Coimbra
Risco no Mondego? “Os diques não protegem infinitamente”
11 fev, 2026 - 12:02 • André Rodrigues
Antigo bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Matias Ramos, alerta para “falta de cultura de segurança” das infraestruturas. E questiona a manutenção do sistema de gestão do Baixo Mondego. “Há limites de projeto” que não devem ser ignorados.
O antigo bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Matias Ramos, aponta falhas na manutenção do sistema que gere o Baixo Mondego.
Face à chuva intensa na região de Coimbra — que coloca as populações de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho em alerta — o ex-diretor do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, conhecedor da realidade da região de Coimbra, aponta para a necessidade de vigilância contínua e intervenção rápida em pontos críticos.
“A ideia que eu tenho é que não há uma cultura de segurança nas obras mais vulneráveis, potenciadoras de situações de catástrofe”, alerta na Renascença
O que se teme agora no Mondego já aconteceu em 2001
Recordando que situações semelhantes já se verificaram no passado, o antigo bastonário sublinha que, na sequência desses episódios, "foram produzidos pareceres e avaliações" cujo cumprimento importa esclarecer.
“O que se teme que aconteça agora no Mondego já aconteceu em 2001. Quem tem a responsabilidade da gestão daquela infraestrutura? É uma infraestrutura que merece atenção especial.”
Para Carlos Matias Ramos, "não basta observar, é preciso agir" quando os dados exigem: "se não houver observação e, em função dos resultados dessa observação, não houver intervenção com medidas que reduzam o risco de rutura, caminhamos sempre para situações análogas".
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Nesse contexto, Matias Ramos questiona "as condições das estações de enxugo da Foja e do Pranto", essenciais ao escoamento das águas.
“O que é que está nas estações de enxugo da Foja e do Pranto? Estão lá os equipamentos previstos no projeto? E se estão, estão em condições de funcionamento? O que percebi das imagens, não estão… e há pequenas intervenções que poderiam minimizar a situação", assinala.
Se não se respeitam os projetos, o país vai mal
O ex-diretor do LNEC insiste no respeito pelos critérios de projeto e pelas limitações de cada obra, lembrando que os diques não são uma barreira absoluta.
“Há a sensação de que, quando se faz uma obra, ela vai proteger para todas as situações. O que é falso. Os diques não protegem infinitamente; protegem até ao limite da sua capacidade, em termos de dimensionamento, aceite pelos organismos do Estado.”
Ao mesmo tempo, critica licenças de construção em zonas vulneráveis, junto aos diques do Baixo Mondego, entre Coimbra e a Figueira da Foz.
“É inaceitável aceitar que se construa próximo dessa zona. As construções antigas que já lá estavam podem ser geridas; agora, novas obras junto aos diques estão no limite daquilo que eu considero o mínimo aceitável numa sociedade evoluída.”
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A comparação com as barragens serve de contraponto: “as barragens são fortemente acompanhadas”, diz o engenheiro, que defende que o mesmo princípio deve aplicar‑se aos diques.
“Obras desta natureza têm de ter observação contínua, não podem ser objeto de abandono... muitas vezes gasta‑se onde não se deve e não se gasta onde se deve, porque nos falta cultura de segurança e de exigência”.
Proteger povoações com "ruturas controladas"
Num cenário limite, para evitar danos humanos e materiais, Carlos Matias Ramos admite "intervenções de proteção ativa", como abrir ruturas controladas em zonas não habitadas, aliviando a pressão para salvaguardar povoações.
“Se se romper um dique numa zona sem efeitos para pessoas e bens, nada impede que, por razões de segurança, se faça nas zonas de maior vulnerabilidade e se provoquem ruturas noutros locais, evitando consequências junto às povoações.”
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