Trump em Pequim
Relações comerciais EUA-China. "A Europa sai sempre perdedora quando as duas grandes potências se entendem"
13 mai, 2026 - 17:06 • Pedro Mesquita
O Presidente dos EUA já chegou a Pequim para uma visita de dois dias, em que vai reunir com Xi Jinping. Em entrevista à Renascença, o embaixador Mário Godinho de Matos, que iniciou a carreira diplomática em Washington e também viveu em Pequim, acredita que o "core" do diálogo entre as superpotências será a relação comercial, admitindo que o Irão também seja tema de conversa.
O Air Force One que levou Donald Trump a Pequim aterrou perto das 13h00 (hora de Lisboa), mas a cerimónia de boas-vindas – no Grande Palácio do Povo – só deverá acontecer quando já for madrugada em Portugal, porque já caiu a noite na China (+7 horas).
Do contacto, olhos nos olhos, entre Xi Jinping e Donald Trump espera-se, sobretudo, alguma distensão das relações comerciais entre os dois países.
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Alguns analistas de política internacional sugerem que será difícil que os dois líderes assinem um grande tratado, mas admitem avanços relativamente à compra de produtos agrícolas norte-americanos, pela China, e que o mesmo poderá acontecer no que diz respeito à compra e aviões Boeing. Já sobre o Irão, país amigo da China, seria surpreendente que existisse algum entendimento, tanto mais que Donald Trump disse, à partida dos EUA, que não precisa da ajuda de Pequim.
Na leitura do embaixador Mário Godinho de Matos – que começou a carreira diplomática em Washington e que integrou o Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês no processo de transição de Macau para a China – é provável que, apesar de sensível, o Irão seja tema de conversa, mas devem ser as relações comerciais a marcar a agenda. E neste ponto, o diplomata confessa que "a Europa sai sempre, em algum sentido, perdedora quando as duas grandes potências se entendem, por exemplo, na compra exclusiva de produtos, de mercadorias".
O que espera desta visita de Donald Trump à China? Acredita que o Presidente norte-americano e Xi Jinping vão debater a crise no Médio Oriente e o conflito entre os EUA e o Irão?
Eventualmente, sim. À margem, talvez, das grandes questões comerciais, porque eu acho que o "core" [o essencial] da discussão será basicamente comercial e isso vê-se até pela delegação do Presidente Trump, que leva a Pequim os presidentes das principais tecnológicas americanas. Isso dá uma indicação que será um dos aspetos principais.
A questão do Irão está de tal maneira enquistada, digamos assim, nas duas partes, que provavelmente será tratada à margem das questões comerciais. Mas enfim, vamos ver se a parte chinesa apresenta alguma luz sobre como resolver o problema.
Azeredo Lopes
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Mas tendo a China alguma proximidade do Irão, admite que Xi Jinping possa ajudar de alguma forma Trump a estabilizar este conflito?
Veremos. É verdade que a proximidade da China ao Irão é muito grande. Há, inclusivamente, rumores de que a China terá fornecido armamento e outro tipo de avanços tecnológicos ao Irão.
Portanto, nesse sentido, estando seguramente a controlar todos estes desenvolvimentos, parece difícil que a China vá agora interceder no sentido de facilitar a vida dos Estados Unidos. O que pode é fazer algum tipo de sugestão no sentido de chegar a uma solução de maior bom senso, digamos assim.
Imagina Xi Jinping a dizer a Donald Trump: "nós podemos ajudar sobre o Irão, e relativamente também ao estreito de Ormuz, mas queremos concessões em matéria de comércio, tecnologia ou Taiwan?
Taiwan talvez não, porque Taiwan é uma questão um pouco mais afastada no tempo. Não creio que essa seja uma questão para já, mas em relação a questões económicas e comerciais isso sim, porque na mesa das negociações tudo pode ser balanceado.
Quanto a um eventual acordo comercial, admite que a Europa poderá sair perdedora tendo em conta as pesadas tarifas aplicadas à União Europeia por Donald Trump e, também, o excesso da capacidade produtiva chinesa?
A Europa sai sempre, em algum sentido, perdedora quando as duas grandes potências se entendem, por exemplo, na compra exclusiva de produtos, de mercadorias. Obviamente o mercado europeu ressente-se, perde competitividade.
Por outro lado, quando sobem as barreiras alfandegárias entre os dois países, o mercado europeu fica, de alguma maneira, inundado de produtos chineses. Portanto, o mercado europeu está sempre, de alguma maneira, dependente e sofre sempre as consequências destes acordos entre as duas principais potências, que são aquelas que dominam o comércio a nível mundial.
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