10 jan, 2026 - 16:24 • Beatriz Pereira
Uma mulher com uma doença oncológica em fase terminal teve que ficar deitada no chão das urgências do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, na quinta-feira, devido "à falta de macas" na unidade de saúde.
A informação foi partilhada nas redes sociais pelo filho da utente, que numa "carta aberta", denuncia aquele que foi o momento em que viu a "mãe, doente oncológica em fase terminal, deitada no chão de um hospital português".
João Gaspar adianta que a mãe, que "tem um cancro generalizado na zona abdominal", sofre com dores constantes e que tem uma "bolsa de urina e saco para as fezes". "Não consegue andar sozinha nem permanecer sentada por muito tempo. Ainda assim, ontem foi tratada como se fosse apenas mais um corpo à espera", escreve.
O homem afirma que, perante as "dores insuportáveis" da mãe, ligou para a Saúde 24, mas ninguém atendeu. Após esse momento, foi realizada uma chamada para o 112, para que fosse enviada uma ambulância. "Vinte minutos depois voltaram a ligar para dizer que não havia ambulâncias disponíveis e que teríamos de aguardar por tempo indeterminado. Tempo indeterminado quando uma pessoa grita de dores", aponta.
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O filho acabou por levar a mãe, por meios próprios, para o hospital, onde lhe foi informado de que não existiam macas disponíveis e que a sua mãe teria de ficar numa cadeira de rodas. Só que "ela não aguentava", explica João Gaspar, uma vez que só conseguia estar numa posição de barriga para baixo.
"Sem maca e sem alternativa, deitámos a minha mãe no chão, sobre uma manta trazida por nós. No chão de um hospital, em 2026", relata, numa publicação no Facebook.
João Gaspar, que partilhou uma fotografia do momento, diz que "só quando perceberam que aquela imagem estava a ser registada é que alguém começou a agir".
Após o episódio, foi administrada morfina, duas vezes, à doente, que recebeu ainda soro. Foram feitos também exames.
A Associação de Proteção Civil APROSOC atribui dem(...)
A Renascença tentou contactar a Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra para obter esclarecimentos, mas sem sucesso. Nas redes sociais, a ULS partilhou, inicialmente, um comunicado em que dizia ter tomado "conhecimento do relato recentemente divulgado nas redes sociais" e que, "perante os factos descritos", iria abrir um "processo de averiguações" para "apurar, com rigor e seriedade", as circunstâncias do caso.
Horas mais tarde, um novo comunicado prestava "esclarecimentos adicionais" sobre as notícias difundidas sobre o episódio, com a unidade hospitalar a dizer que a alegada falta de macas "não corresponde à verdade", garantindo que as acusações, que apelida de "infundadas", e a "exploração mediática" não fazem "justiça ao trabalho diário feito no Serviço Nacional de Saúde" por médicos, enfermeiros, assistentes técnicos, assistentes operacionais e demais profissionais", que asseguram "cuidados em condições muitas vezes difíceis".
Fazendo a "defesa dos profissionais", a ULS de Coimbra rejeita, "de forma clara e inequívoca, as acusações dirigidas aos seus profissionais" e diz que as equipas de urgência "têm enfrentado turnos particularmente exigentes e penosos", num contexto de "elevada pressão assistencial", atuando "sempre com profissionalismo, humanidade e respeito pelos doentes".
A unidade hospitalar assegurou, nessa nova missiva, que a doente oncológica não ficou "deitada no chão por falta de macas", que "o enfermeiro da pré-triagem foi abordado por um familiar com o pedido de uma maca" e que, "após avaliação da situação no local", foi verificado que a doente "se encontrava calma, orientada e capaz de se sentar".
"A doente entrou no Serviço de Urgência sentada em cadeira de rodas, acompanhada por dois familiares, situação corroborada pelos seguranças do serviço", é dito. Durante "um curto intervalo temporal", que o hospital não especifica, um dos familiares da doente foi buscar uma manta, estendeu-a no chão e deitou a doente, "anunciando a intenção de fotografar e divulgar imagens", é dito.
"Um bombeiro alertou imediatamente a equipa de enfermagem de que a utente se iria deitar no chão e esta interveio de imediato, procedendo à triagem da doente", continua a mensagem, publicada no Facebook da unidade hospitalar. "Em nenhum momento a ULS de Coimbra permitiu, nem permitiria, que uma doente permanecesse no chão por inexistência de meios, seja ela doente oncológica ou não", é reiterado, com a ULS a adiantar que a doente em questão recorreu duas vezes ao serviço de urgência, "tendo sido sempre triada com prioridade clínica laranja (muito urgente)".
"A ULS de Coimbra mantém-se totalmente disponível para prestar todos os esclarecimentos adicionais que se revelem necessários, reafirmando o seu compromisso com a verdade dos factos, com a qualidade dos cuidados prestados e com a defesa do Serviço Nacional de Saúde e dos seus profissionais", termina a mensagem.
[Notícia atualizada às 13h45 de 11 de janeiro de 2026 para acrescentar o conteúdo dos comunicados publicados, no entretanto, pela ULS de Coimbra]