Conferência Médis e Renascença
"As pessoas só vão ao dentista quando têm dinheiro para o fazer, ou quando o problema é grave"
20 nov, 2025 - 12:16 • João Pedro Quesado
Miguel Stanley lamenta o uso limitado de novas tecnologias nas clínicas, comparando o uso do raio-x a "chamar um Uber e aparecer uma carroça com um burro".
O dentista Miguel Stanley apontou esta quinta-feira que as idas ao dentista não são consideradas obrigatórias, como são as consultas em médicos de família, e sublinhou o custo das novas tecnologias como uma limitação à aplicação destas nas clínicas de medicina dentária.
"O check-up médico é quase obrigatório, mas o check-up dentário é quando acontecer", disse o fundador e diretor clínico da White Clinic na conferência "O Poder do Terceiro Sorriso – A Saúde Oral e a Longevidade em Debate", da Renascença. "A pessoa só vai ao dentista quando tem dinheiro para o fazer, ou quando o problema é tão grave que já não consegue trabalhar e os analgésicos já não têm efeito".
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"Deverá a medicina dentária ser de baixa qualidade para famílias mais carenciadas? Porque é, vamos ser francos", afirmou Miguel Stanley, que falou da evolução da medicina dentária e da dificuldade de acesso dos portugueses aos novos tratamentos.
"Infelizmente vemos nos hospitais públicos e privados muita tecnologia acessível para a população, mas quando vamos às clínicas muitas vezes não vemos essa tecnologia", apontou, esclarecendo que "não é obrigatório tê-la" e que os "médicos dentistas são empresários", tendo de "pensar em criar um negócio aceitável para a comunidade onde eles vivem".
"Não vale a pena comprar um Ferrari se não há estradas para o conduzir", acrescentou Miguel Stanley, sublinhando que "Portugal ainda é um país muito pobre nesse sentido".
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O médico dentista sublinhou o "enorme impacto na sociedade" da saúde oral, lamentando o "Tratado de Tordesilhas" entre médicos e médicos dentistas. "Os dentes estão ligados ao esqueleto e à medula óssea", lembrou, apontando que "há mais de 800 milhões de pessoas no mundo que sofrem de cancro, doenças autoimunes, e doenças cardíacas, e 50% deles têm uma doença relacionada com saúde oral".
"A evolução melhorou tecnologias, materiais, software e protocolos, e isto na realidade global é verdade, mas será que a medicina dentária nacional nas clínicas dentárias de facto mudou", questionou Miguel Stanley, apontando que "daqui a cinco anos vamos ter robots que sabem mais do que o melhor médico dentista".
"Eu hoje em dia confio mais num médico dentista recém-licenciado a usar tecnologias e guias cirúrgicas impressas em 3D do que eu sem uma, eu confio mais nessa pessoa do que nas minhas próprias capacidades, porque a tecnologia está a acelerar", confessou o médico dentista, lamentando o uso reduzido de tecnologias como a tomografia computorizada em clínicas: "Apenas 40% das clínicas nos Estados Unidos, o país mais rico, têm uma TAC, porque são muito caras".
"A maior parte das clínicas usa apenas o raio-x de película, que não muda há quase 70 anos, com mais radiação, para analisar apenas aquilo que trouxe o cliente à consulta", sublinhou Miguel Stanley, comparando "utilizar raio-x de filme para analisar um problema de saúde oral" a "chamar um Uber e aparecer uma carroça com um burro".
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