António Costa admite que Donald Trump foi o “maior desafio” de um ano “exigente” à frente do Conselho Europeu
30 nov, 2025 - 21:01 • Olímpia Mairos
Com um mandato que termina em julho de 2027, António Costa não esconde o objetivo de deixar a sua marca como mediador e estabilizador num momento de grandes desafios para a Europa — e, quem sabe, garantir uma renovação do cargo por mais dois anos e meio.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, reconhece que o seu primeiro ano no cargo foi mais “exigente” do que antecipava quando tomou posse — e aponta um nome como principal razão: Donald Trump.
Em entrevista ao Expresso e à SIC, Costa explica que o regresso do republicano à Casa Branca trouxe “um braço de ferro comercial” com a Europa, obrigando os líderes europeus a reagirem rapidamente para preservar a estabilidade nas relações transatlânticas.
“Uma das primeiras prioridades foi estabilizar as relações transatlânticas”, afirmou o antigo primeiro-ministro português, sublinhando que, embora o objetivo tenha sido alcançado, “a realidade é distinta daquela que era”.
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A UE acabou por ceder em alguns pontos: reforçou o investimento em Defesa até 5% do PIB e aceitou tarifas mais elevadas para evitar uma “guerra comercial sem fim” com os Estados Unidos. “Nunca poderá ser uma relação entre iguais”, admitiu Costa, justificando que a União Europeia “não é um Estado federal como os EUA, mas uma união na diversidade”.
Durante este primeiro ano, António Costa participou em 11 cimeiras internacionais, 313 reuniões com líderes e responsáveis estrangeiros e 53 viagens dentro e fora da Europa.
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Fontes diplomáticas ouvidas pelo Expresso destacam o estilo “mais discreto e conciliador” do antigo chefe de Governo português, em contraste com o seu antecessor, Charles Michel, e sublinham a “boa relação” com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia.
Costa garantiu que a relação entre ambos é “impecável”, mesmo quando Von der Leyen assume um papel mais visível em questões de política externa.
Próximos testes: Ucrânia e o novo orçamento europeu
Os próximos meses prometem ser decisivos. O primeiro grande teste será o Conselho Europeu de 18 e 19 de dezembro, onde António Costa tentará alcançar um acordo sobre o financiamento à Ucrânia. O segundo desafio, considerado “o mais difícil”, será a negociação do próximo Quadro Financeiro Plurianual (2028-2034), avaliado em dois biliões de euros.
Costa reconhece que será “um processo exigente”, mas ambiciona um acordo até ao final de 2026 para garantir que os fundos estejam disponíveis a 1 de janeiro de 2028.
“Não é possível, simultaneamente, aumentar as prioridades e a despesa sem aumentar as receitas, porque esse mundo não existe”, frisou.
Migrações e habitação entram na agenda europeia
O líder europeu destacou também uma “perceção errada” sobre as migrações, afirmando que as entradas ilegais na UE diminuíram 31% no primeiro trimestre do ano.
Neste primeiro ano de mandado, o antigo primeiro-ministro português introduziu também e pela primeira vez o tema da habitação na agenda do Conselho Europeu, alertando para o aumento de 147% nos preços das casas em Portugal na última década.
“Estamos, de facto, numa luta contra o tempo”, afirmou, defendendo que a UE pode ajudar “a reduzir burocracia e custos” na área da habitação.
Com um mandato que termina em julho de 2027, António Costa não esconde o objetivo de deixar a sua marca como mediador e estabilizador num momento de grandes desafios para a Europa — e, quem sabe, garantir uma renovação do cargo por mais dois anos e meio.
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