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Lisboa

Cabo não estava certificado para utilização no Elevador da Glória, diz relatório

20 out, 2025 - 18:31 • Ricardo Vieira, com Lusa

Relatório preliminar do GPIAAF também conclui que freio de emergência nunca foi testado e aponta falhas na manutenção. Presidente da Câmara de Lisboa fala em "causas técnicas e não políticas” e lamenta "politização" da tragédia.

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O cabo na origem do acidente no Elevador da Glória, operado pela Carris, "não estava certificado para utilização" naquele ascensor, diz o relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), divulgado esta segunda-feira.

"O certificado de inspeção fornecido pelo fabricante declara que o cabo não pode ser usado com um destorcedor, o que não é a situação no Ascensor da Glória", refere o documento consultado pela Renascença (Leia aqui em versão PDF).

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De acordo com o GPIAAF, "o cabo que teve o acidente era o segundo daquele tipo utilizado no Ascensor da Glória - um cabo de aço com alma de fibra sintética.

"O primeiro havia entrado ao serviço em 20-12-2022 e esteve em uso, sem incidentes registados, durante 601 dias. Cabos do mesmo tipo foram e estavam a ser utilizados também no Ascensor do Lavra desde 22-03-2023", sublinha o relatório preliminar.

Freio de emergência nunca foi testado

De acordo com a investigação do GPIAAF, os freios de emergência do Elevador da Glória nunca foram testados para um cenário idêntico ao verificado a 3 de setembro, de rotura do cabo.

"Foi constatado que, mesmo entre os técnicos mais antigos ainda ao serviço, não há atualmente memória na CCFL [Carris] de alguma vez ter sido testado o freio de emergência para a situação de falha no cabo", indica o relatório preliminar.

Foi declarado à investigação por diversos técnicos e trabalhadores da Carris ligados aos ascensores "que havia a perceção de que a segurança do sistema dependia inteiramente do cabo e que o sistema de freio não era eficaz para imobilizar as cabinas sem a ligação entre ambas".

Falhas na manutenção e supervisão

O relatório preliminar também detetou falhas no processo de manutenção do Elevador da Glória, falta de formação dos funcionários da empresa externa contratada e de supervisão dos trabalhos efetuados.

O GPIAAF diz que as inspeções previstas para o dia do acidente “estão registadas como executadas, embora detenha evidências de que não foram feitas no período horário indicado na correspondente folha de registo”.

“Embora as ações de manutenção contratualmente previstas e planeadas estivessem a ser registadas como cumpridas em sistema de registo próprio, ao qual a Carris tem acesso direto, foram recolhidas evidências de que tal registo não corresponde às tarefas que efetivamente foram executadas”, conclui o relatório preliminar.

“Há evidência de execução de tarefas críticas de forma não padronizada com parâmetros de execução e validação díspares”, acrescenta a investigação.

O GPIAAF conta que, no dia do acidente e no anterior, o cabo não foi observado no fosso, nem tal estava previsto nos procedimentos de manutenção, “embora o caderno de encargos seja contraditório em relação a este aspeto específico”.

“A lubrificação do cabo, prevista com periodicidade semanal, está registada como tendo sido realizada em 28 de agosto. A inspeção mensal ao cabo está registada como tendo sido realizada em 1 de setembro”, constataram os investigadores.

Sobre o local onde o cabo rompeu, dando origem ao acidente, GPIAAF refere que "não era passível de ser observado em qualquer destas inspeções (...), sendo apenas possível inspecionar através da imobilização das cabinas e desmontagem dos destorcedores, operação que implica a paragem do equipamento durante pelo menos dois dias".

Em relação aos trabalhadores da empresa externa, o relatório conclui que "agem essencialmente como colaboradores" da Carris, "sendo formados no trabalho e executando as intervenções sob as orientações diretas da fiscalização daquela empresa".

Outra questão que surgiu após o acidente está relacionado com a entidade que supervisiona a manutenção do Elevador da Glória.

“Por terem sido considerados instalações por cabo classificadas como instalações de interesse histórico, cultural ou patrimonial, que entraram em serviço antes de 1 de janeiro de 1986, ainda estarem em funcionamento e não terem sofrido alterações de conceção ou de construção significativas. Por este motivo mantiveram-se fora do âmbito da supervisão do IMT”, explica o GPIAAF .

A investigação apurou que “os aspetos de segurança da operação de ambos os ascensores encontravam-se à exclusiva responsabilidade” da Carris, enquanto entidade operadora, “sem estarem supervisionados por qualquer entidade independente, pública ou privada, e sem um enquadramento legal efetivo para a sua operação enquanto não fosse introduzida nenhuma alteração significativa na sua infraestrutura e subsistemas”.

O GPIAAF entende que o facto de o ascensor ter sido considerado excluído do âmbito de aplicação da legislação em causa, “em nada impedia que lhe fossem aplicadas as mesmas regras das demais instalações, com as devidas adaptações às suas especificidades”.

Ascensores devem continuar parados

A investigação ao acidente do elevador da Glória recomenda à Carris que não reative os ascensores de Lisboa “sem uma reavaliação por entidade especializada”, e ao Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) que implemente um quadro regulamentar apropriado.

No documento, GPIAAF recomenda à Carris “que não reative os ascensores sem uma reavaliação, por uma entidade especializada em funiculares, das fixações dos cabos e dos travões, em linha com o normativo europeu nesta matéria, respeitando a proteção histórica daqueles transportes, mas sem prejuízo da segurança”.

O Gabinete de investigação de acidentes também recomenda à Carris que proceda "a uma reavaliação e revisão do seu sistema de controlo interno, nomeadamente no que respeita aos processos de especificação, aquisição, receção e aplicação de componentes críticos para a segurança dos veículos”.

Moedas fala em "causas técnicas e não políticas”

O descarrilamento do Elevador da Glória, que liga o Bairro Alto aos Restauradores, aconteceu a 3 de setembro. Morreram 16 pessoas e 22 ficaram feridas.

Em resposta por escrito enviada à Renascença, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, afirma que, "ao contrário da politização que alguns fizeram durante a campanha, este relatório reafirma que a infeliz tragédia do elevador da Glória foi derivada de causas técnicas e não políticas”.

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