Ambiente
Resistência de jovens portugueses às alterações climáticas identificada em 2023
18 dez, 2025 - 22:56 • José Pedro Frazão
Um maior afastamento dos jovens em relação à ação climática e à própria Natureza foi detetado em Portugal, em 2023, num estudo internacional encomendado pela fundação alemã Friedrich-Ebert (FES). O trabalho de campo foi realizado quando Portugal vivia o último ano da maioria absoluta do PS de António Costa, terminando em julho, o mês mais quente de sempre no planeta, desde que há registos.
A tradicional proximidade dos jovens em relação às alterações climáticas mostrou brechas em Portugal na primeira metade da década. Um inquérito levado a cabo pelo Instituto SINUS, em 19 países, revelou indícios de resistência à ação climática por jovens na amostra representativa dos portugueses.
No momento do trabalho de campo, em 2023, os autores detetaram uma percentagem de 10% de jovens portugueses entre os 18 e 29 anos” reticentes perante as medidas ambientais e a própria transição energética e até contrários a estas”.
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De acordo com o relatório português, assinado por Luísa Schmidt, Ana Horta e João Guerra, os grupos etários mais novos tendiam ainda “maioritariamente” a posicionar-se a favor da “ação ambiental e climática”, mas esta percentagem de jovens reticentes – sobretudo homens e de escolaridade mais baixa - “contradiz dados de inquéritos anteriores e merece aprofundamento”.
O contacto com a Natureza que é reconhecido por 93,5% dos inquiridos portugueses. Sete em cada 10 pessoas auscultadas diziam sentir-se “responsável por deixar às gerações futuras um ambiente em que valha a pena viver”. No entanto, como esta atitude prevalecia entre os mais velhos, os autores “colocam uma interrogação sobre um potencial afastamento da natureza dos mais novos”.
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Os inquiridos entre os 18 e os 29 anos “apresentaram níveis mais baixos de concordância total (39,8%) e uma percentagem mais elevada de “discordância” (12,1%) em comparação com os outros grupos etários”.
Os sociólogos Luísa Schmidt, Ana Horta e João Guerra sublinham que estes dados poderão indiciar que “os estilos de vida e os processos de socialização destas gerações não estarão a contemplar suficientemente a experiência de contacto com o mundo natural”. Em Portugal, foram recolhidas respostas de 1.200 pessoas inquiridas entre abril e julho de 2023 com idades compreendidas entre os 18 e 69 anos.
Embora o relatório a que a Renascença teve acesso não apresente gráficos discriminados por faixa etária, os autores – pertencentes ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa - asseguram que os resultados mostram que “os grupos etários mais jovens, não descartando as questões da saúde (47% entre os jovens até aos 29 anos), davam prioridade à educação e às questões ambientais”.
Mais à frente, o relatório atesta um “forte consenso” (92,7%) sobre a gravidade das consequências das Alterações Climáticas entre a população portuguesa, com o maior receio (18,5%) sobre o seu impacto a ser expresso por jovens entre os 18 e os 29 anos.
Mais clareza a explicar, respostas mais coletivas
Os principais riscos climáticos identificados em 2023 pela maioria dos inquiridos eram a escassez hídrica, os incêndios florestais, as ondas de calor e frio, a degradação dos oceanos e a subida do nível do mar.
Apesar do reconhecimento da relevância das alterações climáticas, os inquiridos de 2023 mostravam maioritariamente (56,3%) que as medidas políticas necessárias para uma economia mais sustentável não eram “suficientemente explicadas e esclarecidas”.
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Os autores sustentam que a elevada percentagem de insatisfeitos “indicam uma lacuna significativa na forma pouco eficaz como as políticas são apresentadas ao público, o que aponta para a necessidade de evidenciar e fazer acontecer para que as pessoas melhor entendam as medidas e políticas públicas neste âmbito e adiram a estas”. No quadro seguinte, a iliteracia ambiental atingia 42,2% dos inquiridos – dados de 2023.
Nove em cada 10 inquiridos diziam-se “disponíveis para fazer mais pela proteção do ambiente e do clima, desde que os custos sejam distribuídos de forma socialmente justa”. No entanto, quase metade dos inquiridos mostrava “ceticismo quanto ao contributo que a sua ação individual pode dar para a proteção do ambiente”. Uma expressiva maioria (84%) confessava que poderia aderir a novas práticas e mudar comportamentos “caso se tratasse de uma mudança/ação de cariz coletivo”.
Acima dos cidadãos, os inquiridos depositavam esperanças no trabalho ambiental dos governos, da União Europeia e dos cidadãos, pedindo sobretudo legislação mais eficaz e regras ambientais aplicadas com rigor. Nas prioridades na proteção ambiental, os inquiridos sugeriam os transportes públicos, o desenvolvimento tecno-ecológico, o ensino e educação e a regulação e controlo.
Ambiente atrás da saúde, habitação e custo de vida
Poucos anos depois da pandemia, em 2023, seis em cada 10 portugueses consideravam que a valorização dos cuidados de saúde deveria suscitar mais empenho político por parte dos responsáveis políticos. Os sinais da preocupação com o que se estabeleceu como “crise da habitação” eram já evidentes. A habitação a preços acessíveis surgia em segundo lugar nas preocupações de quase metade dos inquiridos (49,6%), seguida das questões ligadas à economia e bem-estar financeiro.
Um total de 46,7% dos inquiridos considerava que os responsáveis políticos deviam dar atenção prioritária às oportunidades de emprego e salários justos. 45,8% da amostra portuguesa remetia a atenção do poder político para a inflação e diminuição do poder de compra. Ainda acima dos 40%, os inquiridos sinalizavam a necessidade de atenção dos responsáveis políticos para a educação (42,5%) e luta contra a pobreza e as desigualdades (41,0%).
A proteção do ambiente e do clima vinha apenas em sétimo lugar (33,4%) na lista de prioridades que os políticos devem tomar como sua. De acordo com os coordenadores do estudo, com base nos resultados de 2023, estas conclusões testemunham “uma valorização de premências sociais muito concretas que afligem o quotidiano dos cidadãos, relegando para segundo lugar as questões ambientais aparentemente mais longínquas, ainda que igualmente preocupantes”.
Os autores revelam que em 2023 as mulheres estavam mais preocupadas com temas como a saúde, a educação e a desigualdade. As questões ambientais eram ligeiramente mais valorizadas pelos homens, sustenta este relatório.
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