Reportagem
Ciclistas que receberam transplantes pulmonares fazem Porto-Lisboa de bicicleta
18 jul, 2025 - 22:11 • Catarina Severino Alves
O grupo de transplantados pulmonares fez mais de 500 quilómetros desde o Hospital de São João, no Porto, ao Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Mostram que é possível ter qualidade de vida e querem dar força a pessoas em situação semelhante.
Ouvem-se aplausos. Augusto Ferreira e José Coelho são recebidos por familiares e amigos depois de uma viagem de bicicleta entre o Hospital de São João, no Porto, e o Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Mas há algo que torna a viagem especial – os ciclistas receberam um transplante de pulmão em 2019 e 2021, respetivamente.
Após anos de recuperação, Augusto e José decidiram organizar a iniciativa que une simbolicamente os hospitais que marcaram o seu percurso. Esta terça-feira, partiram do Porto, passando por Coimbra, Fátima e Torres Vedras, antes de chegar a Lisboa, esta quinta-feira.
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Desde cedo que Augusto Ferreira sofre de problemas nos pulmões. Recorda uma infância em que não podia brincar com as crianças da sua idade. “Nunca pude jogar à bola, nunca pude fazer ginástica na escola. E depois, mais tarde, não pude brincar com os meus filhos”, contou à Renascença.
Em 2019, recebeu o transplante de pulmão e, passados seis anos de recuperação, mostra a outros transplantados que é possível recomeçar.
“É uma alegria para mim, conseguir fazer isto. Quero dedicar esta iniciativa que nós tivemos ao Carlos Lima e à Ana Silva, que são duas pessoas que estão à espera do transplante. Eu disse-lhes que esta iniciativa é para eles. E quero que, para o ano, eles estejam aqui connosco de bicicleta”, afirmou o ciclista.
José Coelho pedalou ao seu lado do Porto até Lisboa. Foi transplantado em 2021, depois de dois anos em lista de espera.
“Ao fim de um ano (de recuperação), disse assim: ‘Eu não sou homem de sofá, eu tenho de sair para a rua. Comecei a sair, (...) todos os dias fazia caminhadas (...). Depois, (...) comprei uma bicicleta, fazia umas pedaladas (...)”, relata. Em 2024, José já tinha participado na viagem de bicicleta, mas este ano tornou-se um dos organizadores da iniciativa.
“Sinto-me ótimo, eu acho que me sinto com mais força agora do que antes de fazer o transplante”, afirma José de forma expressiva.
Ao percorrerem mais de 500 quilómetros de bicicleta, os dois ciclistas pretendem dar visibilidade à realidade dos transplantados, promover a inclusão e dar força a pessoas à espera de um transplante ou em processo de recuperação dele.
A mensagem que querem transmitir pode ser resumida nas palavras de José Coelho - “Muita coragem. Força é o essencial. Sem força de vontade, não se consegue fazer nada (...). Lutem pela vida, mas de uma maneira saudável. Não se deixem ficar sentados, caminhem, façam boas caminhadas. Daqui a um ano, vocês vão reconhecer que de facto valeu a pena sofrer aquilo que nós sofremos”.
Entre o grupo que esperava os ciclistas, estava Graça Rodrigues, que recebeu o transplante há 4 anos e acompanhou o percurso de autocarro. Revela-se muito orgulhosa da comunidade de transplantados. “Isto quer dizer que estamos juntos. Estamos a demonstrar que não somos só nós - que outros amanhã, depois, daqui a um mês, daqui a um ano, podem ser eles”, disse.
Quando questionada sobre se gostaria de participar numa próxima edição da iniciativa, Graça mostrou-se motivada - “Estou com gosto que para o ano talvez faça a caminhada. Não digo todas as etapas de bicicleta, mas pelo menos algumas. Estou a contar com isso, vou fazer por isso”.
A viagem organizada por Augusto e José aconteceu em vésperas do Dia Nacional da Doação de Órgãos e da Transplantação, celebrado a 20 de julho.
- Noticiário das 16h
- 16 jun, 2026








