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Merz impopular. Extrema-direita ganha terreno na Alemanha

06 mai, 2026 - 08:25 • Guilherme Correia da Silva (correspondente na Alemanha)

A guerra no Médio Oriente agravou a insatisfação popular, fazendo subir os preços e acentuando o clima de incerteza. Mas os problemas económicos e sociais na Alemanha já vêm de trás.

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Peça de Guilherme Correia da Silva sobre um ano de Friedrich Merz como chanceler da Alemanha
Ouça a peça de Guilherme Correia da Silva sobre um ano de Friedrich Merz como chanceler da Alemanha

O governo do chanceler alemão, Friedrich Merz, assinala o primeiro aniversário sob uma chuva de críticas. A economia da Alemanha não está bem e as reformas prometidas tardam em chegar. Enquanto isso, o partido de extrema-direita AfD ganha terreno.

O Sol volta a brilhar na Alemanha após um inverno cinzento e prolongado. As ruas enchem-se de gente e é difícil arranjar lugar nas esplanadas. Mas sobre o governo do chanceler Friedrich Merz paira uma nuvem carregada: muitos eleitores estão profundamente insatisfeitos com Merz.

"As reformas prometidas não estão a ser concretizadas, e as pessoas - incluindo os trabalhadores - sentem as consequências disso", diz Rainer Bohnet, membro da DGB, a maior federação sindical da Alemanha.

"Medo de enfrentar problemas"

A guerra no Médio Oriente agravou a insatisfação popular, fazendo subir os preços e acentuando o clima de incerteza. Mas os problemas económicos e sociais na Alemanha já vêm de trás.

Antes da guerra começar, o Instituto alemão de Pesquisa Económica (Ifo) já alertava para o número cada vez maior de empresas que pensa cortar postos de trabalho, particularmente na indústria automóvel.

Aumenta a sensação de estagnação ou até declínio económico, quase de fim de era.

Há anos que o fosso entre ricos e pobres aumenta na Alemanha, sobretudo desde a pandemia, de acordo com a organização Oxfam. Estima-se que 13,3 milhões de pessoas (16,1% da população) vivem na Alemanha abaixo do limiar de pobreza. Ao mesmo tempo, as elites parecem erguer muralhas cada vez mais altas em seu redor, relegando as preocupações da maioria para segundo plano, comenta Rainer Bohnet.

"As escolas, as estradas e as linhas ferroviárias estão em mau estado. É preciso investir fortemente nessas áreas. Isso também permitiria criar muitos postos de trabalho", comenta o sindicalista.

Contudo, "provavelmente, há receio" de enfrentar estas questões estruturais, afirma Rainer Bohnet, que defende a reintrodução de um imposto sobre grandes fortunas para ajudar a fazer face às dificuldades do país.

A extrema-direita tira proveito

Não é só a demora nas reformas estruturais que tem gerado insatisfação na Alemanha. Também não caíram bem junto do eleitorado as frequentes picardias na coligação governamental e o volte-face do chanceler Friedrich Merz na promessa de estancar o aumento da dívida - abrindo uma exceção para as despesas com a defesa.

O partido de extrema-direita AfD saltou para o primeiro lugar em várias sondagens recentes, com cerca de 27% a 28% das intenções de voto. O bloco conservador da CDU/CSU, liderado por Merz, desceu para o segundo lugar, com 23% a 24%.

"Estamos prontos para assumir a responsabilidade pelo país", anunciou Tino Chrupalla, co-presidente da AfD.

Chrupalla defende a redução de impostos e dos custos energéticos, incluindo a possibilidade de retomar a importação de energia russa, como parte de uma estratégia para voltar a encarrilhar o país: "A Alemanha atravessa a mais grave crise desde o pós-guerra. A nossa economia está em queda livre. […] Tem de se pôr fim, por exemplo, à política irracional de clima e energia, que está a destruir a nossa prosperidade e a empurrar o nosso país para a desindustrialização", afirmou.

Chanceler pode ser afastado?

A imprensa alemã especula se Friedrich Merz irá ao Parlamento pedir um voto de confiança, de modo a ter mais margem de manobra política para avançar com as reformas que prometeu. Poderá ser uma manobra arriscada: uma eventual rejeição desse voto de confiança poderia precipitar novas eleições federais.

O que muitos pedem nas redes sociais é isso mesmo, a demissão do chanceler. O argumento é simples: quando Merz estava na oposição, pediu o afastamento do então chanceler Olaf Scholz por bastante menos. Na altura, Scholz era impopular - mas não tanto quanto Merz é hoje.

Friedrich Merz afirma, no entanto, que não passa muito tempo a ler comentários nas redes sociais. Em declarações à revista Der Spiegel, o chanceler assegurou estar comprometido com o programa de reformas do governo. Admitiu ainda a possibilidade de aumentar os impostos sobre os rendimentos mais altos: "É concebível", disse.

Seria um feito inédito na Alemanha se o Parlamento rejeitasse uma eventual moção de confiança a Merz e fossem convocadas eleições antecipadas enquanto a AfD lidera em várias sondagens.

Se essas sondagens se traduzissem em votos e a AfD vencesse as eleições, os partidos tradicionais poderiam ter de recorrer a uma "geringonça" para governar, porque todos rejeitam coligar-se com o partido de extrema-direita.

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