06 nov, 2025 - 23:05 • Marisa Gonçalves
Alfredo Cunha era um jovem fotojornalista quando conheceu Mário Soares pela primeira vez. Aconteceu a 28 de abril de 1974, três dias depois da Revolução dos Cravos.
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“Eu fui a primeira pessoa que ele encontrou quando chegou a Portugal, no dia 28, porque eu fui esperá-lo a Vilar Formoso, quando ele veio de Paris. Eu dirigi-me a um senhor no comboio e perguntei se conhecia um senhor chamado Mário Soares e ele disse: ‘Sim, sim, conheço. Sou eu’. E quando eu me despedi dele, ele diz-me: ‘Pá, você apareça!’ E eu fui aparecendo”, conta aos jornalistas, na inauguração da exposição fotográfica “Mário Soares - 100 Anos”, no espaço atmosfera m, em Lisboa.
A mostra reúne imagens captadas pelos fotógrafos Alfredo Cunha e Rui Ochôa. Os visitantes são convidados a percorrer a vida e o percurso político de Mário Soares nos primeiros anos que moldaram o Portugal democrático.
Um ano antes, em 1973, Mário Soares tinha ajudado a fundar o Partido Socialista (PS), na Alemanha. Na mesma ocasião, foi eleito secretário-geral do PS, cargo que desempenhou durante 13 anos, até ser eleito Presidente da República. Pelo meio, foi primeiro-ministro e, já em Belém, cumpriu dois mandatos, de 1986 a 1996, que passaram pela lente de Alfredo Cunha.
“Mário Soares era um poço de conhecimentos, era um homem extremamente culto. Aprendemos muito com ele nas viagens que fizemos, principalmente acerca da liberdade. Por acaso, lembro-me de ele ter dito uma vez: ‘Mas atenção que isto não está garantido. A liberdade tem que ser alimentada’. De facto, pareciam premonitórias as palavras dele”, afirma.
Alfredo Cunha acompanhou as presidenciais abertas que Soares promoveu, bem como as campanhas eleitorais.
Também o fotógrafo Rui Ochôa captou as primeiras décadas da democracia portuguesa e, tal como Alfredo Cunha, foi fotógrafo oficial do presidente Mário Soares. Dele recorda o estilo descontraído de quem não receava o poder das câmaras.
“Eu apanhei-o várias vezes em posições pouco ortodoxas, digamos. Ele não se importava nada com isso. Estava perante as câmaras completamente descontraído. Essa relação que ele tinha com as câmaras era quase como um namoro. Ele gostava muito de ser fotografado, daí era fácil para nós todos. Hoje em dia, os políticos já não têm tanto à vontade. Têm medo de ficar com o olho torcido ou com o dedo na boca, mas ele não se importava nada com isso. Dava imagens maravilhosas”, lembra.
É da autoria de Rui Ochôa a foto tirada na primeira volta da campanha para as presidenciais, em janeiro de 1986, quando Mário Soares foi agredido na Marinha Grande, então um bastião da indústria vidreira. É uma das fotos que integram a exposição.
Mário Soares viria a ser o primeiro Presidente civil após seis décadas de Presidentes militares. Foi eleito nas eleições presidenciais mais disputadas da história da democracia portuguesa e, na sede daquele que seria o Movimento de Apoio de Soares à Presidência (MASP), no Saldanha, Alfredo Cunha captou uma foto que viria a tornar-se icónica, em 1986.
“Há um retrato dele sem um sapato e eu disse-lhe: ‘Olhe, vou publicar isto no jornal Público’. E ele disse: ‘Nem penses!’. Claro que acabei por publicar e, no dia seguinte, fui pé ante pé, ele já estava com o jornal e a dizer: ‘Eu não disse que ia ficar bem?’. Pronto, era assim, não valia a pena. Acho que o Doutor Soares, a coisa que tinha é que não cultivava o rancor. Eu só agora é que tenho mesmo a dimensão do homem que ele era, que a gente teve”, declara.
A exposição fotográfica “Mário Soares - 100 Anos” tem como base o livro homónimo, da autoria de Alfredo Cunha, Rui Ochôa e Clara Ferreira Alves, jornalista e escritora, que compara a fundação da democracia portuguesa com a atualidade.
“As grandes figuras civis foram evidentemente Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral, que fundaram os três grandes partidos da época, e depois Álvaro Cunhal, no PCP, que foi uma figura importantíssima. Todos os combates aconteciam entre estes adversários, mas creio que a discussão tinha uma, não direi civilidade porque às vezes não era civil, mas não havia ódio. O mundo mudou. Certamente, se Soares fosse vivo, também ele se adaptaria a este mundo com grande destreza, grande elegância e grande inteligência, que foi uma coisa que ele sempre teve na vida”, refere.
A exposição fotográfica “Mário Soares - 100 Anos” está patente até dia 31 de dezembro.