05 dez, 2025 - 14:39 • Cristina Nascimento
A Polícia Judiciária está preocupada com a falta de monitorização, por exemplo, a “influencers” e youtubers que difundem nos seus canais “ideias, ideologias que podem não ser consensuais e podem ser algo nocivos para as nossas crianças e jovens”.
A ideia foi expressa esta sexta-feira na conferência “Identidade e Confiança Online”, promovida pelos MiudosSegurosNa.Net e Agarrados à Net, com o apoio do Centro de Estudos Judiciários.
Em entrevista à Renascença, uma das oradoras, a inspetora-chefe da Polícia Judiciária Carla Costa, considerou que Portugal tem “alguns instrumentos legislativos”, mas na prática há algumas lacunas.
“Lembro-me, por exemplo, da questão de alguns influencers ou youtubers que têm nos seus canais difundido algumas ideias, ideologias, etc, que podem não ser consensuais e podem ser algo nocivos para as nossas crianças e jovens, e não sei quem é que faz a monitorização desse tipo de conteúdos e como é que se equilibra a liberdade de expressão com o facto de serem conteúdos nocivos e ser necessário removê-los das plataformas”, argumenta.
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Carla Costa relata que algumas destas pessoas com presença na net lançam “desafios que não são adequados e que são completamente atípicos e desaconselháveis à prática de qualquer pessoa, ainda mais as nossas crianças que são vulneráveis a este tipo de situações e que podem embarcar em conteúdos dos quais depois podem resultar, quer ofensas à integridade física, quer propriamente até à morte”.
Nestas declarações à margem da conferência, Carla Costa refere que o que verificam no terreno é que “há efetivamente crianças que passam muito tempo online” e que o fator tempo é “um dos indicadores de risco”.
Questionada sobre o que é que é considerado “muito tempo”, Carla Costa refere que, tendo por referência as 24 horas de um dia, chegam à conclusão “que as crianças passam, por exemplo, um quarto do dia online”, seja “em dias de escola, em dias de férias, em fins de semana”.
“Os pais pensam que elas estão a dormir no quarto e não estão, às vezes estão a trocar mensagens e outro tipo de conteúdos durante a madrugada, e isso reflete-se também depois no aproveitamento escolar e em todo o dia-a-dia da criança e do jovem”, acrescenta a inspetora.
Carla Costa considera que, apesar dos recorrentes alertas sobre a necessidade de acompanhamento da vida online, “falta muita literacia digital, quer às crianças, quer aos pais”. A inspetora da Judiciária questiona, por exemplo, se as necessidades de contacto com as crianças não serão colmatadas por um “telefone de teclas”, em vez de um smartphone que são uma “porta escancarada para um mundo completamente novo e desconhecido”.
“Quando entrega um equipamento destes a uma criança tem de se estabelecer regras. Por exemplo, os pais têm que saber o 'pin' do telemóvel, as crianças não podem levar o equipamento para o quarto - ainda há despertadores dos antigos que funcionam”, exemplifica.
A inspetora garante que não é “apologista de uma total proibição em casa”, mas que deve ser feita “essa negociação com as crianças e jovens” e que os pais devem “estar próximos, sem julgamento, sem juízo de valor, para se algo correr mal, eles saberem que podem recorrer ao pai ou à mãe para contar o que é que lhes está a acontecer”.
Já sobre a proibição dos telemóveis nas escolas, a título pessoal, a inspetora da Judiciária defende que devia ser alargada “pelo menos até ao 9º ano de escolaridade”.
“As experiências que têm sido aplicadas e do feedback que me têm dado da aplicação desta medida nas escolas, passou a haver outra vez ruído nos recreios. Antes, às vezes estavam a falar uns com os outros, mas cada um com o seu equipamento móvel. Agora são eles próprios que pedem mesas de ping-pong, mesas de bilhar, cartas, jogos de tabuleiro para poderem ocupar os intervalos”, relata.
Carla Costa considera este um ambiente “muito saudável, nomeadamente na criação de empatia e perceber o efeito que o seu comportamento tem no outro, que é uma coisa que os ecrãs não permitem”.