Anjos vs Joana Marques
Ricardo Araújo Pereira. "Se alguém se ri deles querem um milhão de euros"
30 jun, 2025 - 10:51 • Liliana Monteiro , Daniela Espírito Santo
Humorista Ricardo Araújo Pereira foi uma das três testemunhas de Joana Marques na terceira sessão de julgamento.
[Notícia atualizada às 13h18 de 30 de junho de 2025 para acrescentar mais declarações feitas durante a sessão]
Ricardo Araújo Pereira constatou, esta segunda-feira de manhã, que a dupla de cantores Anjos não processou quem assumiu que a transmissão da sua atuação do hino nacional correu mal, nem quem os ameaçou de morte nas redes sociais, mas sim quem revelou, "num vídeo de um minuto", que não gostou "daquela interpretação musical".
O humorista é uma das três testemunhas de Joana Marques previstas para a terceira sessão deste julgamento que opõe os irmãos Nelson e Sérgio Rosado à autora do podcast "Extremamente Desagradável", da Renascença.
Foi a segunda testemunha ouvida no Palácio da Justiça, esta segunda-feira. Em tribunal, considerou que o vídeo em causa é um "trabalho humorístico a partir de uma fome que foi a atuação real". "É sempre assim", defende, acrescentando que, na sua opinião, "o vídeo não comete qualquer ilícito", pelo que não fazia sentido retirá-lo do digital.
"Estamos aqui numa perspetiva de que o humor é uma agressão", lamenta. E questiona: "Os queixosos têm um documento que admite erros da empresa e não processaram. Se alguns os ameaçaram de morte, não processaram. Se alguém se ri deles querem um milhão de euros".
Questionado sobre se os humoristas pensam nas consequências do seu trabalho, Ricardo Araújo Pereira foi perentório: "A maneira como as pessoas interpretam não é responsabilidade do humorista".
O encontro do Papa Francisco com humoristas também foi abordado na sala de audiências, com a defesa dos Anjos a dizer que o Papa defendeu que "o humor não humilha, não magoa". O humorista redefiniu, nessa altura, a interpretação feita pela advogada e sublinhou que o que o Papa quis afirmar - num encontro em que também Ricardo Araújo Pereira esteve - é que o humor é um estado próprio e, por isso, não podia ser visto como algo que provoca mágoa ou humilhação.
"O trabalho humorístico é olhar para o que as coisas são e imaginar se elas fossem de outra forma", explica. "Caso a Joana tiver de pagar um euro é alarmante para humoristas ou qualquer cidadão que queira dizer que não gostou ou que faça uma piada", lamenta, no final da sua intervenção. Seguiu-se o depoimento do agente de Joana Marques, Miguel Isaac, que confirmou ter tentado falar com os Anjos, sem sucesso.
A audiência de julgamento decorreu numa sala muito quente sem ar condicionado e com recurso a cinco ventoinhas. Intervenientes e público socorreram-se de leques. Os lugares são poucos para todos os que quiseram assistir havendo, inclusive, quem estivesse de pé. A sessão decorreu com muitas trocas de palavras entre as defesas das duas partes, com a juiz a colocar ordem na sessão. Foi interrompida, no entretanto, para almoço.
Cá fora, Ricardo Araújo voltou a repetir muitos dos argumentos que usou em tribunal, lamentando ter feito o seu depoimento "numa sauna". Ainda tem tom jocoso, e em declarações à imprensa, colocou um cenário hipotético em jogo: se alguém não gostar de uma música dos Anjos, será que eles recolhem esse álbum? "A minha prima Andreia, sempre que ouve a 'Noite Branca' atira-se da janela. Temos de fazer sempre o Natal no rés-do-chão. A Andreia não gosta daquele álbum, mas não é razão para o recolherem", brinca o humorista, para quem uma eventual condenação de Joana Marques seria "uma catástrofe", não apenas para a profissão, mas "para os cidadãos em geral". "Se a Joana for condenada - e nem precisa de ser num milhão de euros - isto significa que o que ela fez é ilícito. E, portanto, toda a gente que já teve ou quer vir a ter o direito de dizer que não gosta de alguma coisa... que vá preparando a carteira", vaticina.
"A expressão assassinar uma música não equipara ninguém à Rosa Grilo"
Antes, à entrada e também aos jornalistas, o comediante diz acreditar que a intenção dos Anjos "é uma impossibilidade".
"Eles querem que o tribunal determine o seguinte: 'nós não somos ridículos'. E isso não é possível, porque somos todos", admite.
"Não faz sentido processar a Joana Marques, ponto final". E repete: "É um vídeo de um minuto que exprime a seguinte ideia: 'não gostei muito desta interpretação musical'. Faz tudo parte de uma espécie de infantilização da sociedade", lamenta o humorista.
"Por exemplo, fala-se em bullying, que é um fenómeno completamente diferente do que está aqui. Diz-se que, quando a Joana insinua que eles 'assassinaram' uma música lhes está a chamar assassinos. Não preciso de explicar, não é? É matéria do sexto ano de Português, as metáforas", critica.
"A expressão assassinar uma música não equipara ninguém à Rosa Grilo. Significa que se cantou mal", diz. "Eu acho que é possível dizer que o Pavarotti canta mal e não ser incomodado pela Justiça. Era o que faltava que sobre os irmãos Rosado não se pudesse dizer a mesma coisa", remata.
O julgamento já decorria quando o humorista chegou ao Palácio da Justiça, em Lisboa, onde decorre, esta segunda-feira, a terceira sessão deste julgamento, e numa altura em que era ouvido o contabilista da banda.
Em jeito de brincadeira, Ricardo Araújo Pereira diz que não vai defender a colega, mas sim atacar, porque espera "que a prendam e deitem fora a chave".
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- 12 jul, 2026







