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Governo vs. sindicatos

"Três milhões" ou "parte minoritária"? A única certeza da greve geral continua a ser a guerra de números

11 dez, 2025 - 20:46 • João Pedro Quesado

Apesar de não dar números gerais, o Governo desvalorizou a dimensão do protesto contra a reforma laboral, dizendo que “parece mais uma greve da função pública”. Patrões apontam para adesão "entre os 2% e os 3%" na maior parte das empresas.

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Quão geral é a greve geral desta quinta-feira? A primeira paralisação conjunta da CGTP e UGT em 12 anos trouxe de volta a eterna guerra de números entre centrais sindicais, Governo e patrões — uns com incentivos para reforçar os impactos da greve, outros para a desvalorizar.

A manhã começou com relatos de grande adesão nos principais hospitais portugueses, além do já esperado impacto na circulação de comboios e descolagem de aviões.

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“A greve poderá andar acima dos 80%”, disse Mário Mourão, secretário-geral da UGT, lançando o primeiro número do dia. Num universo de quase 5,3 milhões de trabalhadores (o número mais recente, divulgado pelo INE, de população empregada em Portugal), isso significaria mais de 4,2 milhões de pessoas em greve.

“A esmagadora maioria dos trabalhadores está a trabalhar”, contrapôs o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, afirmando que “parece mais uma greve da função pública”.

2025 “vs” 2013. Um comparador de greves gerais em imagens
2025 “vs” 2013. Um comparador de greves gerais em imagens

“Alguns setores têm um impacto grande, como o dos transportes e os assistentes nas escolas, mas repito: o nível de adesão, no conjunto do país, é inexpressivo”, garantiu António Leitão Amaro ao final da manhã, antes de Luís Montenegro descrever como “parte minoritária” os grevistas. “No setor privado e no setor social, os níveis reportados de adesão situam-se entre 0% e 10%”.

Ao criticar o Governo como “alheado da realidade”, a CGTP avançou outro número. “Acima dos três milhões de trabalhadores”, estimou o secretário-geral, Tiago Oliveira — um valor que representa à volta de 57% da população empregada em Portugal.

Nas ruas, os serviços encerrados contrastavam com comércio aberto. Os repórteres da Renascença encontraram trabalhadores que disseram não ter capacidade para participar no protesto, desconhecer as reivindicações, ou mesmo discordar da greve.

“Não temos poder económico para aderir”, disse à Renascença Helena Fernandes, trabalhadora num quiosque de venda de bilhetes de autocarros turísticos no Porto. “Se formos abdicar de um dia de ordenado, ainda é pior”.

“Não aderi porque, simplesmente, não sei o que é que estão a reivindicar”, afirmou Marcelo Nobre, trabalhador de uma padaria em Chaves. “Se não trabalhar, estou feito ao bife”.

“Nunca fui habituada a estas coisas, fazer greve e assim, não concordo”, explicou, também em Chaves, uma trabalhadora de um café. Já em Braga, um camionista considerava que “esta greve não vai dar em nada”, motivo pelo qual trabalhou esta quinta-feira.

Três milhões, o número dos sindicatos

Já de tarde, a UGT juntou-se aos números da paralisação estimados pela CGTP: três milhões de trabalhadores em greve.

“O Governo, ao negar de forma tão desfasada da realidade, só demonstra a incapacidade para ouvir os que de si discordam”, atirou Mário Mourão, secretário-geral, sublinhando que “o balanço que fazemos desta greve não pode estar mais distante do que o Governo apresentou, manipulando dados de que fez leituras abusivas”.

Leitão Amaro defendeu os números apresentados ao final da manhã. “Temos reportes imensos de serviços alegadamente dados como fechados e os serviços nem estão fechados nem a adesão existe, ou tem nada a ver com a expressão que foi dada”, alegou o ministro da Presidência, apontando que “é normal quando as pessoas que reportam a informação não têm (...) acesso à informação de todo o setor publico empresarial”.

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“Temos serviços que dependem de nós, em relação aos quais temos uma relação de hierarquia, de poder de direção ou de superintendência ou tutela”, explicou, acrescentando que no caso do setor privado, “por contacto direto com os maiores empregadores, com os gestores dos grandes sistemas de serviço à população”, o Governo consegue apurar a paralisação.

O Governo não avançou, contudo, nenhum número de trabalhadores que tenha feito greve, contribuindo para o ruído com a estimativa de "entre 0% e 10%" no setor privado e social.

Em linha com o executivo, a presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) disse à Renascença que a greve geral teve impactos diferentes. No setor público teve uma adesão “expressiva”, mas no setor privado não teve impacto significativo.

“Na área mais pública - área dos transportes, escolas, hospitais públicos -, efetivamente houve uma adesão que nos parece bastante expressiva. Isso não sucedeu nas empresas”, declarou o patrão dos patrões.

Como o país viveu a greve geral. "O que o Governo está a fazer é um atentado ao direito laboral"
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A CIP , que montou um gabinete de crise para acompanhar a greve geral, argumenta que “a falta de pessoas ao trabalho oscila na maior parte das empresas entre os 2% e os 3%, atingindo os 5% em casos pontuais”. Armindo Monteiro explicou que “a maioria das poucas faltas registadas pelas empresas contactadas devem-se mais a dificuldades causadas pelos transportes públicos, ou pelo encerramento da escola dos filhos, do que por trabalhadores que tenham aderido à greve”.

A Confederação Empresarial de Portugal garantiu também que, no setor do calçado, “o impacto da greve geral é muito marginal, inferior a 1%”, com a exceção de “duas empresas de capital estrangeiro com “taxas de adesão entre os 40% e os 50%”.

Já a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal diz ter apurado que “98% das empresas tiveram zero adesões à greve”.

“Não significa isso que não estejam solidários com a greve”, afirmou Mário Mourão, sobre a possível baixa adesão à greve no setor privado, argumentando ainda com os baixos salários e contratos precários. “Um dia de salário tem um peso considerável no rendimento familiar mensal e, por isso, também a questão dos baixos salários são um motivo para que muitos trabalhadores não tenham aderido”.

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