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Prisões

"Saudade" e nova decoração nas celas das mães encarceradas na Prisão de Tires

28 nov, 2025 - 21:51 • João Maldonado

"Estavam ferrugentas, cinzentas, eram tristes". O projeto foi muito além de pintar portas e escrever palavras-chave: uniu as reclusas num trabalho de dois meses. As celas das mães encarceradas no Estabelecimento Prisional de Tires têm novas cores. A Renascença esteve na visita à cadeia.

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"Resistência", "paraíso", "sonho", "abraço", "alegria", "tempo", "silêncio", "utopia", "coração". São palavras que podem ser lidas no contorno das portas. Portas de 20 celas que separam as reclusas da liberdade nesta ala, agora transformada, da Casa das Mães.

Beatriz escolheu a palavra "saudade". Está no Estabelecimento Prisional de Tires há um ano e seis meses. Lá vive com as duas filhas: gémeas de 11 meses. "Porque eu perdi o meu filho, por isso a saudade, por isso as nuvens, por isso o céu que ali foi feito para ele mesmo", conta à Renascença.

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A regra é que alcançados os três anos de idade uma solução no exterior da cadeia seja arranjada para as crianças ali não crescerem mais tempo. No limite dos limites, podem ir até aos cinco anos. Até esse momento da separação chegar, vivem numa cela - mães e filhos - com casa-de-banho privada, televisão e telefone que permite chamadas para números pré-selecionados.

O projeto parece ter sido mais do que apenas artístico. Durante dois meses as reclusas dedicaram-se de corpo e alma para apresentarem o resultado final neste dia de Novembro. Para Beatriz: "Foi importante, porque o objetivo não era só pintar portas, mas unir as reclusas".

Começou por palavras, evoluiu para pintura e costura (de almofadas às cores) a iniciativa. A artista Fernanda Fragateiro foi a escolhida para acompanhar o projeto. Começou por escolher com as reclusas palavras isoladas. Partindo desse grupo, com o apoio de uma amiga, Luiza Teixeira de Freitas, foram selecionados textos poéticos relacionados. E desses textos foram eleitas as palavras finais inscritas nas celas de cada uma - e também espalhadas, a tinta, pelas paredes do parlatório, do refeitório e dos corredores.

A ideia base era esta. As palavras. Mas, fruto do entusiasmo das reclusas, as celas e o seu interior foram também decoradas - pelas mãos e labor das próprias. "Era preciso pintar as portas das celas, porque as portas das celas eram para cada uma delas um elemento muito agressivo, que as encerra, estavam ferrugentas, cinzentas, eram feias, tristes, portanto pintar cada uma das portas tornou-se uma missão", conta Fragateiro.

Neste raro abrir a jornalistas de uma prisão, esteve também Rita Júdice, ministra da Justiça. Gostou muito do que viu, emocionou-se no discurso que fez, mas, em declarações aos repórteres, não se comprometeu com réplicas: "O Governo não vai nem pode nem tem a capacidade de fazer tudo, nós queremos contar com a sociedade civil e queremos contar com o empenho da sociedade civil no desenvolvimento de projetos como este".

O apelo é, portanto, ao mecenato em iniciativas como esta, num sistema penal português que classifica como "humanista" e que deve "preparar as pessoas para a sua reintegração na sociedade". O Governo deve, assim, garantir que tudo continua a funcionar. Mas não assegura, desta feita, demandas como esta de arte em ambiente prisional. Neste caso o apoio financeiro chegou do grupo de construção DST.

Mais geral, o projeto "As portas que a poesia abriu" vêm do Vaticano. É promovido pelo Dicastério para a Cultura e a Educação liderado por D. José Tolentino de Mendonça.

Acompanhado pelo patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, e pelo presidente da Fundação Jornada, D. Alexandre Palma, o cardeal português sublinhou a importância do trabalho prisional: "a responsabilidade uns pelos outros não está condicionada por aquilo que são as circunstâncias de cada momento, hoje estas pessoas estão detidas num determinado contexto, mas toda a sociedade se deve interessar e, de certa forma, devemos todos colaborar uns com os outros de forma coral para que a esperança não abandone ninguém".

Além de Tires, a iniciativa teve também eco no Estabelecimento Prisional de Leiria, onde Ilídio Candja Candja trabalhou com jovens reclusos a criação de um mural - também esta sexta-feira apresentado.

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