partilhadas à escala global”, afirma.
Impactos no terreno
Na Somália, as interrupções na ajuda humanitária levaram à suspensão, durante vários meses, do fornecimento de leite terapêutico. O número de crianças gravemente malnutridas admitidas em unidades apoiadas pela MSF passou de 1.937 nos primeiros nove meses de 2024 para 3.355 no mesmo período de 2025. No Hospital Regional de Baidoa Bay, as mortes entre estas crianças aumentaram 44% no primeiro semestre de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
No Sudão do Sul, cortes abruptos no financiamento forçaram uma organização humanitária a deixar de apoiar 54 profissionais do Hospital do Condado de Renk, criando lacunas graves nos cuidados de saúde materna. A ala pediátrica, gerida pela MSF, passou a receber um número crescente de recém-nascidos com peso extremamente baixo, consequência direta da falta de acompanhamento médico durante a gravidez e o parto.
Na República Democrática do Congo, o desmantelamento da USAID resultou no cancelamento de uma encomenda de 100 mil kits pós-violação, essenciais para prevenir o VIH e outras infeções sexualmente transmissíveis. Só no primeiro semestre de 2025, a MSF prestou cuidados a 28 mil sobreviventes de violência sexual, tendo sido obrigada a realizar compras não planeadas de medicamentos para responder a ruturas no abastecimento, nomeadamente no Kivu do Norte.
Uma mudança estrutural
Para a MSF, estes casos vão muito além de simples cortes orçamentais. Representam uma mudança estrutural na forma como os Estados Unidos encaram o seu papel no mundo. Em setembro do ano passado, a administração Trump apresentou a Estratégia Global de Saúde America First, que prevê um envolvimento significativamente reduzido dos EUA na saúde global.
A organização considera a estratégia “limitada e míope”, apontando omissões em áreas onde os Estados Unidos desempenharam, durante décadas, um papel central, como a saúde sexual e reprodutiva, a nutrição e as doenças não transmissíveis. A nova abordagem assenta em acordos bilaterais negociados à porta fechada, sem envolvimento da sociedade civil, e com um caráter marcadamente transacional.
“A ideia de que estes acordos promovem a apropriação nacional soa vazia quando, em simultâneo, se diz aos países que o acesso à ajuda em saúde depende da sua disponibilidade para celebrar acordos económicos com os EUA”, critica Mihir Mankad. “A assistência global à saúde deve ser orientada por necessidades de saúde pública, evidência científica e dados epidemiológicos — não por cálculos políticos, interesses económicos ou coerção ideológica”, defende.
Um ano depois, conclui a MSF, o que está em curso não é apenas uma redução da ajuda externa, mas uma redefinição profunda das razões e dos moldes do envolvimento dos Estados Unidos na saúde global e na ação humanitária — com impactos que, tudo indica, estão ainda longe de se esgotar.
- Noticiário das 17h
- 18 jun, 2026








