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Reportagem no Bairro do Zambujal

"Justiça justa só do Pai do Céu"

22 out, 2025 - 11:19 • João Cunha

No dia de arranque do julgamento do polícia acusado da morte de Odaír Moniz, os moradores no Bairro do Zambujal - onde Odaír vivia - não acreditam que seja feita justiça e que haja uma condenação efetiva do alegado responsável pela morte do natural de Cabo Verde e imigrante em Portugal. Temem que a violência regresse ao Bairro.

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Ainda o sol não tinha nascido e já cheirava muito a comida, à porta do Centro Consolação e Vida, da Paroquia da Buraca, instalado no Bairro do Zambujal e ao cuidado dos Missionários da Consolata.

No interior, o hall de entrada está parcialmente ocupado, no chão, por dois grandes bicos de gás, em cima dos quais duas enormes panelas preparam uma gigantesca cachupa, que será servida esta tarde aos participantes de uma cerimónia sobre os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável.

Atenta a todas as movimentações, a Irmã Ivani Morais admite ter fé que os disparos da polícia contra Odair Moniz não tenham sido intencionais.

"É a missão deles, que podem ter disparado sem ser de propósito. Talvez tenha sido para assustar, ou para fazer parar... Talvez não tenha sido mesmo a intenção dele matar", acredita a Irmã Ivani, que diz ter "muita pena desse polícia".

Polícia que, acreditam alguns dos moradores no bairro, não terá condenação e prisão efetiva.

É o caso de António Manuel, para quem a polícia não esteve bem.

"Acho que a polícia agiu mal, fez coisas que não devia ter feito, pronto", adianta, sublinhando que acha estranho que tenha aparecido uma faca, depois de Odair ter sido morto.

"Alguém a lá pôs, a faca ou punhal ou o que era, não sei".

A sair do café, ali ao fundo da rua, não muito longe de um outro café, propriedade de Odair Moniz e que está encerrado desde a sua morte, António Gonçalves sai de mãos nos bolsos do casaco para se proteger da chuva miudinha. Diz que tem acompanhado o caso.

"As provas que lá estão foram montadas, só isso", sublinha, enquanto se afasta, a caminho do trabalho.

No interior do Centro Consolação e Vida, onde já se mexe com uma enorme colher de pau a tal cachupa, termina a eucaristia da manhã. Eugénia Vaz, cabo-verdiana há alguns anos no bairro, não sabe se haverá alguma condenação neste caso.

"Só Deus é que sabe. Não sei se o polícia pode ser condenado ou não. Porque também a polícia já foi muito abusada, e já foi morto um polícia cabo-verdiano", lembra, rematando:

"Justiça justa só do Pai do Céu".

O que esta e outros residentes no bairro esperam é que, não havendo condenação, o bairro não mergulhe de novo no caos como o que se viveu, há um ano, com o incêndio de caixotes do lixo e o apedrejamento de autocarros da Carris.

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