Dia Mundial da Incontinência Urinária. "O doente sente-se diminuído na sua dignidade"
14 mar, 2023 - 18:01 • Redação
Sofrer de incontinência urinária ainda é uma vergonha em Portugal. O constrangimento está, muitas vezes, associado à crença de que a incontinência urinária é uma doença de “velhos”.
O urologista Ricardo Pereira e Silva diz que "o doente incontinente sente-se diminuído na sua dignidade".
“Existem doenças, pelos contornos que assumem e pelo impacto que têm na esfera social das pessoas que acabam por ser alvo de tabu e vergonha. São menos socialmente aceites do que outras doenças, que têm um mediatismo próprio e que acabam por ser mais dignificadas pela opinião pública", diz à Renascença o também dirigente da Associação Portuguesa de Urologia.
Ricardo Pereira e Silva dá como exemplo as doenças oncológicas: "O doente oncológico é um doente respeitado, o doente incontinente sente-se diminuído na sua dignidade e, portanto, opta muitas vezes por se fechar."
No Dia Mundial da Incontinência Urinária que se celebra esta terça-feira, procura-se consciencializar não só para a importância da prevenção como também para o combate ao estigma.
As pessoas não querem falar do assunto, escondem os sintomas e esquecem a prevenção, mas a incontinência urinária é uma doença muito comum, de tal forma que, um em cada cinco portugueses tem esta patologia ao longo da vida. A perda de qualidade de vida é proporcional à vergonha sentida pelas pessoas a sofrer de incontinência, com apenas 10% a procurar ajuda médica.
O constrangimento está, muitas vezes, associado à crença de que a incontinência urinária é uma doença de “velhos”, o que é totalmente falso, já que, apesar de o risco aumentar com a idade, qualquer pessoa pode vir a desenvolver este sintoma ou doença.
Outros mitos sobre a incontinência urinária estão ainda muito enraizados na sociedade portuguesa, nomeadamente, aquele de que é normal perder urina de vez em quando e que a doença não tem cura.
A perda involuntária de urina, acima dos cinco anos de idade, deve ser motivo de preocupação e os avanços médicos, das últimas décadas, já apresentam diversas formas de tratamento, seja através de medicamentos ou cirurgia, mesmo nas pessoas mais velhas.
Esta doença afeta 20% da população portuguesa acima dos 40 anos, sobretudo mulheres, segundo os dados da Associação Portuguesa de Urologia.
São apontados vários fatores de risco como responsáveis pela maior incidência determinada pelo género feminino. Desde as alterações hormonais relacionadas à menopausa, que favorecem o relaxamento da tonicidade muscular do períneo, à gravidez e ao parto vaginal instrumental ou de fetos grandes, até às infeções urinárias de repetição que podem tornar a bexiga hipersensível e agravar uma incontinência já existente.
De acordo com Ricardo Pereira e Silva, uma das melhores formas de prevenção e até tratamento nos casos em que já se tenha perdas involuntárias de urina, é a reabilitação do pavimento pélvico. Esta prática está implementada em outros países europeus, como prática comum, no entanto, em Portugal “não é falada”.
“Ainda existe muito pouco recurso à reabilitação pélvica, portanto, à fisioterapia pélvica do pós-parto. E isso é uma coisa que, sem sombra de dúvida, podia ser melhorada a nível nacional. Existem alguns países onde as mulheres que têm partos são imediatamente direcionadas para realizar reabilitação do pavimento pélvico de forma quase coerciva.”, acrescenta o especialista, lamentando que em Portuga não se verifique esta forma de atuar.
A prevenção passa também por outros comportamentos, tais como escolhas de vida mais saudáveis, como a prática de exercício físico que combata a obesidade, e uma dieta equilibrada com ingestão de água em quantidade adequada e sem “o café, o charro, o álcool, o tabaco, as bebidas gaseificadas e as comidas muito condimentadas”, diz o neurologista
Ainda existe, na opinião de Ricardo Pereira e Silva, um longo caminho a percorrer no combate à doença e ao estigma, mas a sensibilização das pessoas, e até mesmo dos médicos de medicina geral, para a importância de alertar para a importância da prevenção, diagnóstico precoce e tratamento é essencial. E iniciativas como esta do Dia mundial da Incontinência Urinária servem para essa consciencialização.
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