Operação Marquês
“Conversa da treta”. Sócrates demarca-se do Grupo Lena em mais um dia de julgamento
03 set, 2025 - 17:08 • João Maldonado
Duas horas e meia de manhã, duas horas e meia à tarde. Sócrates falou muito alto e assumiu que tentou interceder pelo Grupo Lena na Venezuela, mas sempre sem cometer qualquer crime. O projeto do TGV foi novamente questionado pelo Ministério Público.
A sessão desta quarta-feira do julgamento da Operação Marquês retomou pelas 14h30 depois da habitual pausa de almoço e, desta feita, os assuntos em debate envolveram Venezuela, TGV e Grupo Lena. Logo a abrir, José Sócrates confirma que, depois de ter deixado de ser primeiro-ministro, tentou, de forma legal, contactar diretamente Maduro, presidente da Venezuela, para interceder a favor do Grupo Lena - “achei que era minha obrigação fazê-lo”. Mas a tentativa, garante, saiu frustrada, não tendo chegado a acontecer a conversa. “Nesses países todas as questões de assuntos financeiros estão dependentes do presidente, mas não cheguei a falar com ele”, admite em tribunal.
Numa sessão marcada por questões sobre aquele país - um dos assuntos do processo -, o antigo primeiro-ministro explica que não é “especialista” na Venezuela. Aliás, afirma que, na altura dos factos, há mais de 10 anos, “a única coisa que sabia é que a Venezuela era um país que se atrasava nos pagamentos”.
O interrogatório do Ministério Público prosseguiu com o pedido para que mais uma escuta seja ouvida por todos os presentes na sala de audiências. O réu não tarda a reagir. “Posso saber qual a relevância desta escuta?”, riposta novamente Sócrates, para desagrado do coletivo de juízes - “está na acusação”, explicam.
Jantar marcado com "um homem importante da Venezuela"
Na chamada intercetada há anos, o antigo primeiro-ministro mantém-se pelo tópico Venezuela (ainda que pelo meio partilhe que combinou um almoço com Lula da Silva, atual Presidente brasileiro “para irmos comer uma feijoada”). No telefonema, Sócrates anuncia que marcou um jantar em Paris com “um homem importante da Venezuela (…) um dos braços direitos de Maduro". Fala de Temir Porros, antigo governante venezuelano: “vou estar com o Temir em Paris, ele tem a pasta fundamental, tem os fundos (…) foi secretário de Estado do Maduro para a Europa”.
Tendo em conta que, na altura desta conversa, já não era chefe de Governo, Sócrates lança nova farpa ao Ministério Público, sentado mesmo à sua frente. “Parece que quem faz uma vida profissional agora tem de responder perante o Ministério Público como membro do Governo”, atira.
De exaltação em exaltação a sessão vai avançando, mas não sem críticas da juiz-presidente desta vez aos procuradores, apelando a uma reorganização das perguntas e do discurso: “o senhor doutor está a dar saltos no tempo”.
TGV. Troço "não foi abandonado, foi adiado"
Após mais esta chamada de atenção, voltou a debater-se outra das temáticas centrais deste processo: o TGV, linha de comboio de alta velocidade que juntaria Lisboa a Porto e Lisboa a Madrid.
Por esta altura, José Sócrates fala tão alto que a funcionária judicial sente necessidade de se levantar e de desviar ligeiramente o microfone utilizado pelo antigo primeiro-ministro.
“Ligar tudo ao mesmo tempo eu bem gostaria, mas tínhamos uma crise económica, por isso decidimos fazer Poceirão - Caia primeiro e depois Lisboa - Madrid (…) o troço não foi abandonado, foi adiado”, argumenta José Sócrates explicando-se politicamente perante a Justiça. Poceirão fica às portas de Lisboa, Caia junto à fronteira com Espanha.
O ex-primeiro-ministro, que fala pelo sexto dia consecutivo em sessões deste julgamento, nega o que a acusação pretende provar: diz que nunca quis que o projeto do TGV fosse chumbado pelo Tribunal de Contas para o Grupo Lena receber uma indemnização.
Sócrates garante que sempre teve uma visão estratégica para o país a nível de transportes e que o tempo lhe tem dado razão, referindo-se às críticas de despesismo que recebeu na altura em que governava como “conversa da treta”.
Os trabalhos no Campus de Justiça em Lisboa retomam amanhã, quinta-feira, pelas 10h00, esperando-se novas declarações de José Sócrates, o único primeiro-ministro a ser julgado pela justiça portuguesa.
- Noticiário das 10h
- 19 jul, 2026





