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Comunicar em crise

Investigadora defende mensagens mais descritivas da Proteção Civil

13 fev, 2026 - 21:59 • Liliana Carona

Bianca Toniolo acredita que o Governo falhou na comunicação na tempestade Kristin e apela a uma linguagem mais acessível e descritiva, sobretudo para pessoas que têm outros consumos mediáticos. Para a especialista em comunicação de crise, a SMS: “Depressao Kristin: Vento intenso até 140 km/h nas próximas horas na sua região. Fique atento”, não convoca a prudência necessária.

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Comunicação antes e depois do temporal: “falhou basicamente tudo”
Investigadora Bianca Taniolo diz que “falhou basicamente tudo” em matéria de comunicação

Vive em Leiria e trabalha na Covilhã. Entre as duas cidades, Bianca Toniolo, 46 anos, professora auxiliar convidada na Universidade da Beira Interior e também na Universidade de Coimbra, construiu um percurso académico focado num tema que se tornou recorrente na vida coletiva portuguesa: a comunicação de risco e de crise.

A investigadora no Labcom, unidade de investigação da Universidade da Beira Interior, terminou há um ano um doutoramento centrado precisamente nesta matéria, tendo como base de análise os incêndios florestais em Portugal entre 2017 e 2019. Desse trabalho resultou um modelo normativo e analítico que permite planear e avaliar a comunicação em qualquer desastre de origem meteorológica, passível de adaptação a outras catástrofes que sigam padrões semelhantes.

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A teoria, porém, ganhou contornos muito concretos na noite da tempestade Kristin. Bianca recorda essa madrugada em Leiria como “uma noite terrível”. Passaram horas acordados, assustados, a ouvir “os barulhos, os sons da rua, os sons daquele vento muito intenso passando pela cidade e derrubando árvores, destruindo telhados”. O que se ouvia não correspondia ainda ao que se imaginava. “Era possível ouvir, mas não imaginávamos que veríamos o que vimos quando abrimos a janela no outro dia pela manhã e encontrámos a cidade completamente destruída”.

Mensagens de alerta enviadas na tempestade não foram descritivas o suficiente

O que falhou, na sua perspetiva, não foi apenas a previsão meteorológica ou a dimensão inesperada do fenómeno. Falhou, sobretudo, a forma como a informação chegou às pessoas. “Nós não recebemos nenhum tipo de alerta que fosse capaz de realmente aumentar a perceção de risco, do tamanho que era o risco”. A mensagem que chegou foi um SMS da Proteção Civil a avisar para “ventos de até 140 km por hora” e a recomendar atenção. “Nenhuma informação instrutiva, nem o que você deve fazer, o que não deve fazer, como proteger a si mesmo ou proteger as pessoas mais vulneráveis”, observa Bianca Toniolo.

Para a investigadora, basear a comunicação num SMS durante um evento desta magnitude revela uma fragilidade estrutural. “Trata-se de uma tecnologia falível quando a infraestrutura tecnológica colapsa, quando a energia falha, quando as comunicações deixam de funcionar, fica vulnerável uma grande parcela da população”, sublinha, lembrando que houve zonas onde o restabelecimento foi lento e, em alguns casos, ainda incompleto.

Outro ponto essencial é a tradução dos dados técnicos em linguagem compreensível. “O que é um vento de 140 km por hora? Para muitas pessoas, é apenas um número. Pode ser relativizado, mal interpretado, ignorado. Quando a gente diz que é um vento de 140 km por hora, é um vento que corre à mesma velocidade que um automóvel quando passou do limite máximo das estradas aqui em Portugal, aí já se percebe que é um vento muito rápido”. Sem esta tradução, ‘140, 14, 1400’ é só um número que não diz nada, incapaz de transmitir urgência e gravidade”, defende.

Na tempestade Kristin, Bianca considera que “falhou basicamente tudo”. Além do SMS, houve comunicações nas redes sociais digitais, mas, ainda assim, “não foram capazes de transmitir a gravidade do que estava por vir. Faltaram orientações concretas e práticas”. “Ficar em casa, não sair durante a madrugada, guardar os veículos, retirar móveis das varandas, proteger pessoas e bens. Nenhum tipo de informação prática, efetiva para a autoproteção física e também a proteção material do património das pessoas. Cada um ficou entregue à sua interpretação de uma mensagem vaga”, afirma.

Para Bianca Toniolo, cabe ao governo nacional e aos governos locais um esforço mais consistente de tradução da informação que chega das entidades meteorológicas, como o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e a própria Proteção Civil. “Essa informação precisa ser convertida numa linguagem leiga, acessível à maioria da população”, acrescenta.

Hora de valorizar as rádios e os jornais locais

O problema, insiste, não é apenas o canal, é sobretudo o conteúdo. “Durante o evento não é a hora de buscar culpados, nem de tentar aliviar a sua responsabilidade. Não é a hora de tratar da reputação”, insiste a investigadora. A reputação, defende, é uma preocupação posterior, só depois de “a segurança das pessoas estiver assegurada e que os recursos necessários para suprir as necessidades de quem foi efetivamente afetado estejam a caminho”, considera Bianca Toniolo.

Na hierarquia dos meios que resistem ao colapso, Bianca aponta um sobrevivente antigo. “O rádio é o único canal que não falha nesses momentos, um rádio a pilhas, com antena, continua a funcionar quando tudo o resto falha. Não por acaso, tem havido uma corrida às lojas para comprar este equipamento. Daí a insistência na valorização das rádios locais e regionais, cada vez mais raras e financeiramente pressionadas. A informação localizada é fundamental, porque só quem está no terreno é que consegue medir a dimensão daquilo”, alerta ainda.

Também os canais devem ser repensados, sobretudo tendo em conta os públicos mais idosos, com padrões de consumo mediático diferentes. “Cartas, documentos impressos com logótipos, um timbre da Câmara Municipal, transmitem mais credibilidade.” São suportes físicos que se guardam, que se releem, que não dependem de bateria nem de rede. A publicação de medidas preventivas no jornal surge, assim, como uma possibilidade eficaz. “Utilizaria um canal que já é um dos canais de preferência deste público e ainda num material físico que se pode guardar, como o jornal”, conclui.

Em contexto de crise, comunicar não é apenas informar. É descrever, traduzir e orientar, de forma clara, concreta e acessível, para que as pessoas consigam, de facto, proteger-se.

Bianca Toniolo falou à margem do XIV Congresso da SOPCOM, o maior da área das Ciências da Comunicação e que está a decorrer na Covilhã, reunindo professores, investigadores e profissionais da área.

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