07 jan, 2026 - 07:31 • Jaime Dantas com Lusa
Um homem morreu na terça-feira no Seixal depois de quase três horas à espera de socorro do INEM, confirma esta quarta-feira à Renascença o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH), que admite influência do novo sistema de triagem no desfecho.
Contactada pela Renascença, a Ordem dos Enfermeiros rejeita este cenário e fala antes em falta de meios.
A Lusa teve acesso à fita do tempo deste caso, que mostra que o homem, de 78 anos, ligou pela primeira vez a pedir socorro ao INEM pelas 11h20 de terça-feira, tendo esta situação sido classificada como prioridade 3 - que prevê o acionamento de meios em 60 minutos -, mas apenas foi enviada a viatura médica pelas 14h09, quase três horas depois.
A fita do tempo regista, pelas 11h23, que a vítima tinha dado uma queda, mostrando-se agitado, confuso, sonolento e prostrado.
Apesar de ter sido considerado uma situação de prioridade 3, mais de uma hora depois, pelas 12h48, a fita indica que a Cruz Vermelha do Seixal não tinha ambulância, que as ambulâncias de Almada e Seixal estavam ocupadas e, pelas 13h29, houve uma segunda chamada para o INEM a questionar a demora de meios.
Pelas 14h05 houve uma nova chamada e foi registado que a vítima estava em paragem cardiorrespiratória e pelas 14h09 foi enviada a viatura médica de Almada, que entretanto ficou livre.
À Renascença, Rui Lázaro lamenta o caso, e admite que o novo modelo de triagem no Instituto Nacional de Emergência Médica pode ter estado na base do atraso no socorro. "A ocorrência inicialmente triada, como podendo aguardar pelo envio de meios, pode ter sido determinante para o desfecho trágico", diz o presidente do STEPH.
"Ainda estamos a tentar obter mais informações, mas é importante, desde já, que surja uma explicação do INEM", apela.
O representante do técnicos de emergência pré hospitalar reforça ainda que "antes deste novo modelo de prioridades, o que teria acontecido é que, assim que a chamada é triada como emergente, teriam sido procurados os meios de emergência para enviar para esta ocorrência".
"Importa apurar efetivamente se esta espera inicial colocou ou não em causa a sobrevivência deste cidadão e, eventualmente, ter o próprio Ministério Público a investigar este acontecimento", aponta.
Ouvido pela Renascença, o Bastonário da Ordem dos Enfermeiros contraria a versão dos técnicos de emergência pré-hospitalar, que acusa de querer "criar ruído". "Não se trata de um problema do CODU, do INEM, ou do novo modelo de triagem. A única coisa que foi instituída é uma triagem por cores, que determina unicamente o tempo do acionamento de meios", explica.
Luís Filipe Barreira atribui a responsabilidade do atraso no socorro ao idoso à falta de ambulâncias na margem sul do Tejo. "Na verdade temos um problema de falta de ambulâncias na margem sul, que não é de hoje, nem de ontem, e é necessário que seja feita esta reforma estrutural", continua.
Por sua vez, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, apesar de admitir a escassez de meios de emergência médica em concelhos como Alcochete, Almada, Barreiro, Moita, Montijo, e Seixal, refere que podia ter sido encontrada uma solução.
"Naturalmente que nós, funcionando em rede, não acreditamos que numa situação de gravidade que nos seja transmitida, não se pudesse encontrar a solução", diz.
Na sexta-feira, o INEM anunciou o início de um novo sistema de atendimento das chamadas recebidas nos CODU (Centro Operacional de Doentes Urgentes), que prevê cinco níveis de prioridade (emergente, muito urgente, urgente, pouco urgente e não urgente), à semelhança da triagem usada nos hospitais.
A classificação resulta da avaliação clínica que é realizada pelos profissionais do CODU, com base na informação recolhida durante a chamada para 112.
A prioridade emergente, para situações de risco de vida iminente, implica uma resposta imediata, com o envio de meios de suporte básico de vida, articulados com suporte imediato ou avançado de vida. Para os casos muito urgentes, o novo sistema prevê a chegada do primeiro meio de socorro ao local até 18 minutos e nas situações urgentes, com risco de agravamento clínico, o tempo de resposta previsto é até 60 minutos. Já os pouco urgentes preveem a chega ao local de meios em 120 minutos.
O novo sistema de triagem do INEM tem sido alvo de críticas, com os bombeiros a dizerem que, com a definição dos tempos por prioridades, os doentes são deixados à espera de ambulância, apesar de haver meios disponíveis.
Uma reportagem da SIC revelou na terça-feira um caso de um pedido de ajuda recebido pelos bombeiros de Tábua, de um utente que tinha ligado para o INEM, que o avisou de que a ambulância poderia demorar até duas horas (120 minutos), apesar de haver meios disponíveis na corporação, que acabou por responder de imediato.
[Notícia atualizada às 11h20 para acrescentar as declarações do presidente da Liga dos Bombeiros à Renascença]