27 ago, 2025 - 10:09 • Rita Vila Real
Um estudo realizado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, divulgado esta quarta-feira, sugere que há "um processo raro" que explica os grandes eventos de atividade sísmica ao largo de Portugal.
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O estudo, publicado na revista científica Nature Geosciences, partiu de dois grandes eventos sísmicos que aconteceram em Portugal Continental, "o grande sismo de Lisboa de 1755, e também um outro sismo muito grande em 1969, um sismo de magnitude 7.9", como explica à Renascença João Duarte, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Investigador no Instituto Dom Luíz.
Sismos
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O investigador explica que foram utilizados vários métodos de estudo do território. Inicialmente, o investigador fez "um mapeamento das falhas tectónicas ativas naquela zona", para depois utilizar tomografia, "que é um bocadinho como fazer uma ecografia". "Usamos o som para ver a estrutura da terra por dentro e fizemos modelos computacionais para estudar esta zona onde se pensa que se geram estes grandes sismos", explica o especialista.
"O sismo de 1969 tinha sido gerado numa zona muito plana, a que chamamos a Planície Abissal da Ferradura. Durante muitos anos andámos à procura da falha que terá gerado o sismo de 1755. Nunca se encontrou uma falha com as dimensões necessárias para gerar esse sismo", conta o especialista. "A pista que quis seguir foi tentar perceber o que é que poderia ter gerado o sismo de 1969, na esperança que, se encontrasse essa explicação poderia também ser a explicação para o sismo de 1755".
Os investigadores envolvidos focaram-se "nesta zona plana do fundo do mar e tentámos juntar vários dados". Depois da análise, encontraram "uma parte da placa tectónica daquela zona que poderia estar a destacar, poderia estar a separar da superfície". Assim, conseguiram encontrar "evidências que naquela zona poderá estar a ocorrer um processo raro, que é exatamente esta separação da parte de baixo da placa da parte de cima".
Este processo, que deu origem a dois grandes eventos sísmicos, são resultado de "processos naturais que ocorrem ao longo das escalas geológicas" que podem voltar a acontecer. Porém, o investigador deixa a ressalva de que "o espaçamento entre estes grandes sismos é muito longo", pois Portugal Continental está localizado numa zona em que "as placas se estão a mover a velocidades muito lentas".
Da Capa à Contracapa
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"Eu diria que temos de estar preparados", alerta João Duarte: "Nós perdemos um pouco a memória, ao contrário de quem vive no Japão, ou mesmo nos Açores, que há sismos sentidos com mais frequência. Temos que assumir que pode haver um sismo grande a qualquer momento".
Apesar do risco existir, "é claro que conhecer melhor estas fontes dos sismos vão nos ajudar a tentar perceber quais as suas consequências, quais são as partes do país que têm maior risco, que têm menos risco, permite-nos fazer simulações do risco e permite, ajuda também, os engenheiros a prepararem construções de maneira a resistir a estes sismos", explica.
A comunidade científica está a evoluir para poder amenizar os impactos destes eventos: "Eu penso que fizemos um grande caminho, e sempre que se sente um sismo em Portugal nunca se volta a estaca zero. Cada vez que há um evento destes, há sempre mais qualquer coisa que se avança, ou alertas, sistema de alertas de tsunami, ou as câmaras municipais ficam mais preparadas", remata o professor da FCUL.