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Conferência Sustentabilidade/Competitividade

Orçamento do Estado com “mais incentivos à insustentabilidade do que à sustentabilidade”

26 jun, 2025 - 13:35 • Ana Catarina André

Abandono dos ecossistemas, políticas públicas que “não estão alinhadas com os incentivos económicos da sociedade” e “um modelo económico mal calibrado” foram alguns dos temas que marcaram o primeiro painel da conferência sobre sustentabilidade e competitividade que decorreu esta quinta-feira, em Samora Correia.

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Apesar de ter estado sempre presente no setor agrícola, “a componente ambiental ou ecológica” está “muitas vezes está invisível nas contas”. A afirmação é de Nuno Oliveira, um dos oradores que esta quinta-feira, dia 26, participou na conferência “Sustentabilidade/Competitividade: uma união ou um conflito?”, que se realizou em Samora Correia, uma iniciativa da Renascença e da Companhia das Lezírias, a maior exploração agropecuária e florestal do país.

“A agricultura em si é uma emissora líquida de bens e serviços públicos. Nós temos que realmente reformar a maneira como olhamos, contabilizamos e analisamos esse negócio. De outro modo, temos um problema de competitividade”, alertou o fundador da start-up Natural Business Intelligence, que é também professor universitário.

Noutra intervenção, a arquiteta paisagista Teresa Andresen, que participou no debate, chamou a atenção para “o abandono de grande parte dos ecossistemas” e distinguiu os riscos associados à competitividade e à sustentabilidade. “Na competitividade são de muito curto prazo. Na sustentabilidade são de curto prazo, mas de médio e de longo prazo e esta é que é a dificuldade. Como é que minimizamos o risco do negócio, o risco da degradação ambiental?”

Pegando no tema, o professor Luís Rocharte, que trabalha na área da sustentabilidade e da transformação, constatou que se está “a tentar diminuir danos nos ecossistemas" em vez de construir a sustentabilidade.

Já Henrique Pereira dos Santos, arquiteto paisagista, sublinhou que em Portugal há “um preconceito contra o lucro e contra o dinheiro” e Nuno Oliveira questionou “o cisma ideológico que se criou entre agricultura e natureza”. “O agricultor é um gestor de ecossistemas e, conseguindo gerir esse ecossistema, consegue ter modelos produtivos que são conciliáveis com os tais bens, serviços ecológicos e ambientais e isso deve ser reconhecido”, disse. O professor que dá aulas de economia natural acrescentou, ainda, que “temos um modelo económico mal calibrado”. “Vivemos no século XXI, mas continuamos a pensar como no pós-guerra do século XX.”

Políticas públicas “não estão alinhadas com os incentivos económicos da sociedade”

O painel abordou, também, o papel das políticas públicos no setor agrícola e na construção da sustentabilidade. Sobre o tema, Teresa Andresen referiu “uma grande incapacidade se ser sensível à realidade das diferentes paisagens” e abordou a dificuldade em enunciar as novas necessidades associadas à inovação tecnológica, referindo o “desajuste dos modelos económicos e dos modelos de governança” existentes.

A arquiteta considerou, tal como Nuno Oliveira, que é preciso “deixar espaço à criatividade, ou seja, à iniciativa privada”.

Segundo Luis Rocharte, as políticas públicas são “muito divergentes e inconsequentes” e é fundamental que estejam “orientadas não para trazer problemas, mas para os resolver”. O especialista, professor universitário, constatou, ainda, que o Orçamento do Estado (OE) deste ano “tem mais incentivos à insustentabilidade do que à sustentabilidade”. “O nosso OE continua a financiar soluções que não são de futuro e que vão contra as declarações bondosas que os nossos políticos fazem nos programas de governo ou nos programas eleitorais”.

Já Henrique Pereira dos Santos defendeu que as políticas públicas “não estão alinhadas com os incentivos económicos da sociedade”. Falando dos incêndios e da gestão de combustível, o especialista referiu que “a generalidade das políticas públicas (…) tentam estimular uma gestão que não tem interesse para o produtor”. “Ninguém está para pagar limpezas de terrenos sem nexo”, afirmou, referindo que as políticas de gestão estão centradas na ideia de que “o vizinho tem de garantir a minha segurança”. E acrescentou: “Isso é ridículo.”

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