Eleições legislativas
Hungria na encruzilhada: Magyar lidera sondagens e ameaça pôr fim a 16 anos de Orbán
06 abr, 2026 - 21:02 • Fábio Monteiro com Reuters
Quando tinha nove anos, Peter Magyar colou uma fotografia de Orbán na parede do seu quarto. Três décadas depois, Magyar lidera as sondagens para as eleições húngaras de 12 de abril e pode pôr fim a 16 anos de poder ininterrupto do seu antigo herói. O resultado vai além da Hungria: é um teste ao modelo iliberal que Orbán exportou para a Europa.
As eleições legislativas húngaras do próximo domingo, 12 de abril, são as mais disputadas em 16 anos. O partido Tisza, liderado por Peter Magyar, antigo homem do regime de Orbán, lidera as sondagens por uma margem de dois dígitos.
Já o primeiro-ministro Viktor Orbán tenta a reeleição para um quinto mandato consecutivo com uma campanha centrada na guerra e no medo de Bruxelas. Nas margens, o partido de extrema-direita Nossa Pátria pode ser o árbitro que ninguém esperava.
O homem que tinha Orbán na parede do quarto
Em fevereiro de 2024, Peter Magyar era um desconhecido. Advogado de formação, antigo diplomata em Bruxelas, ex-marido da ministra da Justiça de Orbán. Ninguém o conhecia fora dos corredores do poder húngaro.
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O ponto de rutura chegou quando a sua ex-mulher, Judit Varga, se demitiu após um escândalo com a mão do Fidesz: o perdão a um condenado por abuso sexual de menores.
Magyar aproveitou o momento para romper com o Fidesz numa entrevista a um canal do YouTube – que alcançou dois milhões de visualizações em poucos dias. Quatro meses depois, o seu recém-criado partido Tisza obtinha 30% nas europeias, varrendo a oposição.
Hoje, a maioria das sondagens independentes coloca-o entre oito a 12 pontos percentuais à frente do Fidesz. Uma das mais recentes dá-lhe 58% contra 35% de Orbán.
"Agarrar-se ao poder a todo o custo. É tudo o que importa para ele [Orbán] agora. Provocar com a guerra, ameaçar com a guerra, atiçar a guerra. Esta é a sua última arma contra o povo húngaro", disse Magyar há dias, em Budapeste.
Em janeiro, 44% dos húngaros acreditavam que o Fidesz ganharia as eleições. Em março, a proporção inverteu-se.
O sistema que Orbán construiu
O que Orbán edificou em 16 anos não é apenas um governo. É um sistema.
Desde que regressou ao poder em 2010, o primeiro-ministro húngaro foi estreitando o controlo sobre os tribunais, a comunicação social, as organizações não-governamentais e a administração pública.
A União Europeia suspendeu-lhe mil milhões de euros em fundos por preocupações com os padrões democráticos. O Parlamento Europeu classificou a Hungria como um "regime híbrido de autocracia eleitoral". O amigo de infância Lörinc Meszaros, antigo canalizador, é hoje o homem mais rico da Hungria.
É esta dinâmica que está agora a trabalhar contra ele. A mesma raiva contra elites corruptas que alimentou o populismo europeu na última década é hoje dirigida ao próprio Fidesz, sobretudo pelos mais jovens.
Magyar no terreno de Orbán
A estratégia de Magyar é simples: estar no terreno.
Enquanto líderes da oposição anteriores raramente saíam de Budapeste, Magyar percorre o país de forma incessante, transmite cada comício em direto no Facebook e enche praças em zonas rurais que eram consideradas fortins inabaláveis do Fidesz.
Os seus comícios têm bandeiras nacionais, mensagens simples e repetidas, apelos ao patriotismo. É o manual de Orbán, usado contra Orbán.
Magyar fala de saúde, educação e transportes, os problemas do dia a dia, evitando a retórica geopolítica que caracteriza o primeiro-ministro. E cedo abandonou os discursos preparados.
"Depois dos primeiros dias, li as críticas e aprendi a aproximar-me das pessoas, a deixar que elas perguntem e a responder-lhes de forma aberta e honesta, o que é raro na política húngara", confessou Magyar à “BBC”.
No seu último grande comício, em Budapeste, Magyar estabeleceu prioridades: "A nossa pátria faz parte da comunidade europeia, da NATO e do Ocidente", declarou perante dezenas de milhares de apoiantes, prometendo ainda "uma vitória eleitoral que se fará sentir também no Kremlin".
Orbán, por seu lado, está na estrada como não estava há anos. Num comício em Györ, no final de março, perdeu por momentos a compostura perante manifestantes que gritavam "Fidesz nojento".
“Eles só representam raiva, ódio e destruição", bradou.
A carta russa e os seus limites
A grande aposta de Orbán nesta campanha é a narrativa da paz. Apenas ele, argumenta, pode evitar que a Hungria seja arrastada para a guerra na Ucrânia. Magyar é pintado como um fantoche de Bruxelas e de Kiev.
