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Operação Marquês

Julgamento de Sócrates. O primo "querido", as pessoas "gentis" e a relação sexual de Salazar com dona Maria

09 jul, 2025 - 12:41 • Susana Madureira Martins

Houve um momento que causou algum desconforto em Sócrates e entre os diversos membros do tribunal, tendo em conta que foram ouvidas algumas asneiras ditas pelo ex-governante.

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O Ministério Público fez reproduzir uma conversa entre José Sócrates e o ex-administrador da PT, Henrique Granadeiro, na sessão desta quarta-feira de manhã.

O procurador do MP justificou a apresentação desta escuta: queria demonstrar o grau de "proximidade" na relação entre ambos. De facto, ouve-se na escuta o antigo primeiro ministro a dizer ao empresário — e também arguido no processo — que "tem um lugar muito especial" entre os seus amigos.

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Tratou-se de um momento que causou algum desconforto em Sócrates e entre os diversos membros do tribunal, tendo em conta que foram ouvidas algumas asneiras ditas pelo ex-governante que, a dada altura, gracejou mesmo sobre a alegada relação íntima entre Oliveira Salazar com a governanta.

Referindo-se na escuta a uma conversa que ocorreu num jantar com o antigo presidente do Parlamento António Almeida Santos e na presença do ex-Presidente da República Mário Soares, ouve-se o antigo primeiro-ministro relatar alegadas conversas com essas duas personalidades em que foi levantada a questão "se o Salazar fornica ou não com a dona Maria", com Sócrates a gracejar que se tem "divertido".

Toda esta situação levou a protestos da defesa de Sócrates, a juíza-presidente Susana Seca declarou na sessão que "o tribunal de ora em diante não vai permitir" que reproduções de escutas telefónicas "possam afetar a vida privada" dos arguidos.

A defesa justificou que o Tribunal está a usar provas ilegais, com o advogado de defesa do ex-primeiro-ministro, Pedro Dellile, a considerar que a juíza-presidente deve "considerar nula esta parte" do julgamento.

Dentro da sala de audiências, Sócrates criticou mesmo o procurador Rui Real e o Ministério Público, considerando que o julgamento "não se compadece com exercícios de voyeurismo". Aos jornalistas, à saída do Tribunal e na pausa para almoço, o ex-primeiro-ministro chegou mesmo a pedir o afastamento do procurador pelo uso das escutas nesta audiência.

O primo "querido" e Barroca, uma das pessoas "gentis" a quem Sócrates devia "atenções"

José Sócrates confirma que fez diligências para ajudar o grupo Lena em negócios em Angola. No terceiro dia de julgamento da Operação Marquês, o ex-primeiro-ministro diz que entre 2011 e 2014, já depois de sair do Governo, respondeu a um pedido do administrador desta empresa, o também arguido Joaquim Barroca, para falar com o Governo angolano por causa da construção de uma autoestrada.

Na sessão desta manhã, Sócrates disse que Barroca era uma pessoa a quem "devia atenções", na sequência do apoio que o empresário lhe deu na campanha eleitoral das legislativas de 2009, referindo mesmo um jantar em Leiria.

O ex-primeiro-ministro justificou-se: "São pessoas que conhecemos, que são gentis connosco e que retribuímos com atenções", disse. E uma dessas atenções foi uma conversa com o vice-presidente angolano sobre interesses do grupo Lena naquele país.

A juíza-presidente Susana Seca questionou ainda o arguido sobre a relação com o primo, José Paulo Pinto de Sousa, também arguido no processo.

Sócrates referiu-se a ele como "querido primo", confirmando que este teve relações empresariais com um dos seus melhores amigos, Carlos Santos Pereira, outro dos arguidos do processo Marquês e que referiu conhecer desde os tempos em que ambos frequentaram o liceu da Covilhã, tendo reconhecido que passaram férias "juntos", classificando-o como um empresário "distinto" da cidade beirã.

"Se a pergunta for idiota posso dizer isso e não responder?"

No terceiro dia do julgamento, a sessão arrancou de forma bem menos tensa do que a de terça-feira, onde ficou patente o confronto entre Sócrates e a juíza-presidente. Susana Seca, certamente na sequência dessa tensão, começou a sessão desta quarta-feira a avisar o ex-primeiro-ministro que não pode colocar em causa a "pertinência" das perguntas. Sócrates agradeceu e questionou a juíza-presidente "se a pergunta for idiota posso dizer isso e não responder", ao que Susana Seca atalhou respondendo que "a menos que tenha dúvidas sobre a pergunta", não pode "classificar" o teor da mesma.

A sessão começou com perguntas da juíza-presidente sobre quando e em que condições Sócrates conheceu o ex-administrador da PT Zeinal Bava, com o arguido a responder que o conheceu "antes" de ir para o Governo e que nunca se reuniu com ele a sós, ressalvando que se possa ter encontrado com Bava em reuniões que teve também com o ex-administrador da PT Henrique Granadeiro.

Sobre a intenção da SONAE lançar uma OPA à PT, Sócrates justificou à juíza que a opção do Governo foi a de manter "neutralidade absoluta" e de não considerar a operação "hostil", garantindo que não manipulou a Caixa Geral de Depósitos sobre o sentido de voto. O ex-primeiro-ministro referiu ainda que o Estado apenas deu "orientação" ao banco público para que usasse a golden share na PT para votar abstenção.

Sobre o então presidente do Grupo SONAE, Belmiro de Azevedo, o ex-primeiro-ministro disse que o empresário lhe entrou pelo gabinete e disse que tinha a "solução" para a PT, referindo com ironia que "sempre" que Belmiro "abria a boca achava que tinha uma solução para o país". Sócrates acabou por não se opor à operação, justificando que "depois" de o empresário lhe explicar que ia fazer uma OPA lhe disse que iria "excitar a economia".

Escutas de motorista desmente Sócrates

Escutas divulgadas esta quarta-feira pelo Ministério Público, no julgamento do processo Marquês, colocam em contradição José Sócrates e o antigo motorista João Perna.

Após a pausa para almoço, a sessão do julgamento foi retomada para o procurador Rui Real regressar à relação do ex-primeiro-ministro com o antigo banqueiro Ricardo Salgado.

José Sócrates refuta os argumentos do Ministério Público de que jantou com Ricardo Salgado, em 2014, mas numa escuta telefónica João Perna, o antigo motorista de Sócrates, refere-se taxativamente a um encontro com o banqueiro que terá durado até à 1h00 da manhã.

O ex-primeiro-ministro garante que não é verdade e que esteve numa outra casa de outra pessoa, recusando-se contudo a dizer de quem.

O antigo governante reitera que não tinha relação de amizade nem o contacto de Ricardo Salgado, mas numa escuta telefónica ficou claro que a secretária pessoal de José Sócrates tinha um telefone dedicado para ser usado apenas pelo então primeiro-ministro.

José Sócrates não tem gostado das perguntas do Ministério Público, a quem acusou de insistir no que designa por "vaudeville", tendo sido repreendido pela juíza-presidente Susana Seca e pelos lamentos do procurador Rui Real sobre o tom das respostas do antigo primeiro-ministro.

[notícia atualizada às 16h36]

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