22 out, 2025 - 17:53 • Ana Kotowicz com Liliana Monteiro
Foi através do filho que a viúva de Odair Moniz soube que alguma tinha acontecido ao marido, contou a própria no Tribunal de Sintra, esta quarta-feira. “Eram seis da manhã quando o meu filho me disse: ‘Mãe, aconteceu alguma coisa ao pai na Buraca, vai lá ver.’”
A audição de Ana Patrícia Moniz marcou o início da sessão da tarde do julgamento da morte do cabo-verdiano. Durante a manhã foi ouvido o testemunho do agente da PSP que responde pelo crime de homicídio. Bruno Pinto foi convidado a abandonar a sala de audiências durante a tarde para a viúva testemunhar — o tribunal já tinha admitido um requerimento para a viúva, assistente do processo, só falar na ausência de arguido.
Segundo o relato de Ana Patrícia Moniz, seriam cerca das 6h00 da manhã quando o filho lançou o alerta. No entanto, não soube explicar como é que o filho teve acesso à informação. Conhecia “alguns amigos” na Buraca, disse.
Sobre a prolongada ausência do marido, disse que não era habitual — só "às vezes, ao fim de semana" — embora tenha sido isso que aconteceu naquela noite. “Estive com ele no domingo, eram 20h e tal. Eu estava a fazer o jantar e ele disse que ia e já voltava. Nunca mais voltou.”
Os membros da família de Odair Moniz pediram para (...)
Depois do alerta do filho, deslocou-se à zona do acidente. Ali, disse, não obteve qualquer informação dos agentes — "estavam a gozar com a minha cara, não me disseram nada" —, acabando, mais tarde, por saber que o marido tinha ido para o Hospital S. Francisco Xavier.
E por que motivo andava Odair Moniz com tanto dinheiro? Esta foi uma das perguntas do coletivo de juízes. A viúva esclareceu que esta era uma situação normal, que o dinheiro correspondia ao rendimento do café de que era proprietário, e que à segunda-feira, quando estavam de folga, usavam-no para fazer compras.
A viúva de Odair Moniz também não soube explicar por que motivo o marido se encontrava na Cova da Moura àquela hora.
De resto, garantiu que o marido não tinha problemas com o consumo de álcool e que não consumia estupefacientes. Por esse motivo, não encontra explicação para os testes toxicológicos realizados. Questionada se Odair tinha algum tipo de problema com as autoridades, respondeu que não.
Depois da morte do marido, Ana Patrícia diz que teve de recorrer a medicação para conseguir dormir. “Nunca tomei nada dessas coisas”, mas agora, “estou na psiquiatria até hoje, não durmo sempre à espera que chegue o meu marido."
Sobre Odair Moniz, lembra o marido como um "bom pai, bom marido, bom filho, bom irmão", recordando que "até o Presidente da República tirou uma fotografia com ele”.
Passado um ano da morte do marido, Ana Patrícia diz que ainda não consegue explicar a morte do pai ao filho mais novo, de 4 anos. "Estragaram a nossa vida. O meu filho mais velho passa os dias fechado num quarto. Era uma pessoa sorridente e agora não quer falar."
Reportagem no Bairro do Zambujal
No dia de arranque do julgamento do polícia acusad(...)
Odair Moniz morreu na Cova da Moura, vítima de dois tiros disparados pelo agente da PSP a 21 de outubro de 2024. Segundo a acusação, o cabo-verdiano de 43 anos residente no Bairro do Zambujal tentou fugir da PSP e resistir à detenção, mas não se verificou qualquer ameaça com recurso a arma branca, contrariando o comunicado oficial divulgado pela Direção Nacional da PSP, segundo o qual o homem teria "resistido à detenção" e tentado agredir os agentes "com recurso a arma branca".
Em relação aos tiros, o primeiro terá sido disparado a uma distância entre os 20 e os 50 centímetros e atingiu a zona do tórax. Nessa altura, Odair ainda "permaneceu em pé", mas o agente da PSP disparou uma segunda vez, já a uma distância entre os 75 centímetros e um metro, atingindo a zona da virilha.
Para o Ministério Público, o agente acusado de homicídio "sabia que a conduta de disparar, por duas vezes, a curta distância do corpo de Odair era apta a atingir o corpo deste". "Apesar de tal conhecimento, o arguido, com o propósito de afastar Odair Moniz de si e poder imobilizá-lo, quis atingir com dois projéteis o corpo deste", acrescentou a procuradora responsável pelo inquérito Patrícia Agostinho.