20 jun, 2025 - 22:53 • Tomás Anjinho Chagas com Lusa (texto)
O coletivo Humans Before Borders (HuBB) realizou esta sexta-feira uma vigília, em Lisboa, em nome dos migrantes e refugiados que perderam a vida ao longo de décadas a tentar entrar na Europa.
No Dia Mundial do Refugiado, o HuBB fez um memorial junto ao Marquês de Pombal, em Lisboa, onde foram lidos os nomes das mais de 66.000 pessoas que morreram entre o ano de 1993 até os dias de hoje, sob o mote "We won't forget you" ("Não nos esqueceremos de vós").
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Com a Feira do Livro de Lisboa a decorrer no Parque Eduardo XVII em plano de fundo e com hora marcada para as 19:30, os oito membros do HuBB colaram no chão dezenas de folhas com os nomes de todas as vítimas e encheram de ar um bote rodeado com cartazes onde se lia "No human is illegal" ("Nenhum humano é ilegal") e "Protect people not borders" ("Protejam as pessoas, não fronteiras").
Margarida Wolf, médica de profissão e membro do HuBB, disse que o coletivo escolheu a Feira do Livro porque por lá passam pessoas “interessadas em saber mais sobre tudo, sobre cultura, sobre o mundo e sobre a arte” e para, acima de tudo, “relembrar este conjunto de pessoas, que ainda é bastante grande”.
"Gostávamos que as pessoas e os governos e os políticos começassem a ver as pessoas que migram e que se põem em barcos de borracha sem rumo e sem garantia de chegar a outro lado. Que são pessoas que estão em situação de desespero, são pessoas que merecem, como nós, uma outra oportunidade e que neste momento não têm vias seguras, rotas seguras para chegarem à Europa ou aos sítios a que pretendem chegar”, adiantou.
Com uma coluna e um microfone, os membros do HuBB procederam à leitura, à vez, dos mais de 66.000 nomes das vítimas, das razões das suas mortes e dos locais onde morreram.
Margarida Wolf apelou, à margem da vigília, a que os governos internacionais e também de Portugal fossem “mais transparentes em relação à receção destes migrantes e aos centros de detenção”.
“Em Portugal existem muitos e agora temos planos para se construir mais dois. Ninguém sabe nada sobre o que se passa dentro destes centros de detenção. Gostávamos que que não existissem, mas a existirem, que garantissem o mínimo acesso ao mundo exterior, a advogados, a tradutores, a cuidados médicos, que neste momento não têm”, acrescentou.
No total, foram registados 2.849 pedidos em 2024 e(...)
Já os transeuntes, curiosos, passavam por cima das folhas com os nomes, alguns pisavam-nas e muitos outros paravam para escutar e fotografar com os seus telemóveis as folhas, acedendo através de um 'QR-code' à página da UNITED, uma rede contra o nacionalismo, o racismo e o fascismo que apoia migrantes e refugiados, onde podiam ler todos os nomes de quem morreu entre 1993 e 17 de junho de 2025, na travessia para a Europa.
Aos membros do coletivo juntaram-se várias pessoas que, de forma deliberada ou de passagem, se reuniram para prestar a sua homenagem e protestar contra as políticas dos países europeus e da União Europeia em relação ao tratamento para com migrantes e refugiados.
Ana Mendes, designer gráfica, que faz parte do coletivo, afirmou que está envolvida com o tema da imigração desde 2015 e, depois de ter feito trabalho voluntário com migrantes na Bulgária, decidiu juntar-se ao HuBB.
Este membro do HuBB recorda que na altura em que fez trabalho voluntário testemunhou uma política de imigração a nível europeu que se baseia em “campos de detenção sem qualquer tipo de condições, onde as pessoas acabam por estar encerradas durante meses a fio, sem qualquer prazo da data de saída, sem poderem sair, sem poderem viver, apenas e simplesmente porque atravessaram uma fronteira”.
Já José Pina, vigilante, juntou-se à vigília onde declamou poesia da sua autoria, por achar que é “muito importante, no momento em que estamos, a sociedade estar solidária com essas pessoas, que são pessoas, seres humanos”.
Em declarações à Renascença, este cidadão avisa: "Todo o mundo é imigrante, todo o mundo pode ser, um dia, refugiado".
Para José Pina, Portugal deve ter responsabilidades para com os refugiados porque “há um estatuto de refugiado que tem que ser cumprido” e as pessoas que se deslocaram para o país “não podem ser abandonadas”.
O HuBB, com sedes no Porto e em Lisboa, tem como objetivo lutar contra o tratamento desumano e ilegal de migrantes e refugiados e lutar pelos direitos humanos.