Onde estão os alunos que, há 10 anos, tiraram as notas mais altas nos exames nacionais?
26 jun, 2025 - 06:15 • Ana Fernandes Silva
Patrícia e Gonçalo entraram no Ensino Superior há uma década. Hoje, deixam aos mais novos a garantia de que "o esforço compensa sempre".
Na reta final da primeira fase dos exames nacionais do Secundário, são muitas as preocupações que pairam entre os mais novos e a média final é uma delas. Por isso, há até quem repita os exames, em busca de uma nota melhor. A liberdade de escolha de um aluno que tem média de 20 será, naturalmente, maior.
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A Renascença foi ao encontro de dois estudantes que, há 10 anos, obtiveram a média mais alta.
Em 2015, quando estava prestes a terminar o3.º ciclo, Gonçalo Madureira, agora com 28 anos, "já sabia que queria ir para Medicina". Assim foi.
"O esforço que fiz foi com a noção da nota mínima de admissão que era necessária para ingressar no curso e acabou por correr melhor do que o objetivo que tinha", admite.
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Terminado o Secundário, Gonçalo Madureira ingressou onde sempre quis - na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde estudou entre 2015 e 2021, ano em que concluiu o mestrado integrado em Medicina. Em 2022, ingressou no Internato de Formação Geral, no Hospital de Braga, e, em 2023, no Internato de Formação Específica.
O percurso teve "percalços mínimos, transversais a toda a gente", mas sem "nenhuma expectativa defraudada daquilo que eram os objetivos académicos, desde que saí do secundário".
Não podemos dizer que o mesmo aconteceu com Patrícia Resende, hoje com 27 anos. Quando terminou o Secundário com média de 20, "já tinha um bocadinho a noção de que a faculdade não seria tão fácil".
Os medos e anseios de quem está prestes a candidatar-se ao Ensino Superior são comuns a muitos jovens.
As dúvidas existem e, não raras vezes, fazem parte do percurso académico. Patrícia chegou mesmo a ponderar trocar de curso e desistir de Arquitetura, a "paixão que vem desde pequenina".
No segundo ano da licenciatura, decidiu interromper o curso na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.
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"Para além de uma carga descomunal de trabalho, e embora a faculdade não admita praxes, parece que às vezes somos praxados pelos professores" desabafa, ao mesmo tempo que recorda as noites passadas sem dormir de modo a entregar os trabalhos em tempo útil e a constante pressão que sentia por parte de alguns docentes. "Ou estudas arquitetura ou jogas andebol" foi uma frase que ouviu vezes sem conta.
Patrícia parou, mas não desistiu. Durante dois anos e meio continuou a dedicar-se ao andebol profissional, com mais tempo livre na agenda, e aproveitou para colocar os conhecimentos que já tinha de Arquitetura em prática.
Está agora no último ano do mestrado em Arquitetura , conta ingressar, muito em breve, no mercado de trabalho.
Gonçalo conseguiu o objetivo que tinha há 10 anos e é agora médico neurorradiologista. Exerce em duas unidades distintas - no Hospital de Santo António, no Porto, e no Pedro Hispano, em Matosinhos.
"O trabalho e o esforço compensam"
Patrícia recorda que os "nãos" que deu ao longo dos anos a ajudaram "tanto na faculdade como agora".
Nem sempre alimentou a vida social, mas as opções foram sempre conscientes. "Se calhar, os jantares com amigos que eu perdi, os jantares de aniversários que perdi, porque preferi ficar a estudar ou porque tinha treino e não podia ir, compensam e voltava a fazer tudo igual".
"O contexto familiar e socioeconómico são absolutamente determinantes" para o sucesso escolar, aponta por sua vez Gonçalo.
No momento em que recorda as notas de excelência que obteve no secundário, Gonçalo reconhece o mérito pessoal, mas aponta "um conjunto de circunstâncias privilegiadas".
"O contexto familiar e socioeconómico são absolutamente determinantes" para o sucesso escolar — Gonçalo Madureira, médico neurorradiologista
Ter notas altas "não depende só de características pessoais, nem do esforço do aluno, depende muito, também, do meio familiar, da possibilidade de existirem apoios externos, das preocupações que a família tenha que possam ou não fazer com que a educação, ou pelo menos a excelência, não seja a preocupação primordial dos pais, quando existem outras necessidades mais básicas que têm que ser satisfeitas, que no meu caso nunca foram questão".
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Para Gonçalo, é importante que "a noção de que o trabalho e o esforço compensam é muito positiva para uma pessoa continuar a trabalhar".
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Sobre o estado da profissão em Portugal, Gonçalo não se ilude. "As dificuldades são sobejamente conhecidas, a sobrecarga de trabalho é conhecida, a má gestão e a má distribuição do pessoal médico no território nacional é também ela conhecida".
Por isso, admite que é difícil que "alguém fique desiludido numa situação que todo o país conhece".
Atualmente, Gonçalo trabalha a tempo inteiro Hospital de Santo António, onde pratica "40 horas semanais, mais ou menos", mas trabalha também (ainda que menos horas) no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, acrescentando a isso "existe ainda uma vertente de aprendizagem que se mantém".
"Sem dúvida que o orçamento mensal fica muitíssimo mais composto se houver dois trabalhos", sublinha.
Gonçalo assegura que dedica mais de 70 horas à medicina, entre o trabalho que realiza nos hospitais e a componente do estudo autónomo e de produção científica.
É difícil que "alguém fique desiludido numa situação que todo o país conhece" — Gonçalo Madureira, médico neurorradiologista
O jovem clínico reconhece que tem enfrentado "dificuldades transversais a toda a gente, como a carga assistencial que é elevada", ainda que se sinta "relativamente poupado, comparativamente com colegas de outras especialidades".
O horário não é estanque, tem dias em que trabalha das "8h00 às 14h00, outros dias do meio dia à meia-noite". Por isso, não descarta a possibilidade de sair do país, "quando sentir que aquilo que tenho cá é insuficiente para me sentir realizado".
Para Patrícia, a "ideia não está nos planos, para já", mas não diz que não vai acontecer.
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