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Cheias em Moçambique. Em Xai-Xai, carros deram lugar a barcos

31 jan, 2026 - 13:48 • Lusa

Cheias em Moçambique já afetam mais de 723 mil pessoas.

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Na cidade de Xai-Xai os carros deixaram as ruas, ocupadas por água, para barcos a remos, como o puxado pelos gémeos Bila, garantindo o transporte entre as piores cheias em décadas no sul de Moçambique, que já afetaram 723.289 pessoas e provocaram 22 mortos, de acordo com dados provisórios do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).

"É difícil. A água tem muita força, está a correr muito. Não é fácil", confessa à Lusa Eduardo Júlio Bila, 31 anos, que chega à avenida principal de Xai-Xai, com duas passageiras, obrigadas também elas a sair no final da viagem, para ajudar a empurrar o pequeno barco, perante a forte corrente, algo que não se imaginava ainda há duas semanas.

"São muitos barcos ali no hospital [noutra zona da cidade], a levar as pessoas", explica Eduardo que, tal como o irmão, Domingos, trocou por estes dias a pesca para cobrar 500 meticais (6,5 euros) por passageiro em cada viagem destas, que chega a levar uma hora, à força de braços. Ao fundo, outro barco a remos segue, mas por outra rua, entre sinais de trânsito que agora não têm sentido.

"É negócio", admite, numa rotina que tem mais de uma semana, desde que as cheias tomaram conta da cidade de Xai-Xai, capital da província de Gaza, com mais de 150 mil habitantes. Segundo informação da base de dados do INGD, as cheias já afetaram o equivalente a 170.223 famílias, e mais 20 mil pessoas em 24 horas.

Com a água a puxar, tomando lojas, casas e edifícios públicos do centro da cidade, deserto, e enquanto Domingos segura o pequeno barco a remos, o irmão Eduardo tem de regressar ao barco: "Tem mais passageiros ali".

À força de braços, os dois irmãos partem rua fora e regressam ao hospital de Xai-Xai, porque há mais gente para transportar até ao centro e dali seguirem para outras zonas.

Por estes dias, o cenário no centro de Xai-Xai é de destruição e rios que correm onde há cerca de duas semanas circulavam carros. A água invadiu casas e empresas, deixando a cidade deserta e destruída, com árvores caídas, vedações tombadas pela força da enxurrada, ou carros virados. Desde 7 de janeiro, foram registados 45 feridos e nove desaparecidos, além de 3541 casas parcialmente destruídas, 794 totalmente destruídas e 165.946 inundadas. A 16 de janeiro, o Governo decretou o alerta vermelho nacional.

"Em cima da estrada anda barco, em vez de andar carros", diz à Lusa em pleno centro de Xai-Xai, Raimundo Sitoe, 47 anos, explicando, com a água pelos joelhos: "é que dentro da cidade tem muita água".

Raimundo é segurança e, caminhando sozinho pela água, percorre a distância entre as duas bombas de combustível de Xai-Xai à sua responsabilidade, zona outrora movimentada, atravessada pela N1, a principal via do país.

"A cidade está mesmo vazia porque tem cheias", explica, para logo a seguir assumir a preocupação e o propósito, por estes dias, do seu trabalho: "Têm tido malfeitores que andam pelas lojas, a arrombar, a aproveitar alguns bens".

Enquanto isso, alguns camiões começam a circular no centro da cidade, transportando pedra para tentar conter pontos críticos das inundações, que visivelmente transformou as ruas em rios, com força para arrastar pessoas, as poucas que arriscam. De acordo com os dados atualizados do INGD, estão atualmente ativos 92 centros de acomodação, com 91.023 pessoas, tendo sido afetadas desde 9 de janeiro 229 unidades sanitárias e 341 escolas, quatro pontes e 1424 quilómetros de estrada.

"É com barcos a motor, outros usam remos, cobram 500 meticais, da zona alta até à zona da pontinha, na cidade baixa", detalha Raimundo, lamentando os preços "altos".

Quem conseguiu, recorda, levou o que podia do centro e foi para a zona mais alta. "Só que lá, os preços também não são como antes", diz, sobre a inflação que toma conta de tudo na zona.

Depois, olha em redor para explicar: "Está tudo parado aqui em Xai-Xai".

Que o diga Michael Muapsa, que está há quase duas semanas bloqueado, nem para a frente, nem para trás. Conduzia um 'chapa', transporte semipúblico, desde a África do Sul, com destino ao Chimoio, centro de Moçambique.

Acabou por ficar, explica, numa "ilha", entre o norte da província de Maputo e o sul de Gaza, devido aos vários cortes, pelas cheias, da N1. "A água me apanhou no caminho", atira Michel, 40 anos, motorista.

Desde sexta-feira que é possível dali seguir para sul, com a reposição provisória dos troços afetados pelas cheias, mas de Xai-Xai, obrigatoriamente pelo centro da cidade, para norte, tudo está igual: parado.

"Vi mesmo barco ali a passar, a levar pessoas, sei lá quantos", conta, enquanto tenta decidir o que fazer, agora que para sul já é possível viajar, só que sem passageiros, que optaram por apanhar barco para seguir viagem.

"Vim aqui ver. Se vejo que a água é suficiente vou passar, senão é suficiente, volto para trás", atira, admitindo a preocupação: "Não tenho dinheiro para combustível, nem para comida. É ver o que vai acontecer".

O registo do INGD aponta ainda para 451.571 hectares de área agrícola afetados, dos quais 275.765 dados como perdidos, atingindo a atividade de 332.863 agricultores, além da morte de 430.972 cabeças de gado, entre bovinos, caprinos e aves. Desde o início da época das chuvas, em outubro, incluindo as cheias de janeiro, há registo de 146 mortos, além de 148 feridos e de 844.295 pessoas afetadas.

A União Europeia, os Estados Unidos, Portugal, Angola, Espanha, Timor-Leste, Noruega e Japão, além de países vizinhos, já anunciaram e enviaram ajuda humanitária de emergência.

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