Estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos
Quase 900 mil trabalhadores portugueses em profissões em risco de serem substituidas por máquinas
04 abr, 2025 - 06:48 • José Pedro Frazão
Um terço do emprego privado pode sofrer negativamente com impactos da automação, mas um quarto dos trabalhadores parece resguardado da mudança. Autores de estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos recomendam forte aposta na requalificação dos profissionais "em colapso"
Cerca de um terço dos trabalhadores do setor privado tem profissões em sério risco de serem substituídas por máquinas. É uma das conclusões de um estudo agora publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre os efeitos da inteligência artificial e da automação na força de trabalho em Portugal.
Os trabalhadores nas “profissões em colapso” face à automação são 28,8 % do universo de 3,2 milhões de trabalhadores de 280 mil empresas privadas. Em média, estes trabalhadores têm rendimentos mais baixos e poucas qualificações, estando vulneráveis ao desemprego ou ao emprego precário.
Viana do Castelo, Braga, Aveiro, Viseu apresentam mais de 40% do emprego em profissões ameaçadas pela automação, muito presentes no setor da manufatura.
Ameaças nas vendas
O universo das chamadas "profissões em colapso" situa-se entre os 900 mil e 1 milhão de trabalhadores. 3 das 10 maiores profissões do setor privado em Portugal estão nesta tabela, incluindo a maior delas - os trabalhadores no setor das vendas, em 'call centers', ao domicílio ou em venda de comida ao balcão, que totalizam 169 mil trabalhadores do setor privado. São uma das profissões mais ameaçadas pela digitalização, a par dos empregados de mesa e de bar, estafetas e alguns trabalhos na área da distribuição.
Sublinhe-se que há várias profissões catalogadas em categorias ligadas às vendas que não estão especialmente ameaçadas. Os 30 mil "agentes de compras, de vendas e corretores comerciais, os 23 mil "especialistas em vendas, marketing e relações públicas" ou os 17 mil "diretores de vendas, marketing e de desenvolvimento de negócios" estão nas chamadas "profissões em ascensão", ou seja, têm elevado potencial transformador pela Inteligência Artificial e baixo risco de destruição pela automação. Há ainda 100 mil trabalhadores catalogados como "vendedores em lojas" que se encontram no terreno seguro das profissões com menor probabilidade de serem afetadas pela digitalização a curto prazo.
O estudo utiliza dados administrativos sobre a força de trabalho da base de dados 'Quadros de Pessoal' do Ministério do Trabalho, e ainda dados sobre a exposição de profissões a novas tecnologias e sobre requisitos de competências por profissão da base de dados europeia ESCO.
Aquelas máquinas
O impacto da automação pode subir ligeiramente se os cálculos incluírem aqueles que já hoje estão a trabalhar essencialmente com máquinas. Aos 29% de trabalhadores nas “profissões em colapso” face à automação, juntam-se 13% de profissões que já estão baseadas em máquinas, mas que têm capacidade de transformação devido à inteligência artificial.
Estas são as profissões catalogadas no "terreno das máquinas" e incluem os 119 mil "empregados de escritório em geral", os 92 mil "empregados de aprovisionamento, armazém, de serviços de apoio à produção e transportes" e as 80 mil pessoas que fazem " receção e informação a clientes".
Há ainda profissões com muitos trabalhadores que estão à beira de entrar na categoria mais ameaçada. É o caso da segunda maior profissão do setor privado («trabalhadores de limpeza em casas particulares, hotéis e escritórios») e da sexta maior profissão («trabalhadores qualificados da construção das estruturas básicas e similares»). Em ambos os casos, a ameaça vem sobretudo com grau de exposição bastante elevado à automação.
Algumas boas notícias
Em sentido contrário, 22,5% do emprego do setor privado está em ascensão em relação à Inteligência Artificial e protegidos da substituição por máquinas. Um quarto da força de trabalho está nas chamadas " profissões em ascensão", com potencial para virem desfrutar de efeitos positivos de inteligência artificial.
Apresentam, em média, os rendimentos mais elevados, a uma distância assinalável em relação aos restantes terrenos. No entanto, nenhuma das maiores profissões se encontra neste domínio. Entre estas profissões do setor privado estão gestores, programadores informáticos, arquitetos, professores no ensino básico, educadores de infância ou especialistas em finanças e contabilidade.
Requalificação é a chave
Entre as recomendações, os autores apelam à requalificação focada nas profissões mais ameaçadas e sugerem que há indícios de que o trabalho de reconversão profissional não é difícil para a maioria dos trabalhadores do setor privado.
"Os esforços de requalificação destes trabalhadores, para aquisição de novas competências de forma a fugirem da categoria de profissões em colapso, podem não ser assim tão grandes. Parece-se haver uma 'porta de fuga' relativamente fácil para um grupo de profissões a que chamamos 'o terreno dos humanos', que, apesar de não estarem bem posicionadas para desfrutar dos efeitos positivos, estão protegidas tendencialmente dos efeitos negativos da automação", sustenta Hugo Castro Silva, investigador do Instituto Superior Técnico e um dos co-autores do estudo, em declarações ao programa "Da Capa à Contracapa" da Renascença.
O estudo recomenda ainda a reformulação dos currículos para a era digital, um reforço da proteção social, um forte envolvimento dos empregadores, inovação, empreendedorismo e tecnologias digitais como catalisadores regionais, incentivos para a adoção responsável da Inteligência Artificial e da automação e monitorização e uso ético de tecnologias emergentes.
- Noticiário das 1h
- 14 jun, 2026








