17 out, 2025 - 11:19 • João Cunha
O silêncio absoluto, ao final da madrugada, junto á Igreja dos Anjos, em Lisboa, só era interrompido pelos automóveis que por ali passavam perto, na Almirante Reis. E pelo sino da Igreja que, de hora a hora, lá marcava o passar da noite.
Na parte de cima do jardim em torno da igreja, agora em obras, uma fila de gente estende-se desde a porta da AIMA, na Rua Álvaro Coutinho, até á estação de metro dos Anjos, na Almirante Reis.
Na fila, pelo menos uma centena de pessoas dorme no chão, em cima de caixas de cartão abertas, embrulhadas em mantas. Há quem tenha trazido cadeiras de campismo para não dormir no chão. E outros que improvisam, com uma grade de cervejas virada ao contrário, um assento para melhor passar a noite, sentados e encostados à parede.
Na fila, entretanto organizada com uma lista manuscrita feita pelos primeiros da fila, está um jovem angolano. Estudante universitário no Porto, tem o visto de residência a caducar e não conseguindo marcação nos serviços da AIMA na invicta, decidiu vir a Lisboa.
"Eu estou aqui desde terça-feira da semana passada. Venho e volto do Porto, todos os dias", diz, esfregando os olhos ainda ensonados.
Todos os dias tem sido o mesmo.
"Não há senha, e se houver, só às dão até às 10 horas. Sem senha, pedem-nos para vir amanhã, e amanhã volta a não haver senha", lamenta.
Antes das oito da manhã, hora de abertura de portas, forma-se, parta além da fila principal, outras duas: uma dos prioritários, como mulheres com bebés, deficientes ou com agendamentos, e outra dos advogados. Nesta, Luana Oliveira é a primeira da fila, pouco depois das seis da manhã.
"Esse é o único lugar em Lisboa onde é possível obter informações, e mesmo assim, ás vezes são imprecisas. As senhas são limitadas e há limite na consulta: apenas três processos por advogado", explica esta advogada, que adianta ainda que, "se tiver dez processos, tem de sair de casa às cinco da manhã a semana inteira".
Oito horas: a porta da AIMA abre-se, saem dois agentes da PSP, dois elementos de uma empresa de segurança e uma funcionária da AIMA, ao mesmo tempo que quem está na fila se vê livre dos cartões no chão e puxas as baias metálicas para mais junto da parede do edifício, para impedir que na fila surjam mais cabeças do que o previsto na tal lista, manuscrita, elaborada a partir da meia-noite. Mas a folha de papel não impede que muitos imigrantes, acabados de chegar, queiram á força entrar á frente dos que passaram ali a noite.
As senhas são distribuídas, inicialmente, aos prioritários. Seguem-se os advogados - que hoje até entranharam terem sido entregues quarenta senhas, quando ontem foram apenas entregues dez. E depois, a vez dos que estavam na extensa fila, com mais de 250 pessoas, que esperavam ser atendidas.
Pouco tempo depois da abertura, sai Silvia Scliar, advogada, que chegou às seis da manhã. Veio tentar resolver o problema de "dois clientes que não conseguiam fazer a renovação do título de residência, que dava erro no site".
Veio para a simples "inclusão no sistema do número de identificação da Segurança Social", para que, aí sim, pudessem renovar o título de residência.
Menos sorte teve Luana Oliveira, que quis saber pormenores sobre os três processos que está autorizada a consultar, por dia, na AIMA.
"Dois estão em análise, há mais de dez meses, sem que nos expliquem porque continuam em análise. E outro, graças a Deus, pelo menos um, está nos CTT e o cliente vai poder levantar".
Hoje correu bem. Mas há dias em que chega e nem sequer consegue senha para aceder aos serviços.
"Confesso que muitas vezes a vontade é desistir", garante.
"É muito frustrante, porque apesar da legislação oferecer mecanismos de solução, a prática é completamente diferente. Muito diferente".