“Não posso abandonar estas pessoas”. Entre sacos, caixas e noites sem dormir, Cátia não consegue parar de ajudar
09 fev, 2026 - 11:00 • Beatriz Lopes
Empregada de balcão e mãe de três filhos, Cátia Almeida transformou a própria experiência de pobreza numa rede de ajuda que se move à medida que o mau tempo atinge o país. Através da página "Fazer Bem Sem Olhar a Quem 2024", Cátia recolhe e entrega bens essenciais a famílias que ficaram sem água, sem luz e sem respostas. Em aldeias onde a ajuda ainda não chegou, faz o que pode. “Ao menos, sei que fiz ali a diferença naquele momento.”
Na sala de Cátia Almeida, quase não há espaço para andar. O chão está ocupado por caixas, o sofá coberto de sacos de bens alimentares, produtos de higiene, fraldas, leite em pó. A partir de casa, em Chelas, os bens são organizados, o carro é carregado e a estrada começa: desta vez, com destino a Alcobaça, uma das zonas recentemente afetadas pelo mau tempo.
“Já estive em Alvaiázere, Ferreira do Zêzere, Souto da Carpalhosa, Santa Eufémia, onde tive acesso direto a famílias que estavam a precisar de ajuda e que ainda não tinham recebido nenhuma”, conta.
Desde que o mau tempo se agravou, Cátia tem passado por várias localidades do centro do país, sobretudo aldeias pequenas e isoladas, muitas delas ainda fora do alcance da ajuda institucional. Em algumas casas, dias sem água e sem eletricidade alteraram rotinas básicas e trouxeram à superfície fragilidades que já existiam antes das tempestades.
“Ajudei duas mães”, conta. “Eram duas mães com dois bebés pequeninos: um menino de oito meses e uma menina de dois meses. A mais pequenina não tinha leite, a mãe não tinha fraldas e a comida já estava a acabar”, descreve. No caso do bebé de oito meses, a mãe estava sem água e sem luz e aquecia água num pequeno fogão a gás, “um campingás”, para lhe dar banho.
“A senhoria tinha um gerador, mas não o partilhou. Estavam com lanternas e velas acesas dentro de casa”, relata.
Ainda nessas deslocações, Cátia chegou a uma IPSS na zona de Pias, concelho de Ferreira do Zêzere, também afetada pelo mau tempo. Soube da situação através de conhecidos e seguidores e foi até lá com os bens que tinha disponíveis. Quando perguntou se já tinham recebido algum apoio, percebeu que aquela tinha sido a primeira ajuda a chegar. “Fiquei comovida. Ao menos sei que fiz ali a diferença naquele momento”, diz.
Há cerca de três anos, Cátia estava do outro lado. Desempregada, recebia cerca de 500 euros de subsídio e tinha de pagar renda, água, luz e alimentação para si e para os três filhos.
“Depois começou o cerco a apertar”, conta. As despesas acumularam-se, a comida começou a faltar. “Houve fases em que eu e os meus filhos passámos fome”, diz.
Foi nesse período que fez o primeiro apelo nas redes sociais, a pedir ajuda para a própria família. A resposta chegou de onde não esperava. Desconhecidos estenderam a mão e, com essa ajuda, começaram também a chegar outras histórias, muito parecidas com a sua - algumas ainda mais duras.
“Disse para mim: não vou ajudar só a minha família. Vou ajudar estas famílias”, lembra. Começou por apoiar pessoas em situação de sem-abrigo, levando comida e bens essenciais, e acabou por se focar sobretudo em famílias com crianças.
A página "Fazer Bem Sem Olhar a Quem 2024" nasceu desse impulso. É ali que Cátia partilha histórias, faz apelos e mostra, com fotografias e vídeos, para onde seguem as doações. Não tem parcerias nem apoio de empresas. Tudo o que entrega vem dos seguidores. “Se não forem eles, eu não consigo ajudar estas famílias”, afirma.
No início, chegou a usar dinheiro do próprio bolso. Hoje, diz, há pessoas que confiam “de cabeça” e muitas vezes nem pedem comprovativos. A confiança construiu-se no terreno.
Conciliar este trabalho com a vida pessoal e profissional é um exercício diário de resistência. Aos 35 anos, Cátia trabalha como empregada de balcão numa pastelaria, tem uma folga por semana e passa grande parte das noites a responder a mensagens, organizar pedidos e planear entregas. “Às vezes vou dormir às duas ou três da manhã”, admite.
As entregas são feitas quase sempre nos dias de folga e, mesmo durante a semana, há desvios depois do trabalho para deixar bens em casas de mães que precisam.
Sem carta de condução, depende do companheiro para se deslocar. É ele quem conduz quando há entregas ou recolhas, tornando-se, como diz, “um dos braços direitos”. Conta também com o apoio da filha mais velha, que fica com os irmãos quando precisa de se ausentar. Há ainda amigos que a acompanham no terreno e ajudam na logística. Sozinha, reconhece, não conseguiria.
Apesar do cansaço, não pensa parar. “Não posso abandonar estas pessoas”, diz. Muitas das famílias que acompanha não têm apoio familiar nem respostas do Estado. Algumas procuram-na apenas para falar. “Às vezes dizem-me que só precisam de desabafar, de um abraço”, conta.
A próxima paragem já está traçada: Pataias, no concelho de Alcobaça, uma das zonas afetadas pelo mau tempo. Os pedidos acumulam-se - famílias desalojadas, casas destruídas, rendimentos perdidos. O cenário muda todos os dias. Cátia vai avaliando o que é possível fazer. “Porque todos os dias tenho conhecimento de várias situações”, diz.
A quem está a atravessar dificuldades, deixa uma mensagem simples, que repete muitas vezes às mães que acompanha: “O desistir não é solução. Existe muita pobreza escondida, muito medo. Mas não tenham medo nem vergonha de pedir ajuda.” E insiste: “Só não há solução para a morte. Mantendo a fé, as coisas encaminham-se e as soluções aparecem.”
- Noticiário das 10h
- 13 jun, 2026









