11 dez, 2025 - 14:45 • Liliana Monteiro
Dez da manhã e o Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa, um dos mais movimentados da capital, tinha as lojas todas de portas abertas. Lá dentro poucos clientes vagueavam nos corredores.
Maria e os pais, já com alguma idade, foram até a uma conhecida loja de joias para comprar uma prenda: “Já estava destinado virmos hoje, de facto está tudo mais tranquilo que num dia normal. Menos gente aqui e menos trânsito lá fora.”
Cristina e a colega estão sentadas numa loja que vende velas e perfumadores. Perguntamos se apareceram todos os funcionários e como está o negócio.
“Na loja temos, esta manhã, menos movimento. Os funcionários compareceram todos. Mas numa quinta-feira e perto do Natal costuma estar muito mais gente. Até o café aqui ao lado, quem tem sempre fila, agora não tem quase ninguém”, conta à Renascença.
Perto das escadas rolantes, Rita, cheia de sacos coloridos, e com laços a indicar que se tratam de prendas de Natal, parou para arrumar uma coisa na carteira e é nessa altura que conversamos com ela. “Está tudo aberto o que é ótimo, normalmente está mais cheio que hoje e estou a aproveitar. Vim fazer as compras de Natal, aproveitei que está menos gente. Até consegui apanhar o comboio que estava previsto nos serviços mínimos.
Cenário bem diferente a uns metros ao lado, no Campus de Justiça.
Nos Registo e Notariado, as portas não abriram sequer, e nem um funcionário compareceu no turno da manhã. O mesmo aconteceu no departamento de Identificação Civil.
Na rua, pela manhã de quinta-feira, nem uma dezena de pessoas se encontrava à porta destes serviços. Algumas sabiam que hoje era dia de greve, outras nem por isso, como foi o caso de Cláudia que levou a filha menor consigo.
“Tinha marcação para registo do cartão do cidadão da minha filha as 8h45, depois vimos que isto afinal só abria as 9h00 e quando abriram disseram que não têm funcionários. É que na véspera confirmaram a marcação! É desrespeitoso! Agora não deram alternativa. Estivemos três meses à espera de marcação e o cartão dela já caducou”, queixou-se à Renascença.
Filipa seguia a passo apressado e, deitando a mão à porta, percebeu que não abria. Dizemos-lhe que o serviço está fechado e, entretanto, um segurança diz-lhe que quinta e sexta-feira o serviços não deverá funcionar, primeiro por causa da greve geral e depois por causa da greve na função pública.
“Tenho urgência na marcação de uma escritura, trabalho numa imobiliária. Temos estado a enviar mails e temos feito a tentativa por telefone e não temos tido nenhuma resposta, vim cá pessoalmente a ver se consigo marcar escritura ainda este ano. Tem sido muito difícil. Tinha esperança que pessoalmente houvesse uma vaga. Está tudo vazio, amanhã é a mesma coisa e agora só segunda-feira!”, relata.
Mais tarde, em passo muito lento e com apoio de uma muleta, chega Isaura e o filho André. “Vínhamos levantar uma certidão porque o carro foi penhorado e agora isto está fechado? Eu não ando quase nada. Sabia que havia greve, mas não sabia que havia também aqui. Preciso do carro para ir para o médico e para me deslocar e agora só segunda feira, isto fica bastante difícil assim!”
Ao lado, os serviços do Ministério Público, do DIAP — Departamento de Investigação e Ação Penal — estão a meio gás, aliás funcionava dentro da normalidade.
Nos tribunais, a manhã foi de um entra e sai, advogados e arguidos chegavam à porta da sala para perceber que a audiência tinha sido adiada por causa da greve, e, entre esses julgamentos, está o do caso BES.
Em comunicado, o Sindicato dos Funcionários Judiciais adianta que o cenário é idêntico nos tribunais de família e menores, trabalho e comércio, uma paralisação que ronda os 90%.