19 nov, 2025 - 22:40 • João Maldonado
“A doença de Alzheimer entra no chapéu das demências, mas não são sinónimos, é a causa mais comum, cerca de 70% dos casos de demência”, clarifica Ana Valverde. A diretora de Neurologia da CUF Descobertas foi a primeira a falar na parte da tarde, seguindo o tema “O papel do neurologista: dos primeiros sinais ao acompanhamento clínico”
Alertando para o facto de Portugal ser dos países com mais casos de demência por cem mil habitantes, apela a que todos estejam atentos aos primeiros sinais. “Não podemos prevenir uma doença tão complexa como o Alzheimer quando já esta diagnosticado”. Tem de ser antes, justifica, explicando que problemas cardiovasculares, tabaco, perda de audição ou traumatismos cranianos podem facilitar o desenvolvimento da doença – e, por isso, devem ser acompanhados desde cedo. Ainda assim, admite que os recursos “são limitados nos centros de neurologia e os doentes continuam a aumentar”.
Falando sobre a demência, em geral, Ana Valverde sublinha que “os números não enganam, vemos que a prevalência aumenta progressivamente com a idade”. O diagnóstico deve ser feito com extremo cuidado: afinal, há esquecimentos ou trocas de pensamento normais que não são necessariamente demência cientificamente classificada.
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“Ninguém tem vergonha de ter colesterol alto, mas todos temos vergonha de ter demência ou de ter alguém com demência na família”. Manuel Caldas de Almeida é diretor clínico do Hospital do Mar. Na mesa-redonda “Desafios no apoio à demência em Portugal: caminhos de inovação nos cuidados”, criticou a separação que diz existir entre as necessidades sociais e as necessidades de saúde em Portugal.
“Não há uma ligação efetiva entre os cuidados de saúde primários e hospitalares, não tem lógica que não haja um plano de cuidados que acompanha a pessoa - cada pessoa tem a sua doença que vai evoluindo”. E é por isso necessário repensar o acompanhamento que vai sendo dado.
A presidente da Associação Nacional de Cuidadores Informais participou numa outra mesa - “O cuidado centrado na pessoa: uma visão multidisciplinar”. Liliana Gonçalves pede atenção ao “Inverno demográfico que escala muito facilmente” e às “desigualdades no acesso das famílias a estruturas residenciais para pessoas idosas ou a serviços de apoio domiciliário”.
Tendo isto em conta, e havendo “pessoas empurradas para o papel de cuidador informal”, a Associação defende uma atualização das leis para que o subsídio de apoio atribuído a todos os cuidadores seja equivalente, pelo menos, ao salário mínimo nacional. “E as pessoas que são cuidadores e trabalham, se optarem por ter trabalho em tempo parcial, possa ser complementado o seu salário com a sua condição de cuidador”.
O Seminário "Caminhos para a Longevidade" decorreu esta quarta-feira, durante todo o dia, no Centro Pastoral de Torres Vedras. Foi organizado pela "Vida Maior", que pretendia uma discussão alargada acerca de uma "visão extremamente positiva daquilo que é envelhecer".
Vinda do Funchal, a Diretora Regional para as Políticas Públicas Integradas e Longevidade do Governo da Madeira, retrata como é vista na hora de compor os orçamentos regionais. “É sempre um tema muito moroso, porque eu represento o custo” – nunca uma receita. Num debate mais político para terminar o dia, a deputada do PSD Helga Correia, que faz parte da Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão, salientou a “intenção do Governo aprovar uma estratégia nacional para a longevidade”: algo que estará presente no Orçamento do Estado do próximo ano.
“Para envelhecermos com saúde temos de olhar desde o nascimento”. Apelando a contributos da sociedade civil na procura por novas soluções – “todos os contributos são fundamentais para que nós no Parlamento possamos melhorar esta resposta” – a deputada destaca também o trabalho que está a ser desenvolvido no futuro Estatuto da Pessoa Idosa. O documento já passou na generalidade, está agora na especialidade.
“A demência como prioridade nas políticas de saúde e proteção social” era o tema desta mesa-redonda. A fechar as intervenções de convidados, Susana Viana, diretora da Unidade de Intervenção Social do Instituto de Segurança Social, arrancou com um mote claro: “Se o envelhecimento é uma grande oportunidade, é também um grande desafio”.
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Susana Viana diz que é necessário robustecer a capacidade dos territórios, interligando cuidados formais e informais, assegurando o “não isolamento social como prevenção da demência”. “Um país com grande quantidade de pessoas idosas, muitas a viver sozinhas, este risco de isolamento social é um fator de risco para a demência, não temos dúvidas nenhumas disso, e, por isso, tudo aquilo que possamos fazer para o quebrar é prevenção”, sublinhou.
Propõe a aposta em planos individuais, sempre focados no cidadão e que contem com os próprios na hora de serem construídos, mantendo, se possível, as pessoas em casa: “Os cuidadores informais poupam uma série de dinheiro ao país”. “Por muito boas e humanas que sejam as resposta formais”, a diretora na Segurança Social quer uma aposta nas respostas que podem manter, em primeiro lugar, as pessoas com demência nas casas que conhecem e onde vivem.
A última palavra coube a Juvenal Baltazar, fundador da Vida Maior, empresa que, através da reabilitação física e da promoção de capacidades cognitivas, tem como objeto planos individuais de cuidados de saúde: "Penso que levamos para casa muitas coisas para refletir, individualmente e com as nossas equipas de trabalho, não bastam as políticas, é preciso que quem está no terreno desenvolva práticas; queremos envelhecer, vamos envelhecer, vamos ter uma vida mais longa, e, se Deus quiser, melhor; quem tem uma condição não está excluído da sociedade".