Em comício, Orbán prometeu que o seu governo "preservaria a Hungria como uma ilha de segurança e calma num mundo tão caótico".
Noutro registo, foi ainda mais longe: "Devemos acostumar-nos com a ideia de que aqueles que amam a liberdade não devem temer o Oriente, mas sim Bruxelas", disse em fevereiro, comparando a UE ao regime soviético.
Mas as sondagens sugerem que a mensagem está a perder força. Dados recentes indicam que 52% dos húngaros consideram que a Rússia cometeu um ato de agressão grave e injustificado contra a Ucrânia. Apenas 33% alinham com a narrativa do Fidesz.
A campanha ganhou novos contornos nos últimos dias, depois de explosivos terem sido encontrados perto de um gasoduto na fronteira com a Sérvia.
Magyar foi rápido a reagir. "Se Viktor Orbán ou a sua propaganda usarem esta provocação na Sérvia para fins de campanha, será uma admissão aberta de que foi uma operação de falsa bandeira pré-planeada", escreveu nas redes sociais, dirigindo-se depois às forças de segurança: "Permaneçam fiéis ao vosso juramento, sirvam o país, não as ordens políticas."
Quanto ao ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó, Magyar foi igualmente direto quando surgiram alegações de que terá passado informações confidenciais a Moscovo durante reuniões europeias."
“A ser verdade, isto constituiria traição", disse, acrescentando que, se vencer as eleições, o assunto "será imediatamente investigado".
O fator extrema-direita
Há uma variável que pode ainda baralhar os cálculos de qualquer dos lados: o partido Nossa Pátria (Mi Hazank), que se posiciona à direita do próprio Fidesz e que, pela primeira vez desde as legislativas de 2022, ameaça voltar a entrar no parlamento.
Duas sondagens de institutos independentes, o 21 Research Centre e o Zavecz Research, mostraram que o Nossa Pátria é o único partido, além do Tisza e do Fidesz, com hipóteses reais de ultrapassar o limiar mínimo de 5% dos votos para entrar na assembleia. O 21 Research Centre coloca-o nos 5% entre os eleitores decididos; o Zavecz nos 4%.
Não é a primeira vez que o partido surpreende. Nas legislativas de 2022, o Nossa Pátria superou todas as sondagens e entrou no parlamento com cerca de 6% dos votos. Nas europeias de 2024, cresceu ainda mais, atingindo quase 7%.
O partido foi fundado em 2018 por László Toroczkai, então vice-presidente do Jobbik, depois de ser expulso desse partido quando a sua liderança decidiu abandonar as posições mais radicais para tentar chegar ao eleitorado moderado. Toroczkai recusou essa viragem e levou consigo os elementos mais extremistas.
A liderança do Nossa Pátria tem um historial de comportamentos e retórica discriminatória, e alguns dos seus membros tiveram ligações passadas a grupos como o movimento neonazi Pax Hungarica.
Toroczkai, com 48 anos, rejeita a classificação de extrema-direita. Prefere descrever o seu partido como "soberanista", por oposição às "forças globalistas". A plataforma do Nossa Pátria é anti-União Europeia, anti-imigração e anti-vacinação.
Em matéria de política externa, o Nossa Pátria situa-se ainda mais próximo de Moscovo do que o próprio Orbán. Durante a invasão russa da Ucrânia, o partido referiu-se à Ucrânia como um "país hostil" e apelou a que Kiev cedesse território à Rússia "em nome da paz".
Quanto à aritmética eleitoral, Toroczkai foi claro sobre os seus objetivos. "O meu objetivo é que o Mi Hazank fique numa posição em que nem o Fidesz nem o Tisza tenham poder absoluto", disse à “Reuters” durante um evento de campanha.
A hipótese mais discutida é a de que, num cenário em que o Fidesz necessite de apoio externo para governar, o Nossa Pátria poderia sustentar informalmente um governo minoritário de Orbán sem integrar formalmente a coligação.
O que está em jogo além da Hungria
Os resultados da eleição de 12 de abril terão repercussões muito além de Budapeste. Orbán é o modelo de referência para a direita radical europeia.
Desvalorizando a liderança do seu rival nas sondagens, Orbán disse que o Fidesz deve ter como objetivo superar a sua vitória nas eleições de 2022: "Temos de ganhar, não como há quatro anos, mas melhor. Temos de obter uma vitória histórica, porque o próximo governo terá uma responsabilidade histórica."
Do outro lado, Magyar é igualmente claro sobre o alcance do que está em jogo. "Milhões de húngaros tomarão uma decisão e encerrarão as duas décadas mais corruptas da história do país, que fizeram da Hungria o Estado-membro mais pobre da União Europeia", afirmou nos últimos dias de campanha.
Ao fim de 16 anos, a Hungria está, pela primeira vez, dividida sobre quem vai ganhar.
- Noticiário das 19h
- 14 abr, 2026











