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Saúde

Falta de vacinação. Espanha e Reino Unido perdem estatuto de país livre de sarampo

27 jan, 2026 - 12:52 • Ana Kotowicz

Além de Espanha e Reino Unido, também Áustria, Arménia, Azerbaijão e Uzbequistão já não estão livres de sarampo. Vírus apresenta circulação persistente em 13 países europeus.

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Os números de 2024 não mentem. Seis países que tinham o estatuto livre de sarampo perderam-no, anunciou a Organização Mundial de Saúde (OMS) que aponta as baixas taxas de vacinação como motivo para o ressurgimento da infeção. Além disso, o organismo internacional alerta que o vírus do sarampo — para o qual existe vacina — apresenta circulação persistente em 13 outros países.

Portugal é reconhecido como país livre de sarampo desde 2015, graças à elevada cobertura vacinal, estatuto que ainda mantém, apesar de ter registado 35 casos em 2024.

Entre os países mais próximos de Portugal que já não estão livres de sarampo, encontram-se Espanha (220 casos), Reino Unido (3.681) e Áustria (542). Também Arménia, Azerbaijão e Uzbequistão perderam o estatuto.

Já entre aqueles que evoluíram de um cenário de interrupção da transmissão para uma situação de transmissão sustentada encontram-se França (484), Alemanha (638) e Itália (1.057).

Todos os 28 países da União Europeia/Espaço Económico Europeu notificaram atividade de sarampo em 2024, exceto dois: Letónia e Liechtenstein tiveram zero casos.

Dez vezes mais casos na UE/EEE

Os números são do mais recente relatório do Comité Regional Europeu de Verificação para a Eliminação do Sarampo e da Rubéola (CRV) que notificou, nas últimas horas, os governos dos Estados que perderam o estatuto de país livre da doença. No documento, o CRV alerta para um crescimento exponencial dos casos de sarampo.

"Em 2024, foi notificado um total de 35.212 casos de sarampo na União Europeia/Espaço Económico Europeu (UE/EEE), o que representa um aumento significativo (dez vezes superior) face aos 3.973 casos registados em 2023", lê-se no relatório. "Além disso, os casos notificados voltaram a apresentar um padrão sazonal, após um período (2021–2023) em que esse padrão típico não era evidente."

O CRV diz ainda que a atividade do sarampo tinha começado a aumentar em 2023, após "um período de atividade invulgarmente baixa" entre 2020 e 2022, coincidindo com a pandemia de Covid-19.

A Roménia é o país que concentrou a maioria das notificações, com 87% do total, ou seja, 30.692 casos. "A taxa global de notificação aumentou significativamente em 2024, atingindo 77,4 casos por 1 milhão de habitantes, em comparação com 9,1 em 2023, 0,3 em 2022, 0,2 em 2021 e 4,6 em 2020."

Em Portugal, a taxa foi de 3,3 por um milhão de habitantes. Além da Roménia, também a Áustria (59,5 casos por 1 milhão), a Bélgica (44,9) e a Irlanda (39,6) tiveram taxas de notificação elevadas.

O CVR nota ainda no seu relatório que "o número de casos notificados em 2024 é o mais elevado registado nos últimos cinco anos, valor que ultrapassou igualmente o total de casos reportados em 2019 (período pré-Covid-19), que foi de 12.320 casos".

O motivo? Falta de cobertura de vacinação

Quantos aos grupos etários, o relatório aponta que houve casos em todos os grupos etários sendo as crianças com menos de um ano o grupo mais afetado (1.175,4 casos por 1 milhão de habitantes). Seguiu-se a faixa etária dos 1 aos 4 anos (688,7), enquanto que os maiores de 14 anos representaram 26% do total.

"Alguns países reportaram a maioria dos casos (intervalo: 28–53%) em indivíduos com mais de 30 anos de idade. Do total de 23 óbitos por sarampo notificados em 2024 (22 dos quais na Roménia), 14 ocorreram em crianças com menos de cinco anos", lê-se no documento.

Além disso, o organismo da OMS ressalva que entre os casos notificados em que se sabia se a pessoa estava ou não vacinada (em alguns deles a informação não existia) "87% (27.692) não estavam vacinados, e 90% das crianças entre 1 e 4 anos não tinham sido vacinadas".

Portugal atinge meta

Uma das conclusões apontadas é que "em muitos países, a vacinação infantil de rotina contra o sarampo continua abaixo do nível recomendado para alcançar e manter a eliminação da doença" e registou-se uma diminuição entre 2023 para 2024 na cobertura da primeira dose da vacina (94,2% para 93,9%).

Assim, apenas quatro países da UE/EEE atingiram, em 2024, os 95% (ou mais) de vacinação com a segunda dose: Portugal (98% de vacinação com a primeira dose, 95% com a segunda), Hungria, Malta e Eslováquia.

"Em dois países [Itália e Bulgária], observou-se uma tendência positiva de aumento igual ou superior a 3% (até 7%) ao comparar as estimativas de 2020 a 2023 para a primeira dose, bem como uma tendência ascendente em quatro países para a segunda dose [Áustria, Bulgária, Dinamarca e França]", esclarece-se no documento da OMS.

Pelo contrário, observou-se uma tendência decrescente de vacinação em dez países, tanto para a primeira como para a segunda dose. São eles Croácia, Chipre, Estónia, Finlândia, Islândia, Letónia, Lituânia, Países Baixos, Noruega, e Roménia.

A recomendação

Perante estes resultados, a recomendação da OMS é clara: aumentar as taxas de vacinação do sarampo, uma infeção que pode, no limite, causar a morte.

E não basta ficar pelas crianças: "São necessários esforços acelerados para aumentar a cobertura vacinal e a adesão tanto à imunização infantil de rotina como às campanhas de recuperação em adolescentes e adultos que não foram vacinados no passado", defende-se no relatório de 2024 do CVR.

O organismo internacional defende, por isso, "a implementação de sistemas de informação de imunização digitalizados e melhorados, que permitam identificar e contactar pessoas não vacinadas", considerando que este é um passo "fundamental" que deve constituir parte integrante dos esforços nacionais para melhorar o desempenho dos programas nacionais de vacinação.

Por último, a OMS aponta a vigilância contínua de elevada qualidade e a investigação rápida de surtos como "ferramentas essenciais" para monitorizar de perto a epidemiologia do sarampo e identificar e colmatar lacunas de imunidade na população.

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