08 jan, 2026 - 15:15 • Redação
A Entidade Reguladora da Saúde (ERS) revelou esta quinta-feira que existem persistentes desigualdades regionais, tempos de espera elevados e dificuldades no acesso atempado à Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI).
Segundo os dados divulgados, em 2024 existiam cerca de 700 pessoas em fila de espera para terem acesso a cuidados continuados, mais 43% que no ano anterior.
Em declarações à Renascença, José Bourdain, presidente da Associação Portuguesa dos Cuidados Continuados, diz que os dois últimos Governos desprezam a área, o que faz com que muitas unidades acabem por encerrar. "O governo anterior e o atual governo não têm o mínimo interesse pelos cuidados continuados. É uma área completamente desprezada", assegura.
Para Bourdain, a situação nos cuidados continuados é insustentável, até porque as unidades que ainda existem "estão financeiramente insustentáveis". "Há um enorme subfinanciamento há anos", lamenta.
"Os custos sobem, os salários dos trabalhadores sobem, até por imposição do próprio Estado, mas depois o Estado não atualiza os preços que pagam às unidades para suportar os custos que lhes inflinge. E é uma equação matemática impossível. E por essa razão não há mais oferta de camas nos cuidados continuados”.
Para o presidente da associação, a "falta de organização" e investimento nesta área é "mandar dinheiro para o lixo". "Gasta-se mais e não se resolve", lamenta Bourdain, para quem investir em mais ambulâncias não vai solucionar o problema da assistência de emergência. "Já disse várias vezes que, sem cuidados continuados, o Serviço Nacional de Saúde colapsa", reitera, lembrando que o problema reside no facto dos hospitais não terem "possibilidade de libertar camas".
"Fala-se que são necessárias mais cem ambulâncias nesta altura do ano para acudir às situações... mas porquê? Porque há ambulâncias retidas nos hospitais, porque têm doentes que não deviam estar nessas macas e as ambulâncias deviam estar a circular normalmente", refere. Para Bourdain, esse dinheiro deveria ser, antes, "alocado onde faz falta", que é "precisamente em mais camas de cuidados continuados, mais lugares em apoio domiciliar, mais lugares em lares de idosos".
"É uma questão de organização", repete, lançando duras críticas. "É tudo uma questão de liderança, uma questão de competência. Como, infelizmente, há muitos anos não temos no Governo e na Administração Pública", remata.