Eanes e Sampaio apelam à “salvaguarda” do arquivo do Diário de Notícias
18 mai, 2020 - 00:01 • Eunice Lourenço
Apelo para a classificação “urgente” do património arquivístico do Diário de Notícias é lançado esta segunda-feira. Escritores, jornalistas e académicos receiam destruição deste arquivo único.
Os ex-Presidentes António Ramalho Eanes e Jorge Sampaio são dois dos subscritores de um apelo que junta escritores, jornalistas e académicos que pedem a classificação e salvaguarda do arquivo do Diário de Notícias. Com este apelo, dirigido à Direção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), pretendem “salvar um arquivo único e imprescindível” e colocá-lo disponível ao público.
“O arquivo do Diário de Notícias encontra-se hoje arrumado num armazém, inutilizável e em risco de poder vir a desaparecer no contexto da crise que atravessa a empresa proprietária, o grupo Global Media. No entanto, o seu valor histórico e documental é absolutamente ímpar no panorama arquivístico nacional”, começa por dizer o apelo, que recorda vários dos documentos que devem ser preservados, como uma crónica de Vitor Hugo, a reportagem de Eça de Queiróz na abertura do Canal do Suez ou as entrevistas e António Ferro a Mussolini e a Hitler.
O arquivo do Diário de Notícias estava no emblemático edifício que foi desenhado para aquele jornal na Avenida da Liberdade. Com a mudança da redação para um prédio nas Torres de Lisboa, em 2016, o arquivo não acompanhou os outros serviços do jornal e terá sido guardado num armazém que não garante as condições necessárias para a sua conservação.
“Pela primeira página do Diário de Noticias passaram as histórias que contam a história do mundo e do país: o fim da guerra civil dos EUA, o assassinato de Lincoln, a invenção da dinamite por Alfred Nobel, a Comuna de Paris, os primeiros jogos de futebol, a guerra dos Boers, a erupção do Krakatoa, a vacina de Pasteur, a torre Eiffel, a invenção do gramofone, do cabo submarino, do raio-x, da impressão digital e do cinema, a reinvenção dos Jogos Olímpicos, a guerra dos Boxers na China, Zapata, Lenine, as trincheiras da Primeira Guerra, Versalhes, Ataturk, a penicilina, a Coca-Cola, a pastilha elástica, Gandhi, a Grande Depressão...”, prossegue o apelo, salientando que “esses 154 anos de publicações, diárias, constituem uma memória única e valiosa do nosso tempo”.
De acordo com o manifesto, o arquivo do Diário de Notícias, guarda as 55 mil edições do jornal, 1 milhão de fotografias, 3,5 milhões de negativos fotográficos, 50 mil chapas de vidro, zincogravuras e provas de contacto. Mas também 10 mil desenhos originais, feitos por autores como Rafael e Columbano Bordalo Pinheiro, Stuart Carvalhais ou Almada Negreiros, mas também pelo Rei D. Carlos e pela Rainha D. Amélia.
Ainda segundo o texto do apelo, elaborado pelo historiador Fernando Rosas, o arquivo a partir de 1970 está microfilmado e todo o acervo ocupa 450 metros de prateleiras, inclui mais de 11 mil coleções de jornais e revistas de todo o mundo e quase 35 mil livros.
“O arquivo do DN é considerado pela generalidade da comunidade académica, um património arquivístico e documental único e singular no país”, lê-se no apelo, que reforça: “É a história de três séculos. Da Monarquia, da República, da Ditadura e da Democracia em Portugal. Da revolução industrial, das guerras, do fascismo, do comunismo, da União Europeia.”
Assim, “dada a excecional relevância histórica, cultural e cívica do acervo documental em questão e atendendo aos riscos de extravio, deterioração e até destruição que neste momento o espreitam”, cerca de duas dezenas de jornalistas, académicos e escritores, pedem , à Direção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), “a classificação do arquivo histórico do Diário de Noticias como património arquivístico protegido, com vista à sua salvaguarda, organização e futuro acesso público”.
Entre os subscritores deste apelo, além dos dois ex-Presidentes e de Fernando Rosas, estão ex-diretores do DN, como Mário Mesquita e António José Teixeira, e outros jornalistas como Adelino Gomes, Diana Andringa ou José Pedro Castanheira, além da presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco. O apelo é assinado também pela historiadora Irene Pimentel, os escritores José Luís Peixoto e Francisco José Viegas, o comentador e historiador Pacheco Pereira e o jurista Alfredo Caldeira.
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