Exportadores de petróleo reúnem-se esta quarta-feira. "Vamos ver o que faz a Rússia", diz Mira Amaral
11 mar, 2026 - 06:30 • Alexandre Abrantes Neves
O ex-ministro da Energia de Cavaco Silva considera ainda que a colocação de reservas estratégias no mercado vai desmobilizar um aumento da produção pela OPEP. Quanto ao desconto no ISP, Mira Amaral faz uma avaliação positiva do governo: foi "prudente" perante o "aumento da despesa provocado pelas tempestades".
Perante a escalada no preço do barril nas últimas semanas, a Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) reúne-se esta quarta-feira em Viena, na Áustria, para discutir eventuais medidas para travar uma crise energética iminente.
Desde o início do conflito entre o Irão e Estados Unidos e Israel, o petróleo disparou e chegou a ultrapassar os 100 dólares por barril. O único fator que fez quebrar a reta ascendente foram as declarações de Donald Trump na passada segunda-feira: depois de o presidente dos Estados Unidos (EUA) afirmar que a guerra estava “praticamente concluída”, o preço do barril virou 180 graus e desceu cerca de 15%.
Na leitura de Luís Mira Amaral, antigo ministro da Energia nos governos de Cavaco Silva, a inversão dos últimos dias pode fazer os países produtores atrasar medidas. “Houve acalmia nos mercados. Atenua esta ameaça de crise prolongada”, considera, em declarações à Renascença.
Além disso, o antigo governante aponta ainda que a decisão de certos Estados europeus e empresas de colocar no mercado reservas estratégicas de petróleo pode desmobilizar um eventual aumento de oferta, que possa estar sob ponderação dos países da OPEP.
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“Quando os consumidores dizem que vão pôr no mercado uma parte das suas reservas estratégicas, então significa que vão tentar acalmar os preços. Portanto, os produtores já não têm interesse nenhum em ir aumentar a produção, porque isso é continuar a fazer baixar os preços”, considera.
A decisão, contudo, também tem de ser analisada com os olhos virados para Moscovo. O encerramento do estreito de Ormuz e a subida do preço do petróleo têm ajudado o Kremlin a expandir mercado, a cargo com uma guerra há mais de quatro anos e com custos superiores ao inicialmente esperado.
Mira Amaral considera, por isso, que a Rússia é uma peça fulcral – e também “imprevisível” – na tomada de decisão da OPEP e em futuras oscilações no mercado.
“Eu não sei qual terá sido a conversa entre Trump e Putin. Acho que, nesta crise, a Rússia está imediatamente como vencedor, no sentido em que os preços do petróleo são mais elevados e eles não estão ligados ao estreito de Ormuz. Portanto, vendem mais facilmente o petróleo a preços mais elevados. Não sei antecipar qual vai ser a reação da Rússia, que é importante nesta matéria”, considera.
A OPEP foi criada em 1960, perante as pressões internacionais (dos EUA, Reino Unido e Países Baixos) para baixar os preços do petróleo. Atualmente, conta com 13 países participantes e outros 11 observadores (sem direito de voto), a maioria no Médio Oriente e Golfo Pérsico.
Combustíveis. Governo está a ser “prudente”
Perante as críticas da oposição de que o governo “podia ir mais longe” no desconto no Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), Mira Amaral considera que o governo foi “prudente” perante o aumento da despesa nos últimos meses.
“É toda aquela tempestade e o drama que assolou aquelas populações e empresários. Vai ser preciso gastar muito dinheiro, eu estou convencido que devemos estar a falar entre cinco e seis mil milhões deles. A tempestade cria alguma crise económica e, portanto, havendo alguma crise económica, também o lado da receita diminui”, considera, apoiando por isso a decisão de Miranda Sarmento de ser “seletivo” e apostar num desconto de cerca de 3 cêntimos por litro e apenas para o gasóleo.
No caso do gás natural – e as declarações da ministra Maria da Graça Carvalho que diz que mexerá no preço se houver aumentos superiores a 70% –, Mira Amaral também julga que é uma visão “adequada”, mas avisa que a preocupação tem de ser muita.
“Quando o preço do gás natural sobe de 30 para 60 euros por megawatt hora, o custo da produção de energia elétrica sobe de 60 para 120, é sempre o dobro porque o rendimento é só de 50%”, alerta. “E, no gás natural, não existe esta carga fiscal tão evidente [como nos combustíveis] e, portanto, o aumento do preço do gás natural reflete-se de forma muito mais imediata no preço do produto final”.
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- 14 abr, 2026










