10 nov, 2025 - 09:42 • Liliana Carona
No Mercado dos Produtores de Viseu, as vendedoras queixam-se da falta de compradores e das longas horas sem movimento. A inflação agravou a crise e muitas dizem não se recordar de um período tão difícil. O mercado está agora mais vazio.
No Mercado dos Produtores de Viseu, as bancas estão prontas, as flores alinhadas e o feijão verde à venda por 2,99 euros o quilo, mas falta o principal: compradores, observa a comerciante Palmira Bernardo, 63 anos. “O poder de compra está a diminuir, a vida está difícil, os jovens compram casa e não podem mais. Estou aqui há três anos e nunca vi um cenário assim. Está tudo muito caro, é o que me dizem, é normal estar às moscas”, salienta.
O mercado abre cedo, às 6 da manhã, e fecha as portas já com o cair da noite. Nem o horário alargado convence os poucos clientes. Maria Alice, 75 anos, e Clarinda Silva, 80 anos, passam, mas não abrem a carteira. “Viemos ver o preço das flores, mas estão tão caras… As flores estão ao preço da carne, nove euros o ramo”. Para Maria Alice, “não há dinheiro, está tudo às moscas”. E dá o seu exemplo: “Tenho uma reforma que nem chega a 300 euros. Agora, só para medicamentos, é um dinheiro. Corto na carne, no peixe. Para poupar é sopa à noite e mais nada”, afirma, na companhia de Clarinda Silva, que vive da pensão de sobrevivência. “Não chega a 300 euros. Tenho filhos bons que me ajudam”, conta.
Há 50 anos a trabalhar no Mercado de Viseu, Ermelinda Machado, 72 anos, está à frente de uma frutaria que já conheceu melhores dias. A culpa é dos hipermercados, acusa a proprietária da Frutaria que tem o seu nome ‘Ermelinda’. “Não me lembro de tempos assim. Está isto muito ruim. Há muitos supermercados e lá compram tudo. Mas só as bananas são mais baratas nos hipermercados, eu não puxo pelos preços”, garante, explicando o motivo de continuar a trabalhar no mercado: “vendo aqui porque tenho uma reforma de 250 euros. Nós, antigamente, pagávamos 250 euros para a Segurança Social e não ganhávamos para isso. Pedimos a reforma antecipada. Tenho um filho que me ajuda mensalmente”, relata.
Mesmo sem puxar pelos preços, o Mercado dos Produtores de Viseu tem demasiadas horas às moscas. Espera-se por mais movimento quando os míscaros brotarem da terra. Oriunda do Sátão, capital do míscaro, Ermelinda diz que ainda não há sinal dos cogumelos mais procurados da região. “Míscaros não há, mas já há pessoas à procura deles… Há quem pague 70 euros o quilo, se os houvesse”, sorri.