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"Dei o segundo tiro porque fiquei convicto que não tinha acertado", diz PSP acusado de matar Odair Moniz

22 out, 2025 - 09:40 • Liliana Monteiro , João Malheiro

Os membros da família de Odair Moniz pediram para falar em tribunal sem a presença do arguido.

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[Em atualização]

Arrancou esta quarta-feira, pelas 09h30, o julgamento do agente da PSP acusado de matar Odair Moniz, em outubro do ano passado.

O julgamento decorre no tribunal judicial da comarca Lisboa Oeste, em Sintra. O arguido está presente em sala, fardado.

A sessão começou com a defesa do Odair a pedir condenação do agente. De seguida, o polícia Bruno Pinto foi identificado como o arguido e, durante esse ato, emocionou-se, limpando as lágrimas.

A defesa da família de Odair Moniz pediu para falarem em tribunal sem a presença do arguido. O tribunal aceitou o pedido, considerando que as declarações podiam ficar prejudicadas pela presença do acusado.

A juíza leu a acusação que aponta o crime de homicídio ao agente. O acusado aceitou prestar declarações e, emocionado, pediu desculpas à família e amigos da vítima. "Acredito que não será fácil para ninguém", referiu com a voz bastante embargada.

As explicações do arguido

O agente explicou em tribunal o que aconteceu da sua perspetiva: "Protegi-me , afastei-me e efetuei o disparo", descreveu o primeiro disparo.

O coletivo quis saber se estas circunstâncias podiam ter alterado a trajetória do tiro e o arguido admitiu que sim: 'Não consegui dar tiro como na formação', considerou.

Bruno Pinto disse, ainda, que acreditava que seria esfaqueado, se não tivesse agido.

"Dei o segundo tiro porque fiquei convicto que não tinha acertado Odair no primeiro disparo", acrescentou, num depoimento muito emotivo, com muitas lágrimas a serem limpas.

Foi na sequência de uma contra ordenação rodoviária que o carro patrulha começou a seguir Odair. O arguido diz que, depois de infrações rodoviárias, o carro de Odair embateu e ficou imobilizado. Foi aí que começou a abordagem.

O agente referiu que, inicialmente, achou que a vítima precisaria apenas de ajuda médica, porque muito provavelmente não tinha cinto, mas não foi o que aconteceu. Odair Moniz saiu bem do carro, pedindo "calma" e a dizer que era "doente", apontando para uma ligadura na mão.

Ao mesmo tempo que dava passos pequenos e vendo o bastão policial, disse "arma não!", recorda Bruno Pinto.

O arguido descreveu que foi agredido pela vítima e a polícia interpretou os seus protestos como um pedido de ajuda aos populares que estavam na rua. O agente acusado disse que, na rua, estava um grupo conhecido das autoridades por ligações a criminalidade organizada ligada ao tráfico de droga.

Odair , diz o arguido, gritou por diversas vezes "vou matar-vos!". Perante a ameaça, Bruno Pinto diz ter disparado por duas vezes para tentar acalmar os ânimos e que o grupo de populares não dispersou.

"Percebo que se queria virar a mim. Sacou de uma lâmina considerável", referiu, recordando que o primeiro disparo foi para as partes baixas.

"Todos os dias tenho a imagem do primeiro e segundo disparo. Primeiro ele tinha olhos abertos, no segundo ele ficou com olhos fechados e caiu. Vi a pulsação e o respirar e estavam fracos", recordou.

A defesa da família de Odair questionou o arguido, perguntando se, antes da ação, tinha comunicado ao comando a entrada no bairro e se pediu reforços, ao que o agente respondeu que sim.

Já a defesa do polícia, advogado Ricardo Serrano, quis saber que formação de tiro teve, respondendo que tinha tido uma aula de disparo por semana, a determinada altura.

Quis saber, ainda, se, caso Odair Moniz tivesse parado o carro e colaborado, teria sido necessário bastão, gás pimenta e uso da arma? Bruno Pinto respondeu que não.

De seguida, o julgamento fez uma pausa para almoço, pelas 12h30.

O que aconteceu?

Odair Moniz morreu na Cova da Moura, vítima de dois tiros disparados pelo agente da PSP a 21 de outubro de 2024. Segundo a acusação, o cabo-verdiano de 43 anos residente no Bairro do Zambujal tentou fugir da PSP e resistir à detenção, mas não se verificou qualquer ameaça com recurso a arma branca, contrariando o comunicado oficial divulgado pela Direção Nacional da PSP, segundo o qual o homem teria "resistido à detenção" e tentado agredir os agentes "com recurso a arma branca".

Em relação aos tiros, o primeiro terá sido disparado a uma distância entre os 20 e os 50 centímetros e atingiu a zona do tórax. Nessa altura, Odair ainda "permaneceu em pé", mas o agente da PSP disparou uma segunda vez, já a uma distância entre os 75 centímetros e um metro, atingindo a zona da virilha.

Para o Ministério Público, o agente acusado de homicídio "sabia que a conduta de disparar, por duas vezes, a curta distância do corpo de Odair era apta a atingir o corpo deste". "Apesar de tal conhecimento, o arguido, com o propósito de afastar Odair Moniz de si e poder imobilizá-lo, quis atingir com dois projéteis o corpo deste", acrescentou a procuradora responsável pelo inquérito Patrícia Agostinho. .

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