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Breturn à vista? “É um bocadinho difícil para o casal voltar a unir-se tão cedo”

26 jun, 2026 - 15:15 • Pedro Mesquita

Já passou uma década desde o Brexit, desde que a Grã-Bretanha se divorciou da União Europeia e, no Reino Unido, parece haver cada vez mais defensores de um regresso. Ainda assim, na leitura do embaixador João Vale de Almeida é "pouco viável" a realização de novo referendo nos próximos 5 a 10 anos.

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As sondagens mais recentes sugerem que há, entre os britânicos, uma crescente vontade de regressar à casa europeia: cerca de 60% dos jovens entre os 18 e os 28 anos votariam a favor de um “Breturn”, em caso de novo referendo.

Ainda assim, na leitura de João Vale de Almeida - que foi o primeiro embaixador da União Europeia em Londres, logo depois do Brexit - é “pouco viável” que tal aconteça a curto prazo: “as sondagens a que se refere, e que existem de facto, coexistem com uma outra sondagem a dizer que se os britânicos fossem chamados a votar em eleições legislativas escolheriam o partido que é liderado por um dos grandes combatentes pelo Brexit, Nigel Farage”.


Já passou uma década sobre o Brexit, desde que o Reino Unido deixou a casa europeia. O senhor foi o primeiro embaixador da União Europeia em Londres, depois do divórcio. Acredita que é possível o regresso?

Tudo é possível, nada deve ser excluído, embora, a meu ver, a probabilidade de um retorno nos tempos mais próximos é pouco viável.

É pouco viável porquê? As sondagens vão dizendo que, se fosse hoje, uma crescente maioria de britânicos não votaria no Brexit.

Eu acho que é pouco viável no curto prazo por várias razões. A primeira razão é que as sondagens a que se refere, e que existem de facto, coexistem com uma outra sondagem a dizer que se os britânicos fossem chamados a votar em eleições legislativas escolheriam o partido que é liderado por um dos grandes combatentes pelo Brexit, Nigel Farage.

Portanto, há aqui uma contradição, se quiser, em termos das sondagens de opinião pública, que nós devemos ter em conta, não é? A última coisa que certamente podemos crer que aconteça é iniciar um processo de retorno, que será posto em causa. Portanto, parece-me que há aqui ainda uma dimensão de estabilidade política, de estabilidade da opinião pública britânica, que ainda não está consolidada.

E depois, é preciso saber o que é que pensa a União Europeia sobre isso. Parece-me que ainda estamos muito a quente, o divórcio foi traumático, é um bocadinho difícil para o casal voltar a unir-se tão cedo, e há uma série de questões que se vão colocar. As condições que o Reino Unido quereria e as condições que a União Europeia poderia aceitar.

Em terceiro lugar, estamos numa fase muito conturbada da cena internacional e não sabemos bem qual vai ser a evolução a curto prazo.

Apesar de falar num divórcio traumático, difícil, a verdade é que os antigos cônjuges se dão aparentemente cada vez melhor...

Pois dão-se bem, e ainda bem. Eu geri a relação da União Europeia com o Reino Unido nos tempos mais difíceis, nos três anos mais complicados, com o primeiro-ministro Boris Johnson e a Primeira-Ministra Liz Truss. As coisas melhoraram depois com o primeiro-ministro Rishi Sunak e melhoraram consideravelmente com o governo trabalhista.

Mas como sabe, o próprio Governo Trabalhista está numa situação difícil. Os governos europeus e as instituições europeias continuam a trabalhar bem com o governo britânico. O próximo primeiro-ministro, se for Andy Burnham, é alguém com quem certamente poderemos trabalhar bem também.

Ele é um europeísta?

Eu acho que sim. Ele foi um "remainer", portanto opôs-se ao Brexit. Não sei se será um grande entusiasta da relação do governo com a União Europeia agora. Penso que sim, mas ainda não se pronunciou sobre isso.

Portanto, eu acho que a relação vai continuar a melhorar, mas será que há condições para pensarmos a longo prazo nessa relação? São essas questões que se põem atualmente. Penso que o fundamental agora é aprofundar a boa relação que temos com este governo trabalhista independentemente do primeiro-ministro, construir as bases de um relacionamento mais próximo, facilitar a vida aos nossos cidadãos e às nossas empresas, e continuar a fazer uma reflexão sobre uma possível reentrada do Reino Unido...mas, a meu ver, sem ter nenhuma esperança, nenhuma expectativa a curto prazo.

Portanto, na sua leitura, é muito difícil que um "Breturn"… bom, há vários nomes que são dados quando nos referimos a um eventual regresso...

Exato. Também se fala de um "Bregret", ou seja, um arrependimento do Reino Unido. Os jornais utilizam vários acrónimos...

Mas em seu entender, esses acrónimos, esse regresso será impossível de concretizar num curto prazo?

Parece-me inviável a curto prazo e, certamente, nunca antes da próxima eleição britânica. Apenas (eventualmente) no fim do final do próximo ciclo. Portanto, nos próximos 5 a 10 anos não parece que isso seja viável. Agora, espero é que nestes próximos anos se continue a aprofundar e a melhorar a qualidade da relação, em matéria de segurança e defesa, de ambiente, dos próprios cidadãos. Por exemplo, o acesso de estudantes europeus às universidades britânicas em condições favoráveis. Será desejável o relançamento da cooperação em vários domínios, mas a segurança e a defesa deverão ser pontos fulcrais. E na base desta melhoria das relações construir os alicerces num eventual regresso do Reino Unido a médio prazo.


Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.

